Sunday, April 23, 2006

Donald Trump não vai gostar de ler isso, mas eu acho que prefiro O Aprendiz com Martha Stewart.

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Saturday, April 22, 2006

Um pouco de frio



Aqui há estações do ano. Outono chegou, o friozinho bate à porta, o sol começa a se pôr perto das seis da tarde (no verão o sol se põe lá pelas oito e meia da noite...), um ventinho melancólico nos convida a comer chocolate e a esconder nossos corpos gelados sob grossos edredons. Vontade de colocar um filminho no dvd aumenta, pena que as locadoras estejam repletas de porcarias. A faxina foi adiada hoje, mais uma vez. O frio colabora com a bagunça, que horror. Hoje é sábado, dia de lixo, um dos dias mais esperados da semana para mim. É um terror ficar com lixo orgânico acumulado, saudade da época em que eu podia colocá-lo na rua todos os dias. Agora, apenas terça, quinta e sábado.

Dizem que nos próximos dias a temperatura vai cair. Já tiramos o edredon do guarda-roupa e aguardamos, congelados, a chegada do inverno. Eu nem sei quando chega o inverno propriamente dito, mas esta vai ser a semana de comprar roupa de frio, para ficar bem preparada para enfrentar os dias gelados. Um dia me acostumo com isso.

Desculpem estar tão ausente. Não tenho escrito quase nada, tenho ficado muito pouco tempo na net, estou meio lenta, desacelerada, um tanto quanto cansada, um bocado apática. Precisando de boas noites de sono, precisando de um passeio bacana, precisando de um pouco mais de tranquilidade. É engraçado, quando o furacão começa aqui dentro, eu desacelero por fora. Fico quieta, calada, respirando fundo e esquecendo os dias. Não acompanho mais o calendário, não sei mais diferenciar a segunda da quinta, da sexta, do sábado, mal sei quando o mês começa ou quando termina. Faço listas mentais dos meus afazeres e me perco nas entrelinhas.

Mas já aprendi como as coisas funcionam comigo. Quando estou assim, dou um tempo. Fico calada, como pouco, demoro um pouco mais no banho, nos abraços, leio mais, descanso a mente, respiro fundo, faço tudo mais lentamente, respeito meus limites, ouço meu corpo, meu espírito. Converso com Deus, tomo bastante água, durmo um pouco mais, tento domar minha pressa. Daqui a alguns dias, volto ao normal, sem stress, sem ter nenhum tipo de troço.

Tenho tirado esses dias para, dentro dos limites que a rotina enlouquecida da vida me permite (essa semana foi corrida), desacelerar. Tem dado certo. Fazer compras de inverno devem ajudar, também. Não gasto muito em roupas, gosto de pesquisar, de procurar, de desenterrar peças boas, bonitas e baratas. Demora, não é fácil, mas é bastante divertido e dá um alívio e tanto ver que você fez boas compras gastando tão pouco, por seu próprio esforço. Eu tenho minhas formas estranhas de me sentir bem.

A propósito, experimentem: o chocolate mais gostoso do mundo, Choco Soy, da Olvebra (não estou ganhando nada pela propaganda...risos...). É à base de soja não-transgênica, mas não espere sentir gosto de soja. Eu até gosto do gosto da soja, mas esse realmente não tem. Aliás, ele é o chocolate "não tem". Não tem glúten, não tem lactose, não tem gordura hidrogenada. Feito com açúcar demerara orgânico, não aumenta minha glicose o suficiente para me tirar de crises de hipoglicemia, mas dá aquele gostinho de doce que gosto de sentir, sem as complicações da lactose. É uma opção mais saudável e que não me faz mal, de jeito nenhum. Se você tem intolerância à lactose ou simplesmente quer um chocolate muuuuuito gostoso, experimente. O de barrinha é bem mais doce do que o que vem em formato de bombom. E se você tiver sorte, ainda pega um ovo de páscoa deles à venda. Nós compramos três.

