Já acabou o mês
Reflexões inevitáveis sobre o tempo
por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
Novembro chegou ao fim. O ano está terminando. Você não se sente preso em uma esteira que não pára de te levar para a frente? Tá, eu sei, é uma analogia esdrúxula, mas o tempo tem passado tão depressa ultimamente que dá vontade de pedir um intervalinho para tomar uma água, de vez em quando. Sei que é lugar-comum chegar em novembro ou dezembro e comentar que o ano passou rápido, mais rápido do que o ano anterior, que daqui a pouco é natal e que ultimamente tudo parece mais acelerado, mas é inevitável. Assusta.
Acontece que vivemos em um ritmo acelerado, overdose de informação, televisão, internet, telefone, celular, revistas, jornais, shopping, supermercado, trânsito, festas, trabalho, compromissos sociais, rotina de exercícios, curso...não cabe em 24 horas. Acreditamos que dormir é perda de tempo e que sentar para comer é desnecessário. Fazemos nossas refeições em movimento, por obrigação, não por prazer. Dormir oito horas por noite é impossível, estressamos nosso organismo ao máximo, a ponto de ele se acostumar a três, quatro horas de sono diárias, sem saber o que estamos plantando para o futuro. Vivemos na correria e só paramos quando nosso corpo nos obriga, nos jogando na cama por algum problema de saúde.
Não ouvimos nosso corpo, não cuidamos da nossa alma, ignoramos nosso espírito e depois, exaustos, culpamos o tempo, que passa rápido demais e nos impede de fazer as novecentas e oitenta mil coisas que planejamos para nossas parcas 24 horas diárias. Pisamos no acelerador e, indignados, reclamamos que as horas não nos acompanharam. Antes elas se arrastavam, porque, a rigor, não havia mesmo muito a se fazer. Ocupávamos nossos dias com tarefas realizáveis e não gastávamos nossas horas à toa em frente à TV (mesmo porque ela ainda não existia), ler um livro era uma viagem sem a interrupção do barulho do celular, da pressa do relógio, da agenda apertada.
Hoje o tempo nos atropela, ou somos nós que atropelamos o tempo. Atropelamos nossa própria vida, atropelamos nosso próprio corpo. Talvez, aproveitando que o final do ano está chegando, devêssemos fazer uma daquelas listas de resoluções de ano-novo, prometendo a nós mesmos um pouco mais de paz, um pouco menos de adrenalina, respeitar nosso organismo e cuidar para que nosso tempo, por mais que passe rápido, seja o mais longo possível, com o que temos de mais sagrado e ignoramos: saúde.
[30/11/2005]

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