Wednesday, October 03, 2007

Hoje, na coluna Sala de Estar, da Revista Paradoxo:

Cliente satisfeito sempre volta

Renovando a fé na humanidade

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[04/10/2007]

Na crônica anterior, falei da falta de respeito da lanchonete Rei do Mate, do Shopping Campo Grande, que vende suco Ades de caixinha batido com água, açúcar e gelo como "suco natural", cobrando por 200 ml o valor da caixa de um litro de Ades puro, no supermercado.Felizmente, pude comprovar que nem todos os comerciantes são adeptos dessa "esperteza" que lesa o consumidor em prol do lucro imediato. Ainda em Campo Grande, resolvi lanchar em um estabelecimento do qual tomei conhecimento pelo Orkut, o Café Lírio, que fica na rua Maracaju entre a 13 de maio e a 14 de junho. A lanchonete comercializa salgados, sanduíches e refeições sem nenhum tipo de carne, tudo é muito bem feito e extremamente gostoso.

Fui muito bem atendida pela dona, nascida em Taiwan, que fala um português pontuado por um forte sotaque oriental. Quando pedi um pedaço da linda torta de chocolate que estava quase no final, à mostra na vitrine, ela não quis me vender. Sugeriu um pedaço de pavê no lugar, pois, segundo ela, a torta tinha sido feita há dois dias e ela não vendia torta velha para cliente. Ao final do dia, uma de suas funcionárias levaria para casa. Não foi apenas essa vez, outras vezes já cheguei no final do dia e ela se recusou a vender produto que estivesse há mais de um dia exposto. Diz que não gosta de vender nada que não esteja fresquinho. Desacostumada a esse tipo de coisa, é claro que me espantei. Quantas vezes já cansei de comer doces obviamente velhos, e, quando reclamava, recebia como resposta um nariz torcido e um "não, isso foi feito hoje"!

Resultado: dona Emy, do Café Lírio, ganhou uma cliente assídua. Único restaurante exclusivamente vegetariano de Campo Grande, ela tem freguesia cativa e crescente pela propaganda boca-a-boca de quem sai de lá impressionado com a qualidade dos lanches e com o preço justo que é cobrado. Boa comida, bom preço, bom atendimento. Renovei minha fé na humanidade. Algumas pessoas ainda possuem o respeito e a ética como valores de vida.

Se minha viagem a Campo Grande me colocou em contato com um lado tão feio da humanidade, exemplificado na atitude da proprietária do Rei do Mate do Shopping, também me mostrou um lado bonito, de respeito, honestidade e seriedade que há muito tempo eu não encontrava em um estabelecimento comercial. Estamos tão pouco acostumados com gentileza e honestidade que diante de uma demonstração desse tipo, ficamos até sem palavras. Estranho, é exatamente esse tipo de comportamento que, em um mundo ideal, deveria ser o normal. E o desonesto, mesquinho, maldoso e desrespeitoso deveria ser repudiado, mas é visto como natural. Nos espantamos em saber que o lixeiro que encontrou uma carteira recheada de dinheiro a devolveu, muitos chegam a julgá-lo burro por ter sido honesto, sem lembrar do “detalhe”: o dinheiro não era dele. Apropriar-se do que não é seu é errado, ainda que não haja ninguém para fiscalizar. Honestidade virou sinônimo de burrice e a falsa esperteza, que aparentemente traz lucro imediato, mas que a longo prazo não traz nada de bom, é louvada pela massa, de forma cada vez menos sutil.

Por que é tão fácil elastizar a moral e a ética dessa forma? Por que é tão difícil aceitar uma aparente perda? Dia desses comi uma torta velha em um outro estabelecimento do Shopping, cujo nome eu realmente não guardei. Estava obviamente velha, com aquele gosto de geladeira das comidas velhas guardadas destampadas. Primeira garfada e devolvi a coisa, sou cliente chata mesmo. Trocaram a torta, com cara feia. A outra torta não estava muito boa, mas também não estava tão nojenta quanto a outra. Comi, eu estava mais tolerante naquele dia. Comi, mas nunca mais volto lá para comer um pedaço de torta. Perderam uma possível cliente, perderam outros possíveis clientes a quem eu certamente recomendaria o lugar, pois eu sou um outdoor ambulante dos lugares e produtos de que gosto.

Dona Emy não me vendeu a torta. Não comi torta no Café Lírio aquele dia, mas sua atitude valeu tanto para mim que voltei nos dias seguintes, levei minha mãe e ainda fiz propaganda para todo mundo que encontrei desde então. Por isso a "esperteza" de quem não respeita o consumidor vem entre aspas. Na verdade, esse tipo de falsa esperteza, em qualquer outra situação, também vem entre aspas. Enganar para conseguir o que não é seu, também é uma "esperteza" que não trará nada de bom no futuro. Tentar prejudicar os outros em benefício próprio é uma semente perigosa de se plantar. Se as pessoas aprendessem isso, se entendessem o valor da ética, de se fazer o que é certo, de não prejudicar ninguém e tantas outras coisas ultrapassadas, teriam outra qualidade de vida e muito menos do que reclamar. "Porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará" [Gálatas 6:7], isso é uma alegria para alguns, mas em outros, deveria dar calafrios. Porém, sempre é tempo de mudar a semente. Não há dinheiro que compre a paz de espírito que tem quem não dá motivos para que se coloquem aspas em suas qualidades.

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Thursday, September 06, 2007

Cliente enganado não volta

Reflexões sobre falta de ética

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[07/09/2007]

Na terça-feira fui ao Shopping Campo Grande com minha mãe, matar as saudades da terra natal. Na metade do passeio, fizemos uma pausa para tomar um lanche. Escolhemos o "Rei do Mate", conhecido por vender um copo cheio de pãezinhos de queijo [doze, para ser mais precisa] e, obviamente, chá de mate. Como não sou muito fã dessa bebida, olhei no cardápio e escolhi um "suco natural". Pensei, pensei e optei por um suco de maçã, gostoso e nutritivo. Gosto de sucos naturais, pois costumo dispensar o açúcar para sentir o gosto da fruta. Bem feliz, esperei, encostada no balcão da claustrofóbica lanchonete, enquanto minha mãe escolhia uma das mesinhas em frente ao Rei do Mate, próximas à Loja Riachuelo.

Estava curiosa para descobrir o quão natural era aquele "suco natural", estou mais do que acostumada a receber suco de polpa congelada como se fosse suco "natural". Aceito. Em último caso, a polpa foi fruta algum dia. Raro encontrar fora de cidades litorâneas lanchonetes que vendam suco de fruta fresca, como a Big Polis, no Rio [que saudade, que saudade...]. Não sou tão chata assim, não exijo tanto. Aceito suco de polpa congelada como natural, desde que não seja artificial, é claro. Não coloque corante, nem aroma artificial [ou o eufemismo "idêntico ao natural"] e eu já fico feliz.

Para a minha surpresa, a atendente tirou da geladeira uma caixa de suco Ades de maçã. Pára tudo. Ades é um suco de caixinha, à base de extrato de soja, com aromatizante para disfarçar o gosto do famigerado grão. Não disfarça. Ades de maçã tem gosto de Ades de maçã, não de suco natural de maçã, embora isso esteja entre seus ingredientes, de mãos dadas com o açúcar, o estabilizante pectina, o acidulante ácido cítrico e a água. Não importa o gosto. Era um suco de caixinha, uma desculpa industrializada para difundir o extrato de soja.

Não contente em despejar Ades de maçã no liquidificador, a moça colocou um pouco de água da torneira e abriu o refrigerador. Sem crer ainda no que meus olhos viam, resolvi esperar que ela concluísse o processo para entender se aquele era o meu pedido. Imaginei que agora, finalmente, pegaria a polpa congelada. Doce ilusão. Em vez da polpa, ela jogou alguns cubos de gelo dentro do copo do eletrodoméstico, acrescentou uma colher de açúcar refinado, bateu tudo muito bem, colocou em um copo e depositou na bandeja à minha frente.

Ainda incrédula, experimentei a bebida, para que meu paladar desmentisse meus olhos. Era mesmo Ades com açúcar. Um copo de 300 ml de Ades com açúcar, água da torneira e gelo sendo vendido como suco natural a três Reais. Eu adoro Ades, compro uma caixa de um litro no supermercado por, no máximo, três e quarenta. E sem o açúcar extra. Eu tive de perguntar à proprietária do estabelecimento, que atende no caixa, se aquilo era o "suco natural" deles. Ades com açúcar e gelo.

- Sim, é assim que são feitos todos os sucos aqui. - Ela respondeu.

- Mas isso não é suco natural! Você coloca açúcar em um suco industrializado que já vem adoçado e vende como suco natural? Eu imaginei que fosse pelo menos de polpa.

- É que polpa de maçã não existe. Não ficaria bom.

Não acredito, sinceramente, que essa senhora não tenha sido apresentada à polpa congelada de maçã, mas acredito menos ainda que ela não conheça pessoalmente a própria maçã. Fruta, já ouviu falar? Que tal bater indefesas maçãzinhas no liquidificador com gelo e água? Pelo menos valeria os três Reais por copo de 300 ml e não enganaria o consumidor. E qualquer fruta, qualquer polpa teria um gosto mais próximo do suco natural de maçã do que o Ades.

