Quem poderia imaginar?

Descobri uma desvantagem desse novo corte de cabelo. Eu teria que andar uma quadra no centro da cidade, perto das dez da noite. Escolhi, na verdade, a quadra mais escura do universo para fazer o trajeto, coisas de alguém que ainda não conhece quase nada da cidade, eu tinha que atravessar a Praça da Alfândega. Obviamente que eu não atravessaria no meio da praça porque não é lá muito aconselhável, então escolhi um cantinho menos escuro, ao lado do Santander cultural.
Saí de casa com o disfarce que sempre uso para não ser incomodada na rua e não correr riscos desnecessários quando saio à noite em locais potencialmente perigosos: calça jeans, tênis (preto), camisa larga (jeans, do Davison, abotoada, por fora da calça), nada de maquiagem, brincos ou anéis e cabelo desarrumado. Como estou bem magra, a camisa dá uma achatada na silhueta, se é que você me entende. A bolsa, deixei, não era por causa de uma bolsa em formato de cara de ursinho de pelúcia que alguém iria me incomodar.
Sim, você já imaginou. Eu não tinha imaginado. Mesmo porque sempre usei esse disfarce e sempre deu certo. Mas desta vez notei que estava chamando mais atenção do que se tivesse com minhas blusinhas justinhas e decotadas, salto alto e entupida de maquiagem, como gosto de sair. O local estava quase deserto, exceto por um grupinho estranho, aparentemente uma menina e uns três caras, mas eles pareciam estar tão entretidos na conversa que achei que nem me notariam, afinal de contas, eu estava disfarçada de "eu sou feia e sem graça, não olhem para mim".
Pensei que pudessem ser parte desgarrada de algum grupo de estudantes dos cursinhos da região, ao chegar mais perto (eu sou astigmata e estava sem óculos, no escuro) percebi que eram um bando de hippies ou coisa parecida.
Olhei para a frente e passei, torcendo para não ser notada. Em vão. Logo que passei, para meu espanto, ouvi:
- Ei, viadinho! Vem aqui! Viadinho!
Entre o côro "viadinho", ouvi uma voz masculina sem graça cogitar: "pára, meu, é uma mulher", mas ela foi sufocada pelos gritos alucinados e quase histéricos de "Viadinho! Vem aqui! Viadinho!" (estranhamente a mais histérica era a menina). Certamente era uma turma que curtia "viadinhos", tamanha a insistência deles.
Fiquei entre a vontade de rir e a de sair correndo, mas não cedi a nenhuma das vontades e continuei séria, olhando para a frente, óbvio, porque não sabia de quem se tratava, muito menos o que estavam tomando, cheirando, bebendo, usando, sei lá, nunca se sabe. Apressei o passo antes que apanhasse. Ou que fosse atacada, mas assim que descobrissem que não se tratava de um "viadinho", muito provavelmente ficariam tão frustrados que eu apanharia da mesma forma.
Logo que cheguei à parte iluminada e abarrotada de gente, tirei a camisa e fiquei com minha blusinha branca de alcinha. Parei de ser olhada feito ET. Mais ou menos. Assim que encontrei um banheiro, tasquei meu lápis preto nos olhos, duzentas camadas de rímel, gloss, arrumei o cabelo e tudo voltou ao normal. Ninguém mais olhou para a minha cara.
Acabou a liberdade. Se não quiser ser confundida com um rapazinho gay, tenho que sair vestida de perua. Eu não tinha notado essa minha tendência atual à androginia, aliás, eu realmente acho que ela não existe. Mas pelo visto parece que existe gente mais míope e astigmata do que eu.
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Descobri uma desvantagem desse novo corte de cabelo. Eu teria que andar uma quadra no centro da cidade, perto das dez da noite. Escolhi, na verdade, a quadra mais escura do universo para fazer o trajeto, coisas de alguém que ainda não conhece quase nada da cidade, eu tinha que atravessar a Praça da Alfândega. Obviamente que eu não atravessaria no meio da praça porque não é lá muito aconselhável, então escolhi um cantinho menos escuro, ao lado do Santander cultural.
Saí de casa com o disfarce que sempre uso para não ser incomodada na rua e não correr riscos desnecessários quando saio à noite em locais potencialmente perigosos: calça jeans, tênis (preto), camisa larga (jeans, do Davison, abotoada, por fora da calça), nada de maquiagem, brincos ou anéis e cabelo desarrumado. Como estou bem magra, a camisa dá uma achatada na silhueta, se é que você me entende. A bolsa, deixei, não era por causa de uma bolsa em formato de cara de ursinho de pelúcia que alguém iria me incomodar.
Sim, você já imaginou. Eu não tinha imaginado. Mesmo porque sempre usei esse disfarce e sempre deu certo. Mas desta vez notei que estava chamando mais atenção do que se tivesse com minhas blusinhas justinhas e decotadas, salto alto e entupida de maquiagem, como gosto de sair. O local estava quase deserto, exceto por um grupinho estranho, aparentemente uma menina e uns três caras, mas eles pareciam estar tão entretidos na conversa que achei que nem me notariam, afinal de contas, eu estava disfarçada de "eu sou feia e sem graça, não olhem para mim".
Pensei que pudessem ser parte desgarrada de algum grupo de estudantes dos cursinhos da região, ao chegar mais perto (eu sou astigmata e estava sem óculos, no escuro) percebi que eram um bando de hippies ou coisa parecida.
Olhei para a frente e passei, torcendo para não ser notada. Em vão. Logo que passei, para meu espanto, ouvi:
- Ei, viadinho! Vem aqui! Viadinho!
Entre o côro "viadinho", ouvi uma voz masculina sem graça cogitar: "pára, meu, é uma mulher", mas ela foi sufocada pelos gritos alucinados e quase histéricos de "Viadinho! Vem aqui! Viadinho!" (estranhamente a mais histérica era a menina). Certamente era uma turma que curtia "viadinhos", tamanha a insistência deles.
Fiquei entre a vontade de rir e a de sair correndo, mas não cedi a nenhuma das vontades e continuei séria, olhando para a frente, óbvio, porque não sabia de quem se tratava, muito menos o que estavam tomando, cheirando, bebendo, usando, sei lá, nunca se sabe. Apressei o passo antes que apanhasse. Ou que fosse atacada, mas assim que descobrissem que não se tratava de um "viadinho", muito provavelmente ficariam tão frustrados que eu apanharia da mesma forma.
Logo que cheguei à parte iluminada e abarrotada de gente, tirei a camisa e fiquei com minha blusinha branca de alcinha. Parei de ser olhada feito ET. Mais ou menos. Assim que encontrei um banheiro, tasquei meu lápis preto nos olhos, duzentas camadas de rímel, gloss, arrumei o cabelo e tudo voltou ao normal. Ninguém mais olhou para a minha cara.
Acabou a liberdade. Se não quiser ser confundida com um rapazinho gay, tenho que sair vestida de perua. Eu não tinha notado essa minha tendência atual à androginia, aliás, eu realmente acho que ela não existe. Mas pelo visto parece que existe gente mais míope e astigmata do que eu.
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