Saturday, November 26, 2005

Já é dia 26???



Novembro está chegando ao fim. O ano está terminando. Você não se sente preso em uma esteira que não pára de te levar para a frente? Tá, eu sei, é uma analogia esdrúxula, mas o tempo tem passado tão depressa ultimamente que dá vontade de pedir um intervalinho para tomar uma água, de vez em quando. Sei que é lugar-comum chegar em novembro ou dezembro e comentar que o ano passou rápido, mais rápido do que o ano anterior, que daqui a pouco é natal e que ultimamente tudo parece mais acelerado, mas é inevitável. Assusta.

Acontece que vivemos em um ritmo acelerado, overdose de informação, televisão, internet, telefone, celular, revistas, jornais, shopping, supermercado, trânsito, festas, trabalho, compromissos sociais, rotina de exercícios, curso...não cabe em 24 horas. Sinceramente, não sei como conseguimos viver. Acreditamos que dormir é perda de tempo e que sentar para comer é desnecessário. Fazemos nossas refeições em movimento, por obrigação, não por prazer. Dormir oito horas por noite é impossível, estressamos nosso organismo ao máximo, a ponto de ele se acostumar a três, quatro horas de sono diárias, sem saber o que estamos plantando para o futuro. Vivemos na correria de tirar o pai da forca e só paramos quando nosso corpo nos obriga, nos jogando na cama por algum problema de saúde.

Não ouvimos nosso corpo, não cuidamos da nossa alma, ignoramos nosso espírito e depois, exaustos, culpamos o tempo, que passa rápido demais e nos impede de fazer as novecentas e oitenta mil coisas que planejamos para nossas parcas 24 horas diárias. Pisamos no acelerador e, indignados, reclamamos que as horas não nos acompanharam. Antes elas se arrastavam, porque, a rigor, não havia mesmo muito a se fazer. Ocupávamos nossos dias com tarefas realizáveis e não gastávamos nossas horas à toa em frente à TV (mesmo porque ela ainda não existia), ler um livro era uma viagem sem a interrupção do barulho do celular, da pressa do relógio, da agenda apertada.

A gente se excede o tempo todo e não se dá conta, vive em um desespero tão grande, a ponto de preencher cada segundo com afazeres para não ter tempo de olhar para dentro de si, para não fazer um balanço da vida, para não encontrar a forma correta de preencher aquele vazio. E vira um copo atrás do outro, rindo e brincando em uma mesa cheia de gente que mal se conhece, de verdade, na ilusão de que está curtindo, vivendo, aproveitando os parcos momentos de folga.

Volta para casa, coloca a cabeça no travesseiro e vê que o vazio ainda está lá, as horas continuam passando, e nada mudou. Porque nada muda assim, sozinho, sem que a gente coloque a mão na massa, assuma riscos e deixe o orgulho no lixo. E correr não faz ninguém viver mais, muito pelo contrário. O pessoal enche a boca para falar de "qualidade de vida", que é um troço que todo mundo quer e ninguém tem, uma utopia que buscamos da forma mais errada possível.

Qualidade de vida a gente só tem quