O que realmente importa na vida
Por que é tão difícil dizer eu te amo?
por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
Esta semana repeti três vezes o mesmo assunto com pessoas diferentes. Primeiro, uma amiga, divorciada, com mais de sessenta anos, lembrava de seu casamento, de como, mesmo apaixonada pelo marido, nunca foi capaz de dizer "eu te amo". Aos poucos, sem carinho e sem diálogo, o casal foi se afastando, o casamento acabou, o ex-marido morreu e ela se lamenta até hoje por não ter aberto seu coração enquanto tinha tempo. Depois, conversando com meu marido, lembrei dos meus avós, que sempre se amaram, mas nunca admitiram. Passaram a vida toda dizendo que não gostavam um do outro, sem perceber que demonstravam o tempo todo o quanto gostavam e se importavam. Até o fim, ele doente, ela cuidando dele sem descanso e nunca deu o braço a torcer.
Por fim, encontrei um casal de amigos, também com mais de sessenta anos, que se amam muito, mas não demonstram nunca. Ele acha que é tão óbvio que não precisa dizer, ela acha que depois de tantos anos de casamento já não cabe mais declarações ou demonstrações de carinho. Brutalizado pelos anos, o casal não tem a menor idéia de quanto tempo está perdendo, do quanto estão jogando fora. Imagino que se vão se instalando e se arrastando mágoas, discussões engolidas, conversas caladas, silêncios errados, palavras mal ditas, problemas atravessados, noites mal dormidas, lágrimas não vistas, queixas ignoradas, depois das bodas de prata, calejados e embrutecidos, não há mais espaço para se dizer um "eu te amo" sem a sensação de ridículo.
Ridículo, na verdade, é passar por tantos e tantos anos, dividir a vida, tristezas, alegrias, criar filhos, compartilhar lembranças, gostar daquele sorriso, achar realmente especial o coração ingênuo que ele ainda guarda atrás da máscara, a delicadeza dela em enxergar detalhes, seu talento para a pintura, seu jeito de menina, ter vontade de abraçar, de confortar, de dizer "você pode contar comigo" e não dizer, e bloquear-se, e evitar demonstrações do amor mais óbvio. Isso é ridículo. Ter vivido tantos anos, saber que a vida passa tão depressa, que as coisas mudam de repente, que pessoas morrem sem aviso, que tudo acaba e não perceber a urgência que há em valorizar quem está perto, em demonstrar, em deixar claro o que até então esteve tão sub-entendido que mal se pôde entender. Isso é ridículo.
Às vezes é a falta de diálogo, às vezes é falta de afinidade, às vezes ela esperava uma coisa e quando o conheceu de verdade, já casada, desiludiu-se. Às vezes um dos dois (ou os dois) realmente nunca soube demonstrar afeto e acha que depois de casado, isso não é realmente necessário. Mas não importa o quão óbvio seja, ouvir é necessário, falar também. Eu fico angustiada porque gosto demais desse casal e ao mesmo tempo em que gostaria de enfiar isso na cabeça deles, sei que não posso, que cada um escolhe como viver, como agir e interferir em um relacionamento de décadas é intrometer-se demais na vida alheia. Resignada, resta-me esperar que caiam-lhes as fichas enquanto ainda são jovens e podem mudar o curso de seu barco. Imagine se os dois viverem até os noventa e cinco, cem, cento e dez anos de idade, isto é, terão mais trinta e cinco, quarenta, cinqüenta anos de casamento pela frente e podem escolher continuar nesse ritmo ou agir com sabedoria, dando mais ênfase aos momentos bons do que aos ruins que passaram. Porque o que passou, passou, meus amigos, e eu não admito que se achem velhos enquanto ainda não são.
Não sou uma jovenzinha romântica, ou talvez até seja, mas quem pode me dizer o que é real e o que é ilusão? Sentimentos são reais, a saudade que bate fundo quando olhamos uma fotografia, a lembrança de alguém que se foi, a dor que sentimos por uma palavra não dita, por um abraço não dado, por ter perdido tempo demais. Isso é real. Ilusão é achar que amor é coisa de filme, é coisa de livro e que no dia-a-dia as coisas são diferentes. Amor não é menor ou menos importante do que qualquer outro sentimento, por mais banalizada que essa palavra esteja. Não é questão de romantismo, mas de saber o que realmente importa nessa vida. Demonstrar que ama com carinho, com respeito, com consideração, com palavras, com beijos e abraços, com um simples elogio. Demonstrar amor ao marido, à esposa, à mãe, ao pai, aos filhos, aos amigos, a quem está ao nosso lado agora e que não sabemos onde estará amanhã. O que realmente importa nesta vida são os momentos que passamos com aqueles que amamos. Porque tudo, absolutamente tudo, passa.
A amiga cujo ex-marido morreu pretende encontrar um cara legal, namorar e casar novamente. E diz que agora, mais madura e resolvida, vai fazer tudo diferente. Abraçar, beijar, dizer que ama, fazer carinho, abrir o coração, conversar, reclamar, resolver, valorizar cada momento junto, aproveitar cada segundo, pois pode ser o último.
A outra amiga ainda tem seu marido, pode muito bem virar para ele e começar a conversa mais estranha de todos esses trinta e cinco anos de casamento, dizendo: "Acho que eu nunca disse que gosto de você, ou faz muito tempo que não digo isso", muito provavelmente ele vai achar que ela foi abduzida por alguma nave alienígena e que lhe arrancaram alguns parafusos da cabeça, mas garanto que vai ser a conversa mais esquisita e mais importante que já tiveram em todos esses anos. Aos poucos descobrirão que não tira pedaço dizer que ama, fazer um carinho, dar um beijo, demonstrar afeto, pedir desculpas. Mas se amamos e não dizemos, corremos o risco de esquecer.
[07/04/2006]
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