Só para garantir altos níveis estáveis de serotonina. :)

Thursday, April 20, 2006

1 ano e 10 meses de casados

You're Still The One

Shania Twain/Lange

(When I first saw you, I saw love.
And the first time you touched me, I felt love.
And after all this time, you're still the one I love.)

Looks like we made it
Look how far we've come my baby
We mighta took the long way
We knew we'd get there someday


They said, "I bet they'll never make it"
But just look at us holding on
We're still together still going strong


You're still the one I run to
The one that I belong to
You're still the one I want for life
You're still the one that I love
The only one I dream of
You're still the one I kiss good night

Ain't nothin' better
We beat the odds together
I'm glad we didn't listen
Look at what we would be missin'

They said, "I bet they'll never make it"
But just look at us holding on
We're still together still going strong

You're still the one I run to
The one that I belong to
You're still the one I want for life
You're still the one that I love
The only one I dream of
You're still the one I kiss good night


I'm so glad we made it
Look how far we've come my baby...

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Sunday, April 16, 2006

Aos amigos, com carinho :P

Uma lembrança de quando o Dave era um Beatle. (Talvez ele me mate e me obrigue a tirar esta foto daqui - não necessariamente nesta ordem-, portanto olhem rápido :))

Considerações sobre a revelação do século

Existem duas vantagens imediatas de eu ter feito a revelação do post anterior: primeiro, eu já posso comentar meus próprios textos sem fazer de conta que eles são de outra pessoa. Segundo, eu já posso fazer propaganda quando Dave atualizar o Diário sem parecer que estou tietando um esnobe (é, Túlio...risos...), terceiro, eu posso contar com a inestimável ajuda de vocês para pressioná-lo a postar nos períodos em que ele deixa o Diário à míngua. E quarto, eu posso reciclar os textos meus que alguns nao leram e dos quais eu gosto marroumenos (parafraseando a Paula), mas que gostaria de compartilhar com a humanidade.

No começo o pessoal achava que Edmund e Josephine eram escritos pela mesma pessoa. Depois, quando perceberam que eu não era linear (ok, isso é um eufemismo para dizer que eu era confusa, caótica e não tinha o menor padrão para os textos, ao contrário do Dave, que construiu um personagem sólido e interessante, com texto claro e bem definido) viram que era mesmo outra pessoa.

Como eu não fiz exatamente uma personagem, a maioria dos textos trata de coisas que realmente aconteceram comigo ou devaneios do meu próprio cérebro. Claro, uma ou outra alegoria, mas sabe de uma coisa? Às vezes acho que ela se parece mais comigo do que a Vanessa Lampert. Ou não, enfim.

Tudo bem que os textos estão todos em Save the Planctons (minto, ainda há alguns no Manteiga Voadora), mas se eu postar alguns aqui, de vez em quando, poupo alguns cliques, já que ninguém foi mesmo visitar esses blogs. Fico feliz em saber que, mesmo não comentando, alguns de vocês, que não conheciam o Diário de um Lunático, foram conhecer.

E aos que já conheciam e não sabiam, desculpem o susto. :) Era o último mistério. Enfim, agora sim, minha vida é um livro semi-aberto.


A propósito, deixo com vocês (sabe-se lá quando volto, né?) um dos posts da Josephine, que talvez vocês possam gostar. O blogger.br estava com problemas em aceitar acentos e eu precisava postar. Como tantos outros usuários do blogger, fui obrigada a postar sem acento.


Domingo, Novembro 07, 2004

Texto curto, sem acentos

Nenhum medo de postar existe em mim. Nada me impede de escrever textos sem acentos, se o servidor assim deseja. Retirarei de minha vida todos os circunflexos, todos os agudos, crases, cedilhas e qualquer til que atravesse meu caminho. Nenhuma necessidade tenho de acentuar palavras.

Obviamente o texto deve ser curto. Ou o trabalho dobra e inexiste tempo que seja suficiente para tal empreitada. E inexiste outro assunto a ser abordado, fora a necessidade de escrever com total falta de acentos.

Existe a possibilidade de eu deixar escapar um ou outro acentozinho aqui ou ali, que acabe atrapalhando o andamento do texto, afinal de contas, acentos costumam ser muito perigosos. Neste momento, ao menos, acentos me detestam. Igualmente eu desconfio de suas caras abertas ou fechadas demais.