Cancelei o suco, bastante ofendida em minha inteligência. Não volto mais àquele lugar. Tentei entender o que leva alguém a enganar descaradamente em nome do lucro fácil. Ainda não consegui, confesso. Cliente enganado não volta. Cliente enganado não quer que seus amigos sejam enganados e faz propaganda contra. O que leva alguém a demitir a honestidade e preferir o engodo? Cliente respeitado gera novos clientes, volta outras vezes, gasta cada vez mais. Isso não é óbvio? Tentar a via do engano, do atalho, do caminho mais fácil é sempre a pior escolha. O que a dona do Rei do Mate do Shopping Campo Grande não sabia é que ela não estava me enganando, estava tentando se enganar.

Mentir para o cliente, tentar levar vantagem, preferir atalhar é comportamento cada vez mais corriqueiro em nosso país. Quem aceita esse tipo de atitude não pode reclamar dos políticos corruptos, da sujeira no alto escalão, não pode reclamar de que nada funciona direito no Brasil. Se a ética fosse respeitada no dia-a-dia, aqui em baixo, teríamos o reflexo disso lá em cima. Por que é tão difícil entender que uma coisa aparentemente pequena, como vender suco industrializado batido com água, açúcar e gelo tem como origem o mesmo defeito de fabricação [ou melhor, de cultura] responsável por desvios de dinheiro, fraudes na previdência e enriquecimento ilícito? Não coloquemos a culpa no capitalismo, ele e a ética coexistem harmoniosamente em muitos lugares.

Algumas coisas não podem ser relativizadas, não podem ser elásticas, a ética é uma delas, a honestidade e o esforço também, sem sombra de dúvidas. Isso nas relações comerciais, nas relações de trabalho, na vida familiar, no casamento, na amizade, na saúde... O caminho mais fácil não leva a lugar algum, um casamento feliz exige trabalho árduo, uma amizade sólida não se consegue do dia para a noite, sucesso profissional é conquistado com anos e anos de esforço, um bom preparo físico é resultado de muito treino, muito tempo de dedicação. Nada que venha fácil permanece. A "esperteza" de enganar o cliente revela-se uma grande estupidez a médio prazo. Por mais que se subestime o cliente eventual, é justamente ele que faz a diferença, principalmente quando não há possibilidade de fidelizá-lo. Qual é, então, a vantagem?


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Thursday, August 30, 2007

Sem descanso

A vida secreta das palavras

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[30/08/2007]

Somos torturadores de palavras. A palavrinha está lá, na dela, bem feliz e de repente alguém resolve colocá-la em um contexto estapafúrdio para que ela se torne ainda mais estapafúrdia que a própria palavra "estapafúrdio". Temos o poder de transformar as palavras em qualquer coisa que quisermos, dependendo de como resolvemos usá-las e isso deve apavorar as coitadas.

Aliás, retiro o que disse. Nenhuma palavrinha pode estar na dela, feliz e saltitante, isso é impossível. As palavras vivem em constante estado de tensão, pois raramente são bem utilizadas. Sabem do poder do ser humano (aquele monstro) sobre elas e estão sempre de sobreaviso, apavoradas, não esperando menos do que o pior. Há quem diga que palavras são esperançosas. Não são. Elas se reinventam para renovar o disfarce, só isso. Mas vivem sempre assustadinhas, sem motivo aparente, antevendo o que nem existe.

Como a gatinha da minha mãe, a Lili. Nunca esteve na rua, nunca foi ameaçada, nunca foi maltratada, mas se esgueira pelos cantos, neurótica, esperando um ataque que nunca virá. Lili é uma palavrinha felina. A outra gatinha, Bianca, vive brincando e aproveitando a vida, descobrindo novas coisas dentro de casa há cinco anos. Se enrosca nos fios do computador e se diverte quando eu ou minha mãe chamamos sua atenção, sai correndo, se engalfinha em um ratinho de brinquedo no meio da sala e vive em um grande playground interessante, até cansar e dormir, em cima da cama, enquanto a Lili, na varanda, mia dramaticamente chamando a Bianca, que a ignora, sabendo que não é para tanto.

Lili vive em um constante stress. Palavras são estressadas. Minha mãe levantou a hipótese de ela ter desenvolvido um problema de visão e se assustar porque vê tudo distorcido. Campo Grande é uma cidade desprovida de oftalmologista veterinário, portanto, só saberemos o dia em que a Lili, rica e famosa, resolver viajar para uma consulta no Rio de Janeiro.

Talvez as palavras não enxerguem bem em seu estado normal, precisam ser guiadas, pois vêem borrões distorcidos (um borrão distorcido é um troço bem borrado mesmo). Devem ser tratadas com carinho e paciência e devidamente orientadas pelos caminhos mais seguros. Palavras são tão sensíveis, delicadas, frágeis e expostas quanto gatos. Infelizmente, é impossível castrá-las e não dar acesso à rua. Se telássemos as janelas e não deixássemos as palavras na rua precisaríamos delas na saída, dos gatos não precisamos lá fora. E as palavras, mesmo assustadas, precisam sair e encontrar outras palavras, os gatos só saem por curiosidade, vivem bem felizes dentro de casa.

E palavras nunca morrem. Um gato na rua pode ser atropelado, envenenado, torturado, maltratado, atacado, e nunca voltará. Uma palavra na rua pode ser atropelada, envenenada, torturada, maltratada, atacada e continuará, higlander, sua jornada milenar e sem descanso, esgueirando-se pelos becos ou sem esperança, sem alma, em bocas rasas, ou mesmo escondida, nas entrelinhas. Entrelinhas são submundos das palavras, sociedade paralela na qual palavrinhas sujas e esfarrapadas reúnem-se em redor de fogueiras, esquentando nojentas salsichas, cercadas de cinza e sombras. Não há luz solar nas entrelinhas, e vive-se reptilianamente, trogloditando pelos dias. Vida difícil.

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Thursday, July 26, 2007

Tragédia anunciada

O maior acidente da aviação brasileira não chegou sem aviso

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[26/07/2007]

A notícia do acidente com o airbus da TAM só foi assimilada depois que tivemos a confirmação de que meu irmão, que é piloto, não estava na aeronave. Era aniversário da minha mãe e ela passou a noite apreensiva, até conseguir falar com ele. Respiramos semi-aliviados. Porto Alegre está em choque. Muita gente conhecida estava no vôo, não se fala em outra coisa. Foi uma tragédia de proporções assustadoras, da qual fiquei sabendo às dez e quinze da noite, saindo da aula. Depois que consegui falar com meu irmão é que tive idéia do tamanho do desastre, ele me disse várias vezes que foi uma tragédia, que havia morrido muita gente no avião e em terra, mas só quando cheguei em casa e pude ver as notícias percebi que havia sido pior do que eu poderia imaginar. É óbvio que fiquei aliviada por não ter ninguém da minha família ali, mas foi inevitável sentir a dor daquelas famílias que perderam seus entes queridos de forma tão brusca. Depois do choque, a população aguarda uma resposta sobre os motivos do acidente.

Que me desculpem aqueles que estão ávidos por jogar a responsabilidade sobre a TAM, sobre o piloto, sobre a aeronave, sobre o diabo (ele, talvez, tenha tido sua parcela de culpa): essa era uma tragédia anunciada. Quem já pousou em congonhas (e eu já o fiz inúmeras vezes nas conexões de vôos para Porto Alegre, Campo Grande e Rio de Janeiro e também quando fui a São Paulo) sabe que dá a nítida impressão de que o avião vai cair em cima dos prédios. Quem já esteve nos arredores de Congonhas, em terra, também sabe que parece que os aviões vão cair em cima de nossas cabeças. A primeira vez em que vi um avião voar tão baixo por ali, juro que me apavorei, sendo tranqüilizada por meu irmão, que me assegurou que ele não cairia.

Um aeroporto daqueles não tem como não ser perigoso, ainda mais sendo um aeroporto internacional, local de escalas e conexões de vôos interestaduais; Congonhas não tem condições de suportar todo esse fluxo de aeronaves grandes. Com a pista molhada, então, liberar pousos e decolagens em um aeroporto sem área de escape, é uma temeridade. É claro que não houve apenas um fator responsável pelo acidente, ou então todos os aviões que pousaram em Congonhas naquele dia teriam se acidentado; mas a pista molhada não pode nem ser desconsiderada como fator, nem relegada a segundo plano, como insiste em fazer o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira.

O Ministério Público, em Janeiro deste ano, havia pedido a interdição da pista principal de Congonhas e a proibição do uso da pista secundária depois das 23h. A decisão do MP foi tomada após a derrapagem de um Boeing da Varig. A Anac culpou a aeronave, o juiz Antônio Cedenho autorizou a liberação de Congonhas, mas determinou que a pista principal fosse fechada em períodos de chuva forte ou moderada, para evitar aquaplanagem. A Anac interpôs um agravo de instrumento contra essa restrição e a desembargadora Cecília Marcondes aceitou um relatório que estabelecia o peso máximo da aeronave para pousos em Congonhas, liberando o uso das duas pistas (em qualquer situação), ao contrário do que pedia o Ministério Público.

O MP entrou com a ação no dia 24 de janeiro e essa decisão foi tomada no final de fevereiro, cinco meses antes da tragédia com o avião da TAM. Em 22 de março de 2006, um avião da BRA (com 115 passageiros a bordo) derrapou em Congonhas, quase saindo da pista. O susto de imaginar que a aeronave poderia ter despencado na avenida nos fez pensar que providências seriam tomadas para evitar um desastre. Em 6 de outubro de 2006, um Boeing da Gol derrapou na pista por causa da chuva. Na época, com testemunhas vivas, o brigadeiro José Carlos Pereira foi obrigado a assumir que o acidente foi causado pela aquaplanagem e reconheceu que o pavimento precisava ser melhorado. Depois disso ocorreu a derrapagem do Boeing da Varig, no dia 17 de janeiro deste ano, e também foi noticiado que um avião da Pantanal derrapara no dia 16 de julho, um dia antes do acidente com o vôo 3054 da TAM.

A reforma foi feita, a pista foi entregue sem estar pronta, mas reforma alguma resolverá o problema crucial de Congonhas, sintetizado pelo engenheiro de terminais aéreos e ex-piloto militar, Joseph Fox, ao jornal O Estado de São Paulo: "A pista do aeroporto de Congonhas é o deque de vôo de um porta-aviões no meio de um oceano de casas, que não permite erros, transformando falhas pequenas em grandes tragédias". Fox, que viaja sempre para o Brasil, ainda confidenciou ao jornal: " Sempre que tenho de ir a Congonhas tenho a sensação de estar conduzindo meu jato A-5 Vigilante de volta de uma missão no Vietnã - pousar aquele monstro de 21 toneladas e 23 metros em menos de 300 metros sobre o mar, era tão assustador como a aterrissagem em São Paulo."

Depois o brigadeiro José Carlos Pereira não sabe a razão de a Ifacta sugerir uma intervenção internacional. Se o Brasil tem condições de resolver esses problemas sozinho, sem colocar em risco nenhum brasileiro ou estrangeiro, então que resolva logo, sem politicagem, sem tentar varrer qualquer coisa para baixo do tapete, sem ceder a pressões para manter Congonhas operando da mesma forma depois desse desastre. Que fique claro: sem usar Congonhas como joguete político nem de um lado, nem de outro. Nem para salvar a pele do governo federal, nem para crucificá-lo.

É óbvio que querem colocar a culpa na aeronave, querem colocar a culpa no piloto, no co-piloto, no controlador de vôo, em qualquer coisa que não seja o óbvio, mas o Ministério Público Federal é brasileiro, não desiste nunca e entrou, no dia seguinte ao acidente, com outra Ação Civil Pública (através dos procuradores Fernanda Teixeira Souza Domingos Taubemblatt, Márcio Schusterschitz da Silva Araújo e Suzana Fairbanks Lima de Oliveira), desta vez pedindo o fechamento do aeroporto de Congonhas, por segurança, pelo menos até que sejam concluídas as investigações. Na inicial da ação anterior, de janeiro, os procuradores questionavam: "Quantas vidas mais serão colocadas em risco para que medidas efetivas e satisfatórias sejam tomadas? Quantos incidentes ainda terão que ocorrer para que as autoridades se conscientizem dos valores constitucionais máximos, dentre eles o direito à vida e à integridade física?" Após a tragédia anunciada, espero que não tenhamos de somar mais nenhuma vida perdida, nenhum novo incidente aos números que já temos para dar esta resposta.

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Thursday, June 21, 2007

Aprendendo a dirigir VII

A batalha final

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[22/06/2007]

Hoje era um daqueles dias em que tudo estava programado para dar errado, e se eu acreditasse nisso, teria dado, mesmo. Não consegui dormir cedo, tive aula às sete da manhã e consegui apenas três horas de sono. Fiz aula no mesmo lugar do exame, Intercap, ontem e hoje, o que foi muito importante para que eu me familiarizasse mais com as ruazinhas apertadinhas, todas iguais. Confesso que não estava muito confiante, não havia a menor razão para acreditar que eu passaria, exceto o fato de eu saber dirigir direitinho. O problema é que o exame prático não avalia se você sabe dirigir, se é um motorista prudente, se tem condições de ir para o trânsito, a única coisa que o exame, do jeito que é feito, com examinadores despreparados e regrinhas burras avalia é seu estado emocional no momento da prova. Se você estiver nervoso, reprova, se estiver calmo, passa, não importa o quanto dirija.

Eu realmente não acreditava que, naquele estado de nervos, teria algum resultado positivo. Cheguei em casa e dormi até o almoço, ignorando a outra aula que me tomaria toda a manhã. Ao invés de descansar, acordei exausta, pois tive os pesadelos mais horrorosos envolvendo trânsito. Sonhei, inclusive, que dirigia um ônibus estranho, e estava sentada em um banco ao lado do banco do motorista. Nem conto os malabarismos que tive de fazer para alcançar o freio e a embreagem, quando percebi que era eu a única motorista da coisa. Sonhei que havia sido multada pela Polícia Militar durante o exame, de madrugada, na chuva. Sonhei com conversões à esquerda, com mudanças de marcha, com baliza, com conversões à direita, com todos os erros e acidentes possíveis e imagináveis.

Acordei com o coração disparado como se toda aquela confusão onírica fosse real, então resolvi respirar fundo, tentar me acalmar, conversei com Deus, pedi para Ele preparar tudo direitinho e fazer o que fosse melhor para mim. Comi uma pizza feita pelo meu marido, comemoramos três anos de casamento, eu queria muito a carteira de motorista como presente nesta data especial, o que aumentava ainda mais a ansiedade.

Quando cheguei à auto-escola, todo mundo já havia ido para o exame - é um sinal - pensei, e já estava remarcando meu teste para a semana seguinte quando um garoto entrou dizendo que o Fernando, outro instrutor, combinara voltar para buscá-lo. Resolvi ir junto, e enquanto esperávamos, conversei com o rapaz. Ele estava muito, muito nervoso, era seu quarto teste. Finalmente, nossa carona chegou, o Fernando ficou na auto-escola esperando uma aluna retardatária e outro instrutor, o Diego, nos levou. Ele me contou, no carro, que o examinador era...o Adriano!

Para quem não se lembra, o Adriano é o examinador que não me deixou fazer o exame por meu nome estar abreviado, história contada no texto "Aprendendo a dirigir V". Ao chegar, constatei que ele estava certo, era a mesma criatura com quem eu me desentendera há três semanas. O Claudio disse que eu poderia escolher outro examinador, pois já conversara com ele a respeito. Duvidando que ele pudesse ser profissional na avaliação, eu realmente estava entre fazer o exame semana que vem ou arriscar outro examinador. Encontrei colegas repetentes de testes passados, e todos reprovaram novamente, um a um. O garoto que veio comigo, que estava extremamente nervoso, passou. Ele disse que quando colocou na cabeça que se não desse, não teria problema, faria dez vezes até conseguir, se tranqüilizou. Eis aí todo o segredo.

Ouvi algumas pessoas reclamando de instrutores, dizendo que trocariam de instrutor, que tantos alunos de fulano passaram, tantos de beltrano reprovaram, e tive de interferir. Uma das coisas que aprendi nos desastrosos exames anteriores é: você pode ter o melhor instrutor do mundo, se não conseguir controlar seu estado emocional na hora do teste, não adianta nada. O trabalho do instrutor é importante para que você aprenda a dirigir direitinho, com confiança, sem medo. Ao chegar no teste, você deve estar tecnicamente preparado, ou não estaria lá. O trabalho do instrutor já terminou, ele não tem responsabilidade alguma a partir dali. Quem tem de trabalhar, então, é você. Se passar, é mérito seu, se reprovar, também.

O único profissional que realmente pode atrapalhar um exame é o examinador, que tem o poder de te tranqüilizar ou de te deixar mais nervoso durante o teste. Por isso ele deve ser inteligente, ter discernimento, domínio próprio e deixar a arrogância em casa, se a possuir. Felizmente ainda existem alguns (poucos) assim, que sabem o que realmente devem avaliar, levando sempre em consideração o fato de a criatura estar naturalmente apavorada.

Fiquei por último. Felizmente, peguei um examinador simpático, jovem, que fez questão de que eu ficasse tranquila, não foi nada arrogante e pelo menos se esforçou em não me deixar mais nervosa do que eu já estava. Eu estava certa de que erraria coisas ridículas, porque estava ansiosa. Fiz a baliza direitinho, até porque eu sou a miss baliza, acho que ninguém nunca fez tanta baliza quanto eu, em toda a Via Láctea. Mas, como Murphy sabe, sempre havia a possibilidade de dar uma zebra, e eu estava preparada. Depois, a garagem, também certinho, o examinador entrou no carro e eu disse, aliviada: "bem, sobrevivemos à baliza".

Fiz 90% da prova em primeira e segunda, colocando a terceira apenas uma vez. Indo mais devagar, dava para controlar o nervosismo e fazer o que eu sabia fazer. A maior dificuldade no Intercap é a falta de sinalização horizontal nas ruas (para quem fugiu das aulas teóricas, sinalização horizontal é aquela feita com tinta na via, para separar as pistas, para marcar travessia de pedestres, etc.), temos de adivinhar onde acaba uma pista e começa a outra, quais ruas são mão única e quais são de mão dupla (sim, muitas daquelas ruazinhas apertadinhas têm dois sentidos!), e, como diria o Padre Quevedo, faixa de pedestres ali é algo que "non ecziste".

O examinador conversou comigo bem tranqüilo, sobre um cachorro que latira, sobre o fato de morar em Canoas, claramente para que eu relaxasse, e funcionou. Andamos bastante ali por dentro (ou não, porque tudo sempre parece interminável quando estamos nervosos), e eu realmente achei que havia reprovado por algum motivo desconhecido e que ele, para não me deixar nervosa, evitou comentar antes do término do exame. Tomei o cuidado de repetir em voz alta o lado para o qual ele me mandara virar, e dar o sinal assim que ele avisava. Felizmente dar sinal e parar em placa de Pare e em final de rua já é automático para mim. Não passei na frente de ninguém, não há tempo máximo para o percurso, não há necessidade de apressar nada.

Quando avistei a praça e ele me mandou estacionar, gelei. Parei o carro e ele disse, sorrindo: "como tu disseste, sobrevivemos". "Espero que sim" - respondi. Descemos do carro e ele me perguntou se achei que tinha errado, fui sincera e disse que eu poderia ter feito melhor. Ele me parabenizou por ter passado no teste e ainda completou, para o Claudio "Ela dirige tri bem". Para quem não está familiarizado, dizer que alguém faz algo "tri bem" aqui em Porto Alegre é um grande elogio. Fiquei feliz, agradeci ao Claudio, que disse que o mérito era todo meu. Não é, eu sei. De ter passado, pode ser, mas sem ele eu jamais teria chegado até aqui. Ele acreditou em mim mais até do que eu, e minha vitória não deixa de ser dele, também. Depois, não comemorei demais em solidariedade aos colegas que reprovaram. Eu sei o quanto é frustrante não conseguir passar no exame, e uma criatura saltitante ao lado não deve ajudar muito.

Chegando em casa, contei, com muito suspense, ao Davison, e ele ficou eufórico com a notícia, ele me apoiou muito, e eu também não teria conseguido sem ele. A melhor coisa do dia foi poder dar de presente de aniversário de casamento ao meu marido a notícia da minha aprovação, pela qual ele tanto torceu. Depois, contei para a minha mãe, que também esperava a novidade. Escolhi dividir a alegria com as três pessoas que mais me apoiaram, antes de vir aqui, dividir com vocês, que tanta força me deram, por e-mail, pelos comentários aqui na coluna, ou por meu blog pessoal. Foram três tentativas, e até as frustrantes reprovações serviram para que eu aprendesse um bocado. Vale a pena enfrentar os medos, valeu a pena ter feito aulas antes dos exames, valeu a pena até o super pesadelo que tive. Ainda que pareça que nada vai dar certo, alguma hora as coisas começam a entrar nos eixos, e descobrimos que tudo muito é mais simples do que parece quando paramos de nos boicotar.

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Saturday, June 09, 2007

Aprendendo a dirigir VI

O examinador vive

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[09/06/2007]

Reprovar pela segunda vez no exame de direção é uma prova a mais, após o teste de direção, testa-se a auto-estima, o autocontrole, a paciência. Pensemos pelo lado positivo, pelo menos eu não morri na baliza. A baliza foi até bastante agradável, por sinal, tudo direitinho, no tempo, com luz do sol e clima fresco. Logo antes do exame, que começou ligeiramente atrasado, um examinador fez a mesma palestra do da semana passada, porém, ao contrário do outro, não pareceu simpático ou amigo, mas impaciente. Perguntou, por obrigação, se alguém tinha alguma dúvida. Infelizmente, algumas pessoas tinham. Na hora de responder, visivelmente contrariado, ele incluía um irritado "é fácil, é super fácil" entre as frases. Pelo menos descobri que a tal fundação que aplica dos exames do Detran, substituindo a Fundatec é a Fundae.

Enfim, como dizem os gaúchos, eu "rodei". Claro que a reação natural é buscar culpados e eu poderia apontar dedos para o examinador, para o fato de ele ter ensaiado encrencar com o nome novamente, no início, para meu nervosismo desde a hora em que ele reclamou do sobrenome abreviado, crescente durante o trajeto, pois conforme eu errava, ele se impacientava.

Porém, minha tendência ao perfeccionismo suicida faz com que eu tente apontar todos os dedos para mim, porque não consegui manter a calma e tive uma seqüência de emburrecimento, algo bem semelhante ao que acontecia durante minhas aulas na outra auto-escola e que relatei na crônica Aprendendo a dirigir, de novembro de 2005.

Tive raiva de mim, vontade de desistir para me punir, como a mãe que tira a televisão do filho desobediente. Não errei por não saber, errei por nervosismo e isso é imperdoável para alguém que preza tanto o domínio próprio. No entanto, após raciocinar, me dei conta de que a culpa não é apenas de um indivíduo, mas de uma série de fatores, todos já citados acima, com seus graus de importância. A conseqüência de uma ação depende da própria ação e de nossa reação a ela. São dois fatores causais.

Enxerguei diante de mim duas opções: ou me desespero e bato a cabeça em um tronco de árvore ou me conformo com o resultado, imaginando que tudo tem uma razão de ser. "Em tudo dai graças", ensina o apóstolo Paulo em ITessalonicenses 5:18 É difícil dar graças em uma circunstância que nos traz tanta frustração, mas acredito que aí esteja a maior lição a se tirar de uma situação dessas. Saber que não temos o controle, que nem tudo está em nossas mãos e que devemos aproveitar as adversidades para nosso crescimento.

Fiz uma lista mental de tudo o que me atrapalhou durante o percurso, para trabalhar nisso até o próximo exame, no dia 21. Tenho de aprender a não ficar tão esquentada caso alguém encrenque com uma coisa burra como "não é permitido abreviar o sobrenome". É óbvio, racionalmente, que essa proibição se aplica apenas aos nomes que, por extenso, cabem no campo destinado a esse fim no sistema do Detran, logo, que apenas os portadores desses nomes sejam incomodados. Quem tem dois nomes e quatro sobrenomes longos não tem outra alternativa, portanto, deve ser deixado em paz para evitar stress e nervosismo desnecessários.

Porém, conforme o examinador Adriano deixou bem claro na semana passada, funcionários são proibidos de pensar, então, como bons robozinhos, jamais entenderão um raciocínio de tamanha complexidade. Tenho de aprender a ter paciência e não me abalar com esse tipo de coisa, também devo exercitar a calma e me livrar do trauma do antigo instrutor estressado e, mesmo se pegar um examinador da mesma espécie, manter minha tranqüilidade e dirigir como sei dirigir, não como um polvo descoordenado. E, caso ele enfie o pé no freio quando achar que eu não conseguiria fazer a conversão na frente de um monza caindo aos pedaços que vem na via onde quero entrar, não preciso tomar um susto tão horrendo a ponto de achar que o coração saiu pelo ouvido esquerdo e se enfiou em uma boca-de-lobo para se esconder. Depois disso, com as pernas tremendo, fiz todos os erros que poderia fazer e também os que não poderia. Foi bom, pensemos pelo lado positivo, esgotei minha cota de erros e não os tenho mais para gastar no dia 21, só me resta acertar e passar no exame.

O Claudio ficou tão ou mais chateado do que eu, porque acreditava muito na minha capacidade, até porque ele me dá aula há bastante tempo e sabe que eu já aprendi, já perdi o medo de pedestres, de caminhões, de ônibus, ciclistas, cachorros e passarinhos na pista. Algumas pessoas vão para o segundo, o terceiro, o quarto exame sem marcar nenhuma aula extra, eu preferi marcar. Não que eu tenha dinheiro para isso, mas prefiro pagar muitas aulas e treinar bem do que apenas pagar taxas de teste, que não me trarão experiência maior do que reprovar.

Reprovei, mas pelo menos tenho a oportunidade de aprimorar o que já sei fazer e consertar os bugs que ainda existem. Marquei mais algumas aulas, umas duas à noite, para aprender a dirigir no escuro, outras durante o dia. O Claudio comentou que teremos de treinar ele colocar o pé no freio no meio de uma manobra. Não sei se foi brincadeira ou a sério, mas achei a idéia interessante, acho que vou seguir a sugestão do Davison, meu marido, e pedir ao Claudio algumas aulas terroristas, para que eu consiga alguma malandragem e jogo de cintura para lidar com qualquer tipo de examinador, sem dar uma de florzinha histérica, que isso não combina comigo.

Infelizmente (ou felizmente, depende do ponto de vista), caros leitores, vocês terão de agüentar ainda mais duas semanas dessa epopéia. Depois, assim espero, estarei habilitada não apenas para dirigir, mas também para escrever sobre outros assuntos.

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Thursday, May 31, 2007

Hoje, na Revista Paradoxo, coluna Sala de Estar:

Aprendendo a dirigir V

O império contra-ataca

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[01/06/2007]

Meu teste prático estava marcado para o dia 30. Cheguei no horário, peguei a etiqueta e meu histórico do Detran, para provar que meu nome está abreviado no Sistema (se o seu não estiver, não se preocupe com isso. Se estiver, leia atentamente esta crônica). O exame estava marcado para as 15h no Intercap, onde foi meu exame anterior, existem mais uns dois lugares onde os testes podem ser aplicados, escolhidos uns dois dias antes por sorteio. São todos bem parecidos: uma pracinha mal cuidada, cercada por ruazinhas estreitas e igualmente mal cuidadas (geralmente de mão dupla), com paralelepípedos irritantes.

