
Não olhe para mim hoje. Eu não olhei no espelho. Está tudo silencioso aqui, do lado de dentro. Lá fora, tudo vazio. O sol desvia da janela e eu pouco vejo. Não me escondo, só não vejo. E o silêncio permanece do lado de dentro. Pode ser paz, pode ser ausência. Não há angústia, então talvez não seja ruim.
Não tenho música em minha cabeça o tempo todo, não tenho versos, tenho prosa. Longas sentenças silenciosas se escrevem dentro de mim. Algumas saem, outras não. Imprimem-se, de dentro para fora, em algum lugar entre o peito e a barriga, que é onde eu sinto as coisas.
Hoje os sentidos estão apurados, exceto a audição. Senti o gosto de cada coisa que me veio à boca. O olfato, o tato, a visão e os outros sentido ainda não catalogados, tudo me parece intenso demais. E eu me sinto mergulhada em uma sensação conhecida e inexplicável, de silêncio e palavras que não existem, ainda sem querer olhar no espelho.
Não quero saber de nada, nem entender o que quer que seja. Fico aqui, ouvindo a voz do silêncio, seguindo o movimento do vento lá fora, sem notícias do furacão aqui de dentro, sem deixar que o sol toque a minha pele, mas torcendo para que ele não vá embora.
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