Portanto, mantenho-os longe deste aglomerado de letrinhas porque elas se encontram muito felizes sem os famigerados risquinhos estranhos que enfeitam a cabeça de nossas vogais em alguns momentos.

Invejo alguns idiomas, onde acentos passaram a ser mal vistos. Da mesma forma eu os vejo mal. Vejo mal, igualmente, escrever palavras acentuadas como se estivessem originalmente livres de acento. Me parece ser um ato criminoso.

Por isso decidi escolher justamente aquelas que dispensam tais caracteres, assim evito ofender alguma criatura gramatical e, ao mesmo tempo, livro-me de usar essas famigeradas entidades que tanto trabalho me deram nos dias anteriores.

Felizmente.

Monday, April 10, 2006

Você se casaria com este homem?





No dia 15 de Abril de 2003 começava um blog que eu só fui descobrir uma semana depois. Todos os dias em que eu ia postar no Another Monster (que na época estava hospedado no blogger.br) via aquele blog na lista dos recentemente atualizados. Fiquei intrigada, porque só postava de madrugada, coisa de quem tem conexão discada e tem que esperar passar da meia-noite, que fica mais barato.

Curiosa, depois de alguns dias, cliquei, para ver quem era aquela criatura que postava todos os dias no mesmo horário que eu. Quando abriu, o template escuro, as letras brancas, um cartum em que um cara meio pirado sentava, pensativo, sobre uma cratera lunar tendo ao fundo nosso belo globo terrestre, me convidaram a entrar naquele submundo e ler aqueles textos estranhos. Rolei a barra lateral e descobri que o blog começara há pouco tempo. Os textos (ainda) eram curtos e resolvi dar uma olhada e, como tantos outros, viciei. Todas as madrugadas entrava, eufórica, para ler mais um texto do tal indivíduo. Ninguém sabia seu nome, sua idade, de onde ele era, qual sua cara, sua profissão, nada. Só o que sabíamos era que ele escrevia muito bem e tinha uma imaginação fora do normal.

Algumas pessoas, no começo, tinham dúvidas a respeito de sua identidade, alguns achavam que Edmund era um personagem, outros acreditavam piamente que um maluco com dupla personalidade e graves problemas psiquiátricos realmente escrevia aquele blog. Eu o imaginava como sendo um jornalista desempregado, de uns 43 anos, divorciado, uns três filhos, escrevendo em um computador em seu quarto mal iluminado, com livros espalhados pelo chão e uma velha luminária na escrivaninha. Aos poucos ele foi contando sua história, na série "A história de um lunático" e soubemos que ele era gaúcho e tinha 29 anos.

Devo deixar bem claro que sou chatíssima em relação a textos. Super hiper mega crítica, raramente me impressiono ou vicio em alguma coisa, principalmente relacionado a humor. Sou péssima em achar graça de alguma coisa. Humor fácil, excesso de palavrões, escracho, nada disso funciona comigo. O negócio tem de ser inteligente, tem de ser interessante, tem de ser sutil. Ser realmente engraçado de propósito exige um talento e tanto. E para completar, sou ranzinza. Só em saber que o negócio propõe-se a ser humorístico, já torço o nariz. Mas eram textos muito bem construídos, argumentos inteligentes, Edmund era um personagem sério em textos de humor. A curiosidade era grande, todo mundo queria saber quem era o dono daquele cérebro.

Em determinado momento, já estava claro que Edmund era um personagem, mas ele existia por si só, não havia uma única referência concreta ao seu criador. Eu lhe escrevia e-mails elogiando os textos e ele me respondia como o Edmund, com seu jeito característico de escrever. Na terceira tentativa aquilo começou a irritar e eu desisti da idéia. Porém, no dia 17 de Julho de 2003 Edmund fez uma viagem à Dimensão Zeta e nos abandonou por doze dias. Acostumados a posts diários, ficamos histéricos, esperando nosso mestre. Para nosso espanto, no dia 29 de Julho não encontramos um texto, mas uma mensagem de voz. Ao ouvir, meu coração disparou. A voz era linda, a dicção perfeita, impostação milimétrica, interpretação fantástica. E sim, eu sou hiperbólica, mas realmente foi isso o que senti.