Havia outra auto-escola terminando seus exames, a nossa levou seus cinco carros e cerca de 48 alunos (segundo informações extra-oficiais) que, como eu, marcaram o exame com bastante antecedência. Para nossa surpresa, havia apenas três examinadores para avaliar os testes, um deles parecia legal e nos fez uma preleção sobre a importância de mantermos o emocional sob controle, porque "quem reprova o aluno é o próprio aluno, não o examinador" e porque "o exame é simples e só é cobrado o que vocês já sabem fazer", deixou bem claro também que eles não estavam ali para prejudicar ninguém, que eram nossos amigos e só faltou pedir para que nós os levássemos ao nosso líder.

O exame só começou às 16h30, uma hora e meia após o combinado, provavelmente pela quantidade ínfima de examinadores e a lentidão de todo o processo. Sim, o exame é rápido, os examinadores, não. Percebi uma certa movimentação por volta das 17 horas, quando fui chamada, já preocupada com o horário, pois não me encantava a idéia de fazer baliza no escuro. O Claudio estava chateado, tentando argumentar com o examinador, o indivíduo encrencou com o meu cadastro e não queria me deixar fazer a prova.

Eu não acho, mas dizem que meu nome é imenso, talvez seja verdade, pois nunca cabe em nenhum campo de formulário, o destinado a "nome" do cadastro do Detran não tinha espaço suficiente para escrever, por extenso, Vanessa Stella Rodrigues Santana de Resende Lampert. A única saída, óbvia, foi abreviar. Desde a auto-escola anterior, em 2005, sou identificada no sistema do Detran como Vanessa Stella Rodrigues S. de R. Lampert. Assim fiz e passei no primeiro exame teórico, mas no segundo exame teórico, neste ano, tive de voltar à auto-escola para pedir um email do Detran autorizando a abreviatura. Um ridículo "documento", apenas um email comum impresso.

Quem mandou o Detran não ter espaço suficiente no campo "nome"? Provavelmente fui eu, pois estou sendo punida por isso até hoje. Devo, em um de meus ataques de sonambulismo, ter encurtado a lacuna, de alguma forma. Achei que não me incomodaria mais com esse problema, na prova prática do dia 9, o examinador inclusive perguntou o que significava o S e o R que estavam abreviados e comparou com a identidade. Porém, não tive a mesma sorte com o de ontem; após um diálogo surreal, sua última tentativa de se esquivar da obrigação de oferecer um argumento lógico e inteligente que justificasse aquela proibição ridícula, foi apelar para o "a regra é essa e ponto", com um tom arrogante e inflexível, que eu ouço como "somos todos robôs e é proibido raciocinar".

- Por que não pode aceitar meu histórico, que tem todos os meus dados?

- Esse papel não vale, está escrito que não tem efeito legal, eu preciso de uma autorização do Detran.

- Mas o histórico é muito mais seguro, e tem mais valor do que um email impresso, se o histórico não tem efeito legal, o email não tem efeito nenhum.

- Não posso porque a regra é assim, a norma é essa, não posso fazer nada contra a norma.

- Sim, mas dá para raciocinar em cima da norma. - Eu disse, porque era óbvio que ele não estava fazendo nada errado, ou eu não estaria em meu segundo teste prático. Ele não ficou feliz com meu comentário:

- Eu sei raciocinar, mas sou funcionário!

- Ah, tá, então funcionário não pode pensar? É proibido?

Claro, para dizer isso eu já sabia da impossibilidade de ele dar o braço a torcer. O Claudio estava com dor de cabeça de tanto stress pela dificuldade de conseguir um prosseguimento de raciocínio da criatura. Lembrem-se que o Claudio é um instrutor calmo e paciente, mas se esforçar para fazer com que alguém entenda algo que não quer entender, esgota qualquer um.

Ligamos para a auto-escola, ao menos para avisar que o histórico não tinha feito nem cócegas na burrocracia. Para a minha surpresa, ao saber da confusão, um dos donos da auto-escola reimprimiu o tal email do Detran e foi até o Intercap. Pelo celular, brigou com os responsáveis pelo exame, reclamando da falta de respeito de marcarem teste para dezenas de alunos, disponibilizarem apenas três examinadores, começarem com uma hora e meia de atraso, e ainda criarem problemas.

Quando me liberaram para fazer a prova já estava escuro e eu preferi deixar para a próxima quarta, até porque, estranhamente, o tal examinador com quem discuti, estava reprovando à granel, provavelmente para se auto-afirmar depois daquela palhaçada toda, demonstrando seu pseudo-poder. Até agora não entendi por que raios essa autorização para abreviar os sobrenomes excedentes já não consta em meu cadastro no sistema. Ela deveria vir impressa na etiqueta em que o Detran autoriza meu exame. Já que é tão difícil assim aumentar o campo destinado ao nome, deveriam pelo menos grudar a informação em algum lugar para que eu não precisasse pagar ad infinitum por um erro que não foi meu.

Eu já estava xingando o Detran quando descobri que ele não é mais o responsável pelos exames teóricos e práticos, desde 1998 esse serviço é terceirizado. No site do Detran consta que os exames são aplicados pela Fatec, mas soube que há bem pouco tempo é outra fundação que tem feito esse trabalho, só não consegui descobrir ainda qual.

Depois, algumas dúvidas povoaram minha mente. As taxas que pagamos supostamente ao Detran, na verdade são recolhidas por essas fundações. Peço licença para perguntar, cá entre nós, o que elas fazem com o dinheiro? São R$40,24 pelo exame teórico e R$ 69,90 pelo exame prático, por aluno. Em Porto Alegre, segundo o site do Detran, existem 36 auto-escolas, todas abarrotadas de alunos, cada um deles paga essas taxas obrigatoriamente, calcule, por cima, o valor arrecadado.

O dinheiro não é reinvestido em nada que possamos ver ou nenhum serviço de qualidade que possamos identificar, nem uma área isolada para o exame prático eles são capazes de oferecer, um local fechado onde seja possível fazer baliza sem correr o risco de ser atropelado pelos carros alucinados da vizinhança, com iluminação e segurança suficientes, bancos para que os alunos possam aguardar sentados e protegidos da chuva, do sol forte ou do frio, uma lanchonete para que não morram de sede e fome e onde tenham um sanitário à disposição, ou seja, uma estrutura mínima para que sejam dadas condições decentes e justas de aplicação do exame prático.

Ficamos lá, das três da tarde às sete da noite, esperando em pé, congelando, com sede, fome e vontade de fazer xixi. Por volta das cinco e quarenta, o sol se pôs e ficamos no escuro, com a iluminação ridícula das ruas e inexistente da praça, em um local sabidamente perigoso...deveríamos, em vez de pagar taxa para a FATEC (ou quem quer que seja), receber um adicional de insalubridade. Às sete da noite, quando saí de lá, ainda havia uma porção de gente para fazer o teste e chegaram "reforços": um examinador a mais. Pouco depois, os instrutores, preocupados com a segurança dos alunos, resolveram encerrar, eles mesmos, o exame.

Esperamos que na próxima quarta a tal fundação tenha, pelo menos, a dignidade de marcar o exame para as 13 horas, como costumava ser. E mande no mínimo um examinador para cada carro. É muito fácil trabalhar assim, arrecadam, não investem, não se esforçam, apresentam um trabalho amador, de qualquer jeito, e depois, o órgão que contratou o serviço é que recebe os xingamentos. Ao que eu saiba, fundações não visam lucro, auferem lucro, mas não visam...eu acreditaria nisso se cobrassem, pelo parco serviço que oferecem, o que ele realmente vale, uma taxa simbólica de – superfaturemos – cinco Reais. Ainda assim, convenhamos, sobraria dinheiro para investir.


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Wednesday, May 16, 2007

Aprendendo a dirigir IV

A saga continua

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[17/05/2007]

Eu gostaria de escrever que reprovei por ter derrubado a baliza, por ter passado em uma placa de PARE, por ter esquecido de dar pisca sei lá quantas vezes, mas não tenho nenhuma história bonita de fracasso por ação, tentativa e erro. Minha história é mais imbecil e, conseqüentemente, menos nobre. Era uma tarde fria e chuvosa. Muito fria e relativamente chuvosa. Saiu uma população da auto-escola para o local do exame. Dúzias e dúzias de pessoas. Minha intenção era ficar o mais calma possível e não me preocupar com nada, para não me desesperar.

Havia uma gatinha filhote na rua, de uns oito meses, linda, provavelmente abandonada. Muito dócil e bobinha, confesso que fiquei mais preocupada com ela do que com a prova. Tentei não entrarem conversas sobre o exame, mas foi em vão. Sem que eu percebesse, lá estava eu tocando no assunto. Das três pessoas que conversaram comigo, apenas uma passou. Não tive absolutamente nada a ver com essa estatística, juro. A gatinha continuava a se arriscar no meio das pessoas e eu sofria por não ter uma bolsa de transporte vazia para seqüestra-la. Em um determinado momento, ela foi para sei lá onde e me chamaram para a prova.

