Thursday, March 02, 2006

Sala de Estar, o retorno

Sei que hoje não era quarta e que postar uma coluna de quarta na sexta é infringir as leis do universo, mas a coluna já está congelada há tantas semanas que eu simplesmente não poderia deixar passar mais uma.

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Movida a anotações

Listas, imprevistos e páginas em branco.

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre

Algumas pessoas nascem prontas para seguir rotinas, outras vêm com defeito de fabricação. Eu sou uma delas. Totalmente desprovida de senso de direção, noção de horários e agenda biológica de compromisso, sou escrava de anotações. Lista do que fazer durante o dia, seja ela escrita em um pedaço de papel, guardanapo ou na indefectível agenda, é um troço totalmente indispensável para minha sobrevivência nesta selva urbana. Movida a listas, guio-me como um robozinho recém-programado pelos dias de minha vida, até que a morte nos separe.

Anoto o que tenho de fazer, o que tenho de lembrar, o que deveria esquecer, anoto tudo. Talvez por isso escrever seja o caminho natural que meu cérebro insiste em seguir. Nos últimos meses contentei-me, duramente, a saciar minha necessidade de canetas e papéis com listas, puras e simples. Listas são práticas, objetivas e descomplicadas, tudo o que eu mesma não sou. Tudo o que a vida insiste em não ser, convenhamos. Mas chega um momento em que listas são insuficientes, existem palavras desesperadas para ser escritas, gritando que listas não resumem o mundo, não resolvem problemas.

Sou tentada a achar que se me guiar por listas nada dará errado. Triste engano, nem tudo na vida pode ser marcado, anotado e seguido como um roteiro barato de uma coisa qualquer. De repente o mundo dá uma volta maluca, vira do avesso e minha tão perfeita lista torna-se terrivelmente obsoleta de um momento para outro. As cartas não estão marcadas, fazemos os planos, fazemos as listas, cumprimos horários, seguimos rotinas, mas o minuto seguinte não está em nossas mãos e subitamente nossa agenda torna-se uma seqüência de espaços em branco, de apontamentos riscados, de notas não planejadas. De repente estamos em um grande papel em branco, seguindo a invisível lista de alguém que mal sabemos quem é. Se eu tenho a mania de fazer listas, a vida tem a mania de criar imprevistos para me obrigar a descumprí-las.

Nutro um profundo respeito e admiração por aquelas pessoas que não precisam de anotações para lembrar de todos os afazeres e não se enrolam no emaranhado de coisas a serem feitas e horas que passam correndo, que conseguem fazer mil coisas ao mesmo tempo, ainda que a cabeça esteja presa à milésima primeira. Indivíduos cujo cérebro já vem com o item "organização" instalado de fábrica. Enquanto isso, enfileiro as letras, recortadas de uma revista qualquer, uma a uma, em minha lista diária de afazeres, torcendo para que o vento não as sopre para longe, nunca mais. Talvez eu devesse pensar em comprar um tubo de cola.

[03/03/2006]