Imediatamente, enviei o e-mail mais ridículo que já escrevi em toda a minha vida, começava dizendo "Não gostaria de parecer aquelas pessoas deslumbradas com o seu talento e sua inteligência, mas dessa vez eu fiquei deslumbrada. " Quem me conhece sabe que nunca fiz e jamais faria uma coisa dessas. Nunca fui de arroubos emocionais e deslumbres groupies, mas naquele momento, o senso de ridículo foi parar no lixo enquanto digitava maltraçadas linhas ao desconhecido. Ele então me respondeu, passando seu número do ICQ. Felizmente, ao conversarmos, não foi o lunático personagem que falou comigo, mas uma das pessoas mais centradas e equilibradas que já conheci. E jamais imaginei que estava diante da criatura mais encantadora que já entrou em minha vida.

E assim começou a história de amor mais improvável, meio por acaso, através do blogger.br, entre um rapaz criativo, talentoso, inteligente, romântico e sensível e uma menina solitária e umbiguista que jamais imaginou que conseguiria se apaixonar por alguém.

Depois de um tempo, ele pensou em deletar o blog por estar ocupado demais para atualizá-lo. Ciente do valor histórico daquele espaço, pedi encarecidamente que ele não fizesse isso. Diante de meu pedido, ele disse que não deletaria com uma condição: que eu mantivesse o blog vivo. Fui obrigada a concordar e assim nasceu Josephine ButterFly (que deve estar morrendo neste momento...risos...) e minha primeira tentativa (fracassada, obviamente) de fazer um heterônimo.

Josephine nunca foi um personagem propriamente dito. Nem personalidade definida ela tem. No começo acabei dando tantas referências que algumas pessoas desconfiaram que ela era Heiter (Van) e tive que, cara-de-paumente, desmentir. Depois, abandonei o barco e ele voltou a escrever.

Aos leitores do Diário que acharem um absurdo eu estar revelando a identidade do Edmund ao dizer, depois de três anos, que ele é personagem de Davison Lampert: não me matem. Quem começou com isso não fui eu, mas a irmã dele, Marjorie, que abriu o jogo em seu perfil no Orkut. Sem saída, ele acabou aceitando a idéia de ser desmascarado e agora assume seu Edmund sem receio. Nada mais natural do que eu escrever este texto. Não acredito, sinceramente, que isso tire a mágica do personagem, ao contrário, deixa Edmund menos abstrato e cria um laço entre seu autor e leitores. Acho que um abismo acaba de ser transposto. E nisso vejo uma grande evolução de nossa espécie.

Então, se você não conhece, dê uma bela olhada no Diário de um Lunático. Estou certa de que, como eu, também irá se apaixonar.


PS: Para os curiosos de plantão, uma dica: dêem uma olhada nos arquivos do Diário (o desenho cinza na coluna da esquerda). Nos comentários de 2003, Heiter(Van) era eu. E textos da Josephine foram transferidos para Save the Planctons. Pronto, falei.

PS2: Por incrível que pareça, a produção de textos dele começou há muito pouco tempo. O ofício de cartunista está em sua vida há mais tempo que o de escritor. Já participou de vários salões de humor, inclusive um dos cartuns que estão no blog, o de 31 de julho de 2003, foi o primeiro colocado no tradicional concurso "histórias de trabalho" de 1997, realizado pela secretaria de cultura de Porto Alegre.