Eu estava calma. Acho que meu problema foi estar calma demais. Olhei para o retrovisor e vi muito pouca coisa. Apagaram a luz do mundo. Apesar de não ser nem seis da tarde (acho que nem cinco), estava muito escuro e chuvoso. Meus dedos, congelados, tinham pouca comunicação com o cérebro. Mesmo assim fiz tudo direitinho, só não sabia disso porque não consegui ver o meio-fio. E ainda fiquei pensando, tentando me lembrar se alguém teria que me dizer alguma coisa, se eu podia puxar o freio de mão, enfim, enrolei. Fiz a baliza e quando fui fazer a garagem, não consegui alinhar. Teria conseguido entrar manobrando, mas...meu tempo acabou.

Isso mesmo, eu estourei o tempo na baliza. São cinco minutos. Reprovei por burrice e lentidão. Terei de pagar uma taxa para o detran, para fazer nova prova, que só pode ser marcada quinze dias depois, ou seja, minha nova prova está marcada para dia 30 (são quinze dias, mas como a prova é só as quartas...). Até lá, pretendo fazer mais algumas aulas, para ver se dessa vez passo, ou, se reprovar, "reprovo bonito", como disse o Claudio, meu instrutor.

O problema é a droga do medo. Fiquei com medo de não ter entrado direito na baliza (porque a visibilidade estava ruim), fiquei com medo de subir na calçada, de derrubar a baliza, de estar esquecendo alguma coisa importante...o medo nos faz alcançar tudo aquilo que tememos. Ele acaba trabalhando contra si mesmo, é um auto-boicote. O sucesso e o fracasso não existem antes da tentativa, o medo faz brotar o fracasso, por geração espontânea. O medo nunca gera sucesso. Sim, eu sei que estou parecendo aqueles odiosos livros de auto-ajuda, mas me desculpem, não consigo explicar isso de uma forma mais inteligente. Volto às aulas com o objetivo de ser capaz de fazer essa baliza em menos de cinco minutos até no escuro, de olhos vendados. É uma questão de honra.

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Wednesday, May 02, 2007

Aprendendo a dirigir III

Persistir é o lema

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[02/05/2007]

Não marquei aulas para o feriado e hoje alguns coleguinhas fizeram a tão temida prova prática do Detran. Espero que amanhã eu ainda me lembre de como se coloca um carro em movimento. Tenho esse problema de esquecer as coisas, é como se o espaço de armazenamento de coisas realmente úteis fosse ínfimo em meu cérebro. Grande mesmo é o compartimento para entulhamento de bobagens, lá até estão alguns fatos que me lembro em seqüência cronológica (com datas, inclusive), cuja precisão costuma irritar muita gente. Porém, só Deus sabe o porquê, a seqüência de simples movimentos mecânicos demora séculos para se grudar em meu córtex.

Aprendi, há bem pouco tempo, a lidar com essas limitações, meu lobo frontal não vai com a minha cara e terei de conviver com isso. Incrível como precisamos encarar nossas dificuldades, aceitá-las e tentar descobrir o que fazer com essas informações, para que algo enfim dê certo. Jamais imaginei que seria capaz de dar a partida no carro com tanta facilidade.

Sim, riam de mim, há pouquíssimas semanas eu era totalmente incapaz de fazer uma troca de marcha e olhar no retrovisor ao mesmo tempo. Com a inestimável ajuda do Claudio, o instrutor legal, parei de ter chiliques ao me aproximar de veículos monstruosos como ônibus e caminhões, também não fico totalmente paralisada quando um pedestre (ou um cachorro) se joga na minha frente.

Os pedestres de Porto Alegre são suicidas. Sério. Eles andam no meio da rua, têm sérias alergias à calçada e faixa de segurança. No local em que faço baliza, além dos pedestres suicidas, também existem cachorros psicóticos. São pobres caninos abandonados que perderam o juízo (se é que algum dia o tiveram), andam em bando e perseguem os carros. Sim, perseguem os carros. Eles correm atrás dos carros das auto-escolas, latindo e ameaçando morder os pneus. Sinceramente, eu nunca os vi correndo atrás de outros carros, eles sabem ler. São, neste ponto (e em vários outros, imagino), muito mais evoluídos do que alguns motoristas que temos a infelicidade de encontrar no trânsito.

Lá estou eu, pseudo-apavorada, tentando aprender a dirigir, segura por estar em um carro bem sinalizado sobre a ausência de habilitação. Ando mais devagar do que os carros normais, faço as curvas e as conversões bem mais lentamente do que o resto da humanidade, troco as marchas com menos habilidade do que quem dirige há duzentos anos e, eventualmente, posso apagar o carro no sinal. E as criaturas não têm a menor paciência, buzinam histericamente, xingam, fazem careta e batem as mãos no volante.

Eles não sabem ler, eu não sei dirigir, estamos quites. Se está com pressa, não pare atrás de um carro de auto-escola. Se parar, favor respeite, respire milhões de vezes e não fique assim muito perto, pode ser perigoso. Total incapacidade de se colocar no lugar dos outros. Será que eles nasceram sabendo dirigir? Ou acordaram um dia, aos cinco anos de idade, e tiveram uma revelação:

- Mamãe, mamãe, se eu pisar fundo na embreagem, engatar a primeira marcha, soltar até a metade, acelerando, eu coloco o carro em movimento!

Ou, quem sabe, sejam mutantes grudados aos carros. Eles e os carros sempre foram uma coisa só, mas uma coisa tão amalgamada que lhes parece absurdo que alguém, veja só, ainda esteja tentando coordenar seu mísero par de pernas e seus dois braços aos comandos do automóvel.

Sua capacidade motora se desenvolveu tanto que não sobrou espaço para o cérebro. Não percebem que buzinar para um carro de auto-escola, no qual se encontra uma pessoinha que ainda está aprendendo a dirigir, faz com que ela fique ainda mais nervosa e demore o dobro ou o triplo do tempo para sair do lugar. Eu ainda apago o carro quando um infeliz começa a buzinar enlouquecidamente atrás de mim no semáforo. São os únicos momentos em que ainda meto os pés pelas mãos (quase literalmente) e confundo tudo o que tinha de fazer.

No entanto, já consegui vencer tanta coisa e estou tão feliz por dirigir feito gente (ou quase), que nenhum motorista abilolado vai fazer com que eu desista. Se tudo der certo, na próxima quarta farei meu exame. Se der errado, continuo com as aulas, torturando os motoristas analfabetos apertadores compulsivos de buzinas. Sem sofrimento.


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Wednesday, April 25, 2007

Aprendendo a dirigir II

O retorno à auto-escola

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[25/04/2007]

Quem acompanha esta coluna há algum tempo deve se lembrar desta crônica, em que eu relatava minha experiência corrente e desastrosa nas aulas práticas de direção. Pois bem, retorno hoje, um ano e cinco meses depois, para dar continuidade à história. Como se percebe naquele relato, eu estava indo mal, mas com uma incrível vontade de aprender e superar o medo.


Infelizmente, o segundo instrutor não era tão paciente quanto eu imaginava, e logo mostrou que sua falta de simpatia escondia uma grande facilidade de se estressar. Eu errava, ele se estressava, eu ficava nervosa e errava de novo. No meio do trânsito, ele me dizia: "Você viu o que fez?" Sem tirar os óculos e sem olhar para mim, não me dizia o que raios eu havia feito de errado e eu continuava sem saber. Me sentia a criatura mais burra e inútil da face da Terra e o cara mal falava comigo.


Perto da vigésima aula, ele sugeriu que eu suspendesse tudo e procurasse a psicóloga da auto-escola. Aceitei e fui conversar com a mulher. Ela perguntou da minha vida, eu contei toda a saga Vanesseana, para, ao final, ela me perguntar se eu não achava que estava me dedicando demais aos outros e esquecendo de mim, não gostou da atenção que dispenso ao meu marido, nem da minha mania de falar de planos para o futuro como se o casamento fosse para sempre. Saí de lá tentando entender o que isso tinha a ver com o fato de eu não conseguir aprender a dirigir. Não voltei mais.


No mês seguinte, meu marido foi internado com peritonite e passamos trinta dias no hospital. Quase no final desse período, tivemos a visita de um amigo dele, que me convenceu de que o problema era o instrutor, não eu, e passou o telefone de uma auto-escola que tinha um instrutor especializado em pessoas com medo de dirigir. Acabei não telefonando.


O tempo passou, e no início do ano minha cunhada me contou que estava tendo aulas de direção, apesar de já ter carteira de motorista, para ter mais segurança e perder o medo de dirigir. Conversamos bastante a respeito e no final das contas soube que ela já conseguia levar meu sobrinho à escola, guardar o carro na garagem e não matar ninguém no caminho. Me animei e resolvi voltar às aulas práticas, tentei ligar para o tal instrutor, mas ele agora só trabalha com quem já tenha carteira.


Procurei na lista telefônica e escolhi a auto-escola que dizia "especializada em pessoas nervosas". Para a minha surpresa, não precisei pagar tudo de novo, pude aproveitar minhas aulas teóricas, o que já foi grande coisa. Tive que repetir o exame médico e o psicotécnico, a prova teórica e prática. A prova teórica está muito mais fácil do que antes, e acertei 28 das 30 questões. Preferi, por razões óbvias, marcar algumas aulas práticas antes, perguntei qual era o instrutor mais acostumado com alunas histéricas e me indicaram o Claudio, fui orientada a marcar apenas uma aula, se gostasse dele, marcaria mais, se não, tentaria outro.


