Thursday, November 10, 2005

A janela do vizinho



Hoje era dia de lixo e eu nem me toquei. Porto Alegre tem disso: dia de lixo. Eu comemoro todo o dia do lixo, porque é muito importante para o lixo saber que ele vai para um lugar especial todas as terças, quintas e sábados e terá a possibilidade de se transformar em alguma coisa que não seja lixo. Mas hoje esqueci de colocá-lo para fora e causa-me calafrios saber que terei de conviver com ele até sábado. Felizmente somos poucos e não produzimos muito lixo. Ou então estaríamos severamente encrencados. Na minha terra a gente podia colocar lixo na rua todos os dias, que o lixeiro passava e pegava, bem feliz. Mas não tinha coleta seletiva.

Bem, tenho chegado moída em casa todos os dias. Culpo as benditas aulas de direção. Sei que estou fazendo uma baita tempestade em um ridículo copo d'água, mas eu sou dramática assim mesmo. Acho que carteira de motorista a gente deve tirar aos dezoito anos, quando não tem noção de nada e aprende rapidinho. Quanto mais velha a gente fica, mais medrosa e melindrada.

Fiz as pazes com o meu cabelo, de ontem para hoje. Aderi ao "se não pode vencê-lo, una-se a ele". Estou descabelada, com o cabelo curto e bicolor, mais da metade recusa-se a cachear e o que está crescendo já quer formar cachinhos. O cabelo tingido não se dá bem com ninguém, nem mesmo com seu irmão que está em fase de crescimento. Paciência é a alma do negócio. Inventei uns penteados esquisitos e estou começando a achar legal (quando começa a ficar esquisito, eu passo a achar legal).

Passei as últimas semanas em um mundo que não era o meu, agora retomo o foco e tento esquecer de onde parei, começando tudo de novo, desde a primeira linha. Chegou a hora da verdade, Vanessa, de saber o que você quer da vida. Na verdade, eu gostaria mais de saber o que a vida quer de mim. Reclamo desde que nasci de que não existe o curso que eu quero fazer. Encontrei algo parecido, não vou deixar escapar. Mas para isso terei de passar uns dias escrevendo feito doida, o que não deve ser difícil. Desestressei do negócio da auto-escola. Se não passar no primeiro exame, passo no segundo, no terceiro, no quarto, no vigésimo, mas um dia passo. Existem coisas mais importantes para eu me preocupar no momento.

Meus gatos comem granola. Não, essa não é uma das coisas mais importantes que eu tenho para me preocupar, é apenas uma constatação que acabo de fazer. Eles comem granola!! Será que faz mal? Em todo caso, eu não dei, não sou a favor de dar nada além de ração e snacks para gatos, mas caiu enquanto eu colocava no iogurte e eles comeram. A Ricota comeu miojo cru, dia desses, pelo mesmo motivo. Caiu no chão enquanto eu fazia e ela comeu, desesperada. Aliás, ela sempre come desesperada, normal.

Minha vizinha, do prédio ao lado, que todos os dias sai para fumar na sacada e fica olhando para a minha janela, arranjou uma estante no quarto e agora passa as noites em frente do computador. :) Eu adoro bisbilhotar a vida alheia, talvez por isso me interesse tanto por blogs. E livros. Porque no final das contas, ler um romance, por exemplo, é bisbilhotar a vida dos personagens. Todo mundo gosta disso. Porque a gente acaba se espelhando no outro, entendendo a própria vida ao olhar para a vida alheia. "Olhar para a vida alheia" é diferente de se meter na vida alheia, não me entendam mal, isso é péssimo.

E também não comparo um belo romance com a janela do vizinho, embora uma coisa e a outra possam estar relacionadas, sim. A janela do vizinho pode muito bem trazer elementos que enriqueçam um bom romance. A janela do vizinho também pode não ser literal. Ela pode estar presente naquele colega de classe, na colega de trabalho que te conta um problema, por exemplo, na senhora que senta ao seu lado no ponto de ônibus e fala sobre como era aquela área da cidade no tempo em que ela era mocinha. A janela do vizinho está em cada vida que passa por nós, o problema é que nem sempre a gente olha, e às vezes acha que não deve olhar. Mas deve, sim.

Porque nós somos a janela dos nossos vizinhos, é por nós que eles olham quando querem enxergar a eles mesmos. Todas as janelas estão interligadas, no final das contas, com ou sem persianas :) O mundo ainda é estranho, precisamos de espelhos e janelas. Se bem que algumas pessoas ignoram espelhos e não olham para janelas. Fecham as persianas e não querem conversa. Pobres delas.

Agora peraí! Pára tudo!! A vizinha levantou e ela parece a Paula Foschia!!! Eu nunca olho direito para a cara dela, mas agora deu para ver direitinho! Magrinha, cabelo escuro, liso e comprido, blusa de lã branca, gola alta, mangas compridas. Ela está com uma tiara ou um óculos no cabelo e... é a cara da Paula Foschia!! Acho melhor desligar o computador e fechar as benditas persianas, estou começando a ter graves alucinações. Daqui a pouco começo a acenar para a moça, achando que ela realmente é a Paula Foschia.

Já disse que estou com saudade do Rio? Hoje ouvi "Garota de Ipanema" e lembrei de Ipanema. Eu quero Ipanema!!! Um dia eu volto, Rio de Janeiro, e esta é uma ameaça.

PS: A foto ficou estranha. Sou eu, ultra-descabelada e o Johann, meu cachorrinho de pelúcia e companheiro de viagens. Juro que não mexi no photoshop, é que a máquina já está pedindo aposentadoria, não sabe controlar tempo de exposição e fica essa coisa over bright. Quase não se vê minha aliança e a cara do Johann.