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Sunday, April 09, 2006

Apenas uma pequena explicação fotográfica





Eu tenho um gato que adora tirar fotos (puxou a mãe, tá?). Tento tirar foto sozinha, como fazia nos primórdios de minha existência bloguística, mas isso simplesmente não é mais possível. Ele se joga em frente da câmera e me obriga a tirar uma foto com ele. Digo isso antes que alguém venha me acusar de fazer diferença entre meus filhos, dizendo que gosto mais do Tiggy do que da Ricota por ele sempre estar nas fotos comigo enquanto ela quase nunca aparece. Ela simplesmente esperneia toda vez que a pego no colo, já ele pula até no colo de desconhecidos. No caso de haver uma máquina fotográfica, então, descobre para onde ela está apontada e fica bem no foco. O Nermal gostava de tirar fotos, mas não se jogava na frente da câmera como esse aparício amarelo. E, além de tudo, ele gosta de admirar o resultado da foto, sua imagem na tela do computador.

Com qual outro gatinho eu poderia fazer uma foto como a que abre esse post? E como provam as fotos abaixo, foram feitas várias tentativas. Como diz meu sogro, esses gatos só não falam para não precisar trabalhar.


Primeira tentativa, sozinha, para um post que tencionava colocar no blog. Só que me achei com cara de bolacha maria e preferi fazer nova tentativa. No entanto, antes que pudesse me ajeitar no sofá para aguardar o timer, encontrei companhia.





A leitura estava boa :) Mas quem resiste a um gatinho fofo?



Juro que largava, arrumava a câmera, pegava ele de volta e ele continuava a ler, de onde tinha parado. :)



Deixei o caderno para lá. O gato era mais interessante :)



Uma espriguiçadinha básica, para concluir a sessão de fotos no sofá.



Depois dessas, obviamente, se seguiram quinhentas outras fotos, as always, porque a gente sempre tira oitocentas mil fotos para escolher uma, em cada post. Árduo trabalho inútil de quem gosta de se divertir gastando muito pouco :)

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Saturday, April 08, 2006

Navegando em mousse de chocolate

Há exatos quatro anos tive um dos piores dias da minha vida. Não foi o pior dia porque depois a vida me mostrou que poderia ser um pouquinho mais cruel do que eu imaginava. Nada, porém, que me tirasse a esperança e a eterna mania de ver que os dias bons são mais numerosos do que os dias maus. E que sobrevivemos, vitoriosos (nem que seja só pelo fato de termos sobrevivido), aos piores dias.

Estranhamente, costumamos nos concentrar bem mais nas coisas ruins do que nas coisas boas, mesmo que estas sejam mais sólidas do que aquelas. Hoje tenho a real consciência do tamanho dos meus problemas em relação ao resto da minha vida, em relação aos problemas dos outros, em relação ao mundo e à eles mesmos, por isso acho ridículo sequer pensar em um momento que seja de depressão. Não tenho esse direito. Ninguém tem.

Costumo dizer que nasci velha, nunca tive tanta certeza disso quanto agora. O mais importante, porém, é saber se divertir mesmo vendo toda a fatalidade de estar aqui, neste planeta maluco, cercados de gente doida, tropeçando em pessoas burras em postos altos quase todos os dias. Paralelamente a essa triste realidade, alegrias e percalços colorem nosso micro-cosmo. Eu, aqui, em meu pequeno dia-a-dia, escrevendo quase sempre como se o mundo girasse em torno do meu umbigo, com a plena convicção de que não gira coisa nenhuma, mas gostando de fingir que gira, de vez em quando, porque nada, absolutamente nada é completamente real neste planeta.

Existe não um abismo, mas pequenas valas entre o modo como escrevo para que os outros leiam e a forma que escrevo para eu mesma ler. Hoje é um daqueles estranhos dias em que escrevo para os outros como se estivesse escrevendo para mim. Talvez por isso você não esteja entendendo nada, talvez por isso mesmo esteja entendendo tão bem. Mas me sinto bastante à vontade quando escrevo assim, sem a menor pretensão de ser entendida. Porque é assim que sou e finalmente, neste parágrafo, transformo o micro-cosmo em centro do universo e finjo que meu umbigo é tudo o que importa ao digitar.

Não se engane, eu não tenho a menor pretensão de chegar a algum lugar com essa conversa e não pense que ao chegar ao final do texto você vai entender algum segredo oculto sobre a razão de eu ter ficado tantos dias sem dar o ar da mnha graça. Porque se você quer saber o motivo, ele é bem simples. Mas eu não estou nem um pouco interessada em fazer "querido diário" por aqui. O motivo faz parte do micro-cosmo, do dia-a-dia, da vida, do tempo, aquelas coisas que permeiam nossa existência e não são lá muito solucionáveis.