Aí vai a dica: não façam isso. Uma aula não dá tempo para nada, melhor marcar duas de 50 minutos, seguidas (a chamada "aula dupla"), menos estressante e mais fácil de notar se o cara é legal ou não. Apesar da correria, gostei muito do instrutor, é um cara muito inteligente, tranqüilo, simples e brincalhão, me deixou super à vontade, nem perto dos estressados da outra auto-escola. Voltei à recepção e marquei mais vinte aulas, ou melhor, dez aulas duplas, antes que alguém passasse à minha frente.


Como o cara é super tranqüilo, não se estressa, não me deixa histérica, conversa, brinca e gosta do que faz, estou conseguindo aprender e me livrar do pavor. Descobri que não tinha nem tenho medo de dirigir, na verdade, desenvolvi uma insegurança absurda por conta de um profissional mal preparado.


Lendo os comentários deixados pelos leitores, percebi que o maior problema é justamente o despreparo dos instrutores, que acham que tudo ali tem de ser tão óbvio para nós quanto é para eles, e não têm paciência para lidar com quem nunca trocou uma marcha na vida. O Claudio é um cara que gosta do que faz, tem um dom para ensinar (é um ótimo treinador), sabe se colocar no lugar do outro, respeitar a falta de experiência do aluno. Qual é a dificuldade disso? Por que é tão difícil encontrar um instrutor assim? Se o cara não tem paciência para lidar com quem está aprendendo, por que não trabalha em outra coisa?


Marquei mais oito aulas e farei a prova prática no dia 9 de maio. Coloquei na cabeça que não pensarei na prova, se não estiver segura, vou fazendo aulas até estar bem para fazer o teste. Ah, e semana passada tive um estalo: eu também sou um carro! No meio do trânsito, a gente tem a impressão de ser uma pessoa no meio de milhões de carros. Aquele trambolhão é só um troço que atrapalha. Só agora caiu na ficha que eu sou tão carro para eles quanto eles são para mim, então fiquei mais segura. Teremos mais uma quarta-feira e a prova do Detran é na outra quarta, portanto, o assunto continua. Torçam por mim.

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Wednesday, April 11, 2007

Quando as lembranças se espalham

Relato de uma desorganizada compulsiva

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[12/04/2007]

Confesso: sou colecionadora de tralhas, embora elas não sejam catalogadas, nem organizadas como as coleções costumam ser. Minhas tralhas não se proliferam pela casa por desorganização pura e simples, mas por valor histórico. Sei que a maioria das pessoas não conseguiria entender o valor histórico de uma notinha de supermercado ou de um pote de creme meio cheio (ou meio vazio) que não é usado há dois anos, mas algumas coisas têm valor óbvio, por exemplo: eu guardo todos os ingressos de cinema dos filmes que vi com meu marido, desde quando éramos namorados, há três anos e meio. A idéia inicial era reuní-los em uma caixa, mas eles quiseram brincar de esconde-esconde. Sempre que resolvo limpar alguma gaveta, encontro um deles, e logo busco em meu banco de recordações aquele dia, aquele filme, as sensações que causou.

Existem, porém, os papéis que sei que deveria jogar fora, as revistas, os jornais...o que fazemos com as revistas depois que as lemos? Pago quase dez Reais por mês em algo para jogar no lixo depois? Dia desses fomos visitar um tio do meu marido e descobri uma coleção diferente de livros na estante, pareciam pequenas enciclopédias. Ele explicou que se tratava de uma compilação de vários números de uma revista que ele gostava. Pegou uma pilha daquelas revistas, selecionou o que interessava, desmontou e mandou encadernar.

Achei uma saída extremamente inteligente, reuniu o que queria, diminuiu o entulho e ainda ganhou capa dura para proteger as folhas. No entanto, ainda não usei essa estratégia em minhas revistas, pois não tenho um lugar decente para colocar nem os livros que já tenho...embora continue a comprar livros, mesmo assim. Argumento derrubado, minha cara, favor providenciar outro, com urgência, ou assumir a preguiça, a bagunça crônica e a procrastinação.

Vivo perseguida pela sombra das coisas que não consigo jogar fora, planejando dar cabo das inutilidades o quanto antes, para liberar espaço. Porém, é como se eu perdesse momentos e lembranças a cada objeto sem função que fosse para o lixo. Por que razão pequenos presentes são chamados de "recordações" ou "lembrancinhas"? Algumas coisas realmente guardam fatos, pessoas e acontecimentos, para resgatar a memória.

Minha memória é péssima, me agarro a elementos de apoio para construir minha história. Escrevo para não me perder, conto meus dias pelos papéis espalhados, pelas fotos, pelos textos, pelos livros que li e me esqueceram, pelas roupas que não uso mais, pelos papeizinhos minúsculos cuja utilidade só eu conheço, pelos cartões e documentos sem validade, pelas revistas e jornais obsoletos.

Sou eu espalhada pela casa, meus dias, minha vida, minhas lembranças, que quero, urgentemente, organizar e enxugar. Liberar o espaço na casa e na mente, colocar estantes, poder ver a parede e arrastar os móveis para passar o aspirador sem medo. A vida não ficará menor sem aquele sachezinho de açúcar, sem aquele batom velho, sem o folder da veterinária em Copacabana, que me faz ter a certeza de que já estive lá, e que traz os momentos agradáveis e desagradáveis que vivi entre o mar e o morro, entre o mar e a Lagoa, entre o mar e eu.

Liberar espaço, com o sério objetivo de acumular novas tralhas, é a melhor motivação para que eu realize essa faxina, respeitando meu senso histórico.


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Friday, April 06, 2007

Sala de Estar

Saindo dos escombros

A vida não poderia estar em melhores mãos

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[06/04/2007]

Hoje é páscoa, ainda existe uma pequena porcentagem de pessoas que não dá tanta bola para ovos de chocolate e se lembra do sacrifício de Cristo por nossos pecados. Alguns se sentem culpados, embora a intenção fosse que nos sentíssemos gratos por tamanha prova de amor. Essa páscoa me parece diferente das anteriores, talvez por eu ter prestado um pouco mais de atenção na importância dessas celebrações em família, talvez por eu ter acordado apenas agora, como se fosse o primeiro feriado em muitos meses. Talvez por eu ter conseguido descansar.


Durante as festas de 2005 e o início de 2006 meu marido lutava contra a morte em uma UTI. Felizmente, apesar de perdermos natal e ano novo, apesar de eu não ter tido festa de aniversário e mal ter me lembrado da data, tivemos muito a comemorar: no final de janeiro ele recebeu alta e voltou para casa, para se recuperar. Prometemos fazer uma ceia de natal e de ano novo, com tudo o que tínhamos direito, assim que o ano terminasse; 2006 se arrastou com pequenas vitórias e grandes lutas, mas sempre com a força e a certeza de que Deus nos sustentava em todas as situações. Quando enfim dezembro chegou, já fazíamos os planos para a tão esperada ceia, quando minha sogra, Dinorá, se sentiu mal.


Fazendo quimioterapia há um ano e meio, ela foi internada pouco antes do natal para um procedimento simples, mas os dias se arrastavam, a internação engoliu nosso natal, ano-novo e meu aniversário, novamente. No final de janeiro perdi minha grande amiga. Não tivemos o alívio da vitória que recebemos em 2006, a tranqüilidade da alta e do milagre que havíamos presenciado. Foi um baque tão forte que me derrubou por dois meses, pelo menos, e escrevo agora como quem afasta um pouco os escombros, retirados lentamente pelos bombeiros da minha alma.


Aos poucos retomo meu dia-a-dia, ainda tentando lidar com todos os aspectos dessa tragédia familiar. Então hoje, lendo um livro que me foi apresentado pela minha cunhada "Uma mulher segundo o coração de Deus", de Elizabeth George, me espantei com um trecho do início, em que ela comenta sobre a morte recente de sua sogra, Lois.


"meu coração e minha mente estavam cheios de pensamentos como: "o que faremos para o Dia de ação de graças? Nós sempre passamos este dia na casa de Lois. Ela sempre preparou o peru, a salada, os temperos e as tortas caseiras. Como será uma reunião familiar sem ela?" (...) Ela não estaria no seu banco costumeiro, aos domingos na igreja...Eu não teria mais motivos para pegar a estrada que levava à sua casa. Além disso, a casa nem era mais dela"


São perguntas parecidas com as que continuam rondando minha mente, mesmo quase três meses depois. As reuniões familiares, os almoços de domingo, as nossas idas à clínica... penso continuamente na ausência brusca, sigo a me torturar com as lembranças que insisto em chamar, sempre. A luta foi tão intensa que, quando tudo acabou, meu cérebro não soube entender como agir dali para diante. Gostaria de conseguir ter encerrado essa história com a facilidade com que encerrei a minha história com meu pai, quando ele morreu.


"Me lembrava da batalha de Lois contra o câncer e a pneumonia no final de sua vida, percebi que estava enfrentando a dura realidade. Todos nós temos um corpo que um dia vai desaparecer - e este dia não está necessariamente tão longe. Lembrei-me também mais uma vez o quão desesperadamente quero que minha vida - verdadeiramente cada dia, cada minuto - tenha valor."