Estranho como a gente começa a escrever sobre o nada e de repente, está falando sobre alguma coisa. Sobre coisas concretas, em vez de devaneios inúteis. É estranho como o micro-cosmo nos suga para seus porquês, quandos e ondes enquanto tentamos navegar em mousse de chocolate (porque eu não gosto de maionese). Se olharmos além do micro-cosmo, muito provavelmente ficaremos paralisados diante do tamanho das coisas insolucionáveis, fatalidades e absurdos do macro-cosmo que mal enxergamos.

No entanto, se é isso o que temos, nada mais correto do que buscar as melhores coisas do nosso mundinho, os pequenos e maravilhosos detalhes que fazem com que sejamos gratos por viver, ainda que por alguns momentos. Aos poucos nos apegamos tanto às coisas boas que a torta ordem natural das coisas se inverte: os momentos bons parecem, aos nossos olhos, maiores e mais preciosos do que os ruins. Porque tudo depende de como escolhemos enxergar. E então os problemas, os dias ruins, se mostram ser o que realmente são: pequenos desníveis e buracos na estrada, dos quais nos desviamos ou até mesmo passamos por cima, quando necessário.

Então, mesmo sendo hoje o aniversário de um dos piores dias da minha vida, também é o aniversário de um dos melhores dias da minha vida. E além de tudo, ele mesmo é um dos melhores dias da minha vida, como todos os outros devem ser. Se for ruim, é por acidente. A natureza dos dias é ser dos melhores. E eu ando parecendo uma mistura de livro de auto-ajuda com uma centrifugação de ficcção científica e folheto esotérico. Urgh. Fora a ficção científica, não gosto de nenhum dos outros itens.

Tudo se resume em resignação. Se não dá para alterar o macro, se não existe como mudar o fato de sermos poeirinhas no meio do nada, olhemos para este mundo de umbigos buscando em nossos próprios uma catarse. Talvez seja isso o que eu faça aqui. Talvez seja disso que eu esteja sentindo tanta falta.

Friday, April 07, 2006

Atrasado, na Sala de Estar

O que realmente importa na vida

Por que é tão difícil dizer eu te amo?

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre

Esta semana repeti três vezes o mesmo assunto com pessoas diferentes. Primeiro, uma amiga, divorciada, com mais de sessenta anos, lembrava de seu casamento, de como, mesmo apaixonada pelo marido, nunca foi capaz de dizer "eu te amo". Aos poucos, sem carinho e sem diálogo, o casal foi se afastando, o casamento acabou, o ex-marido morreu e ela se lamenta até hoje por não ter aberto seu coração enquanto tinha tempo. Depois, conversando com meu marido, lembrei dos meus avós, que sempre se amaram, mas nunca admitiram. Passaram a vida toda dizendo que não gostavam um do outro, sem perceber que demonstravam o tempo todo o quanto gostavam e se importavam. Até o fim, ele doente, ela cuidando dele sem descanso e nunca deu o braço a torcer.

Por fim, encontrei um casal de amigos, também com mais de sessenta anos, que se amam muito, mas não demonstram nunca. Ele acha que é tão óbvio que não precisa dizer, ela acha que depois de tantos anos de casamento já não cabe mais declarações ou demonstrações de carinho. Brutalizado pelos anos, o casal não tem a menor idéia de quanto tempo está perdendo, do quanto estão jogando fora. Imagino que se vão se instalando e se arrastando mágoas, discussões engolidas, conversas caladas, silêncios errados, palavras mal ditas, problemas atravessados, noites mal dormidas, lágrimas não vistas, queixas ignoradas, depois das bodas de prata, calejados e embrutecidos, não há mais espaço para se dizer um "eu te amo" sem a sensação de ridículo.

Ridículo, na verdade, é passar por tantos e tantos anos, dividir a vida, tristezas, alegrias, criar filhos, compartilhar lembranças, gostar daquele sorriso, achar realmente especial o coração ingênuo que ele ainda guarda atrás da máscara, a delicadeza dela em enxergar detalhes, seu talento para a pintura, seu jeito de menina, ter vontade de abraçar, de confortar, de dizer "você pode contar comigo" e não dizer, e bloquear-se, e evitar demonstrações do amor mais óbvio. Isso é ridículo. Ter vivido tantos anos, saber que a vida passa tão depressa, que as coisas mudam de repente, que pessoas morrem sem aviso, que tudo acaba e não perceber a urgência que há em valorizar quem está perto, em demonstrar, em deixar claro o que até então esteve tão sub-entendido que mal se pôde entender. Isso é ridículo.

Às vezes é a falta de diálogo, às vezes é falta de afinidade, às vezes ela esperava uma coisa e quando o conheceu de verdade, já casada, desiludiu-se. Às vezes um dos dois (ou os dois) realmente nunca soube demonstrar afeto e acha que depois de casado, isso não é realmente necessário. Mas não importa o quão óbvio seja, ouvir é necessário, falar também. Eu fico angustiada porque gosto demais desse casal e ao mesmo tempo em que gostaria de enfiar isso na cabeça deles, sei que não posso, que cada um escolhe como viver, como agir e interferir em um relacionamento de décadas é intrometer-se demais na vida alheia. Resignada, resta-me esperar que caiam-lhes as fichas enquanto ainda são jovens e podem mudar o curso de seu barco. Imagine se os dois viverem até os noventa e cinco, cem, cento e dez anos de idade, isto é, terão mais trinta e cinco, quarenta, cinqüenta anos de casamento pela frente e podem escolher continuar nesse ritmo ou agir com sabedoria, dando mais ênfase aos momentos bons do que aos ruins que passaram. Porque o que passou, passou, meus amigos, e eu não admito que se achem velhos enquanto ainda não são.

Não sou uma jovenzinha romântica, ou talvez até seja, mas quem pode me dizer o que é real e o que é ilusão? Sentimentos são reais, a saudade que bate fundo quando olhamos uma fotografia, a lembrança de alguém que se foi, a dor que sentimos por uma palavra não dita, por um abraço não dado, por ter perdido tempo demais. Isso é real. Ilusão é achar que amor é coisa de filme, é coisa de livro e que no dia-a-dia as coisas são diferentes. Amor não é menor ou menos importante do que qualquer outro sentimento, por mais banalizada que essa palavra esteja. Não é questão de romantismo, mas de saber o que realmente importa nessa vida. Demonstrar que ama com carinho, com respeito, com consideração, com palavras, com beijos e abraços, com um simples elogio. Demonstrar amor ao marido, à esposa, à mãe, ao pai, aos filhos, aos amigos, a quem está ao nosso lado agora e que não sabemos onde estará amanhã. O que realmente importa nesta vida são os momentos que passamos com aqueles que amamos. Porque tudo, absolutamente tudo, passa.

A amiga cujo ex-marido morreu pretende encontrar um cara legal, namorar e casar novamente. E diz que agora, mais madura e resolvida, vai fazer tudo diferente. Abraçar, beijar, dizer que ama, fazer carinho, abrir o coração, conversar, reclamar, resolver, valorizar cada momento junto, aproveitar cada segundo, pois pode ser o último.

A outra amiga ainda tem seu marido, pode muito bem virar para ele e começar a conversa mais estranha de todos esses trinta e cinco anos de casamento, dizendo: "Acho que eu nunca disse que gosto de você, ou faz muito tempo que não digo isso", muito provavelmente ele vai achar que ela foi abduzida por alguma nave alienígena e que lhe arrancaram alguns parafusos da cabeça, mas garanto que vai ser a conversa mais esquisita e mais importante que já tiveram em todos esses anos. Aos poucos descobrirão que não tira pedaço dizer que ama, fazer um carinho, dar um beijo, demonstrar afeto, pedir desculpas. Mas se amamos e não dizemos, corremos o risco de esquecer.

[07/04/2006]