Talvez o pior seja encarar o fato de que não sou eu a escrever essa história. Não está em minhas mãos e o tempo está passando, meu tempo e o de todos nós. Por mais que eu tenha o costume de entregar minha vida e meu dia para Deus todas as manhãs, desenvolver a confiança absoluta nesta entrega é um hábito a ser renovado a cada minuto. Como uma criança que se lança de um lugar alto nos braços estendidos do pai, confiando que ele irá segurá-la. Essa é a verdadeira entrega: se lançar. Não importa o que aconteça, eu sei que Ele está no controle de tudo e que posso confiar em Seus braços. Eu não sei viver se não for assim e passei tanto tempo a me torturar que esqueci de renovar essa confiança. Uma das últimas coisas que ouvi da Dinorá foi: "as coisas não poderiam estar em melhores mãos". E não poderiam, mesmo.


Minha luta atual tem sido exercitar essa entrega sempre que me sinto tentada a me torturar com as lembranças, como se minha própria vida tivesse se transformado em um museu, olhando o presente, o futuro e o passado como coisas inexoravelmente condenadas ao pretérito perfeito. "Ela morreu, mas sua vida continua". Sim, até que eu morra, também. Enquanto isso, luto para não desperdiçar nenhum minuto, e para dar valor ao que é realmente importante. Tenho feito faxina em minha vida, afastando o que me atravanca o caminho e restabelecendo as prioridades. Sou nova página em construção, no momento, colaborando com as reformas que Deus tem realizado aqui dentro.


Nossa rotina é atribulada e corrida, mas é necessário fazer determinadas pausas para reavaliar a vida e jogar fora o que nos atrapalha. Olhar as coisas boas que acontecem (sim, acontecem, embora as coisas ruins sejam tão catastróficas que pareçam maiores), os presentes que recebemos todos os dias: as pessoas que amamos, a saúde, a vida. Ainda tenho muito a escrever (apesar de achar, sinceramente, que tudo já foi escrito, as novidades restringem-se à forma), a ler, a aprender, a viver, e outros verbos no infinitivo terminados em "er", sem muito desespero, sem megalomania, sentindo o vento no rosto, ouvindo uma música tranqüila, sem dar tanta importância aos acontecimentos, porque tudo passa. Mais uma vez, essa afirmação volta a me trazer alívio.


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Wednesday, March 21, 2007

Hoje, em Sala de Estar

Diário de uma ex-sedentária Parte II

Acho que distendi alguma coisa

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[21/03/2007]

Segundo dia do repouso: A impressão que tenho é que minha perna nunca mais voltará ao normal. Andarei para sempre como o ridículo monstro que tinha olhos nas mãos, do filme "O Labirinto do Fauno" (fora o detalhe de que só ando na ponta dos pés). Aliás, hoje mal andei. Comecei o dia me arrastando do quarto até o banheiro e do banheiro até o quarto e à tarde fiz um upgrade: rodava com a cadeira do computador pela casa. Passei o dia em cadeira de rodinhas.

Terceiro dia do repouso: Melhorei. Se ontem andava como o monstro pelado do filme "O Labirinto do Fauno", hoje já consigo andar como o próprio Fauno. Ainda não abandonei totalmente minha cadeira de rodinhas e, confesso, só neste terceiro dia resolvi tomar banho. Sim, passei três dias sem tomar banho e já começava a sentir um suave aroma de mendigo vindo de minha pele.

Coloquei uma cadeira de plástico no box e tomei banho sentada. Começo a me adaptar à nova situação. Minha perna está muito bonita. A esquerda, que está inchada. Nunca tive pernas grossas, e a panturrilha sempre foi meu maior problema. Ainda não fui ao médico porque meu prédio pré-histórico não possui elevador e não há a menor chance de eu descer um lance de escadas nesse estado. Prefiro ficar deitada com a perna para cima, fazendo compressa fria até sarar.

Quarto dia do repouso: Preciso de uma muleta, preciso de uma muleta, preciso urgentemente de uma muleta. Já consigo esticar a perna, embora ainda não dê para apoiar-me sobre os pés. Mas preciso sair. Fora aquele monte de coisa que tinha a fazer quando fui obrigada ao repouso, eu quero ir ao shopping! Preciso de mais uma calça para a academia, já que só tenho uma.

Quinto dia do repouso: Repouso? O que é isso? Finalmente consegui ficar sobre meus pés, embora só consiga caminhar com um salto. Saí, finalmente! Fiz um belo passeio ao supermercado e também fui à C&A comprar a calça para fazer musculação. A panturrilha ainda está dolorida e ainda tomo banho sentada, mas recuso-me a ficar trancada em casa por mais um dia.

Sexto dia do repouso: Repouso "non ecziste". Se eu consigo caminhar, caminharei.

Sétimo dia: Voltei à academia, expliquei o caso ao instrutor e fui liberada do exercício para a panturrilha. Praticamente não dói mais, mas é melhor não arriscar. Ele também acha que a culpa foi do excesso: no segundo dia de treino, saí da academia, caminhei até o supermercado, enchi o carrinho de feira com compras pesadíssimas e subi um lance de escada, fazendo "guincho" para o carrinho. Tenho sorte de estar viva.

Amanhã os exercícios serão para a parte superior do corpo, e depois de amanhã a panturrilha voltará ao circuito. Vida normal. Já posso considerar-me uma pessoa não-sedentária. Definitivamente.

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Wednesday, March 14, 2007

Diário de uma ex-sedentária

O difícil retorno à academia

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[14/03/2007]

Voltei à academia. Parei há uns três anos. Após ouvir insistentes pedidos para que desistisse da musculação (que era o que eu fazia) e fosse para a yoga, pilates e outras coisas mais leves, eu, que sou do contra, retornei aos aparelhos. Não tenho paciência para as posições intermináveis da Yoga. A cabeça começa a pensar em milhões de coisas e ou eu me distraio e esqueço do que estava fazendo, ou fico com vontade incontrolável de sair correndo.

E detesto aulas coletivas. Fiz umas duas de ginástica localizada, para nunca mais. Fico prestando atenção nos outros, em detalhes inúteis e, quando vejo, o movimento já mudou. Step, então, desisti completamente. Primeiro porque atividades aeróbicas me odeiam, depois porque sou totalmente descoordenada, me enrolava toda e não conseguia acompanhar a turma. Na musculação, estou em paz. O instrutor passa os exercícios, te dá a sua ficha, com o nome dos aparelhos, as cargas e repetições e você fica na sua, tranquila, totalmente concentrada. Sério, eu me concentro na musculação, porque ela está sozinha comigo, quase como uma meditação. Eu descanso malhando.

Peguei uma academia pequena, vou em um horário bem tranquilo, não encontro multidões e não vejo quem está por perto. De vez em quando observo, para ver como cada um reage. Engraçado é que a maioria dos homens nem nota as mulheres que estão ali, de barriga de fora e short curtíssimo, estão mais preocupados em levantar peso se admirando no espelho do que em qualquer outra coisa. Quer dizer, não todos. Os que não malham tão desesperadamente não têm essa fixação com o espelho, só os homens quadradinhos, aqueles baixinhos que têm tronco largo e pernas mais finas.

Homens quadradinhos servem apenas como guindaste de anilhas. "Oi, pega quarenta e cinco quilos para mim e coloca aqui nesse aparelho?" Porque eu não vou estourar minha coluna só para provar que sou fortinha. Descobri hoje, ao término do segundo dia de academia, que passar aspirador de pó e subir um lance de escada com o carrinho de feira lotado de compras (meu edifício, como 90% dos prédios de Porto Alegre, tem três andares para não ter elevador) dá um baita condicionamento físico. O instrutor teve que aumentar a carga de quase tudo, porque estava tudo leve. E da aula de ontem, para a parte inferior do corpo, só o que me dói é a panturrilha.

Quer dizer, deixe-me explicar, minhas panturrilhas estavam enferrujadas, elas se assustaram com o treino e estão tensas. Parece uma cãibra, e não consigo esticar a perna esquerda. Estou andando como o Corcunda de Notre Dame, e meu marido disse, morrendo de rir, que eu parecia um inseto. Mas não importa. Logo, logo, voltarei ao bom preparo físico e rirei por último.

Não acredito que eu consiga um corpão daquelas gostosonas malhadas, porque meu biotipo não comporta tanta massa, ficaria esquisito. Eu sou magrelinha, sempre fui, só o que não quero é ser uma magrelinha flácida dentro em breve, afinal de contas, quando os trinta se aproximam, começamos a sentir o peso da idade sobre nossos ombros. O único jeito é transferí-lo para um aparelho de musculação e transformá-lo em massa magra. Eu os manterei informados, semanalmente, do meu progresso.

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PS: Embora meu digníssimo e amado editor insista em dizer, na abertura desta coluna, eu não sou goiana, mas vim de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, pertinho, sim, de Goiás. E lá, apesar de quase ninguém acreditar, existem boas academias, com tudo o que um homem quadradinho possa desejar. No entanto, eu abandonei os aparelhos definitivamente no início de 2003, bem antes de pensar em morar em Porto Alegre.

Logo, a culpa não foi da mudança, como eu costumava dizer. Uma das maiores compulsões do sedentário é a de arranjar desculpa para o fato de continuar sedentário. Na verdade, salvo raras exceções, continua-se sedentário pelo simples fato de não tentar deixar de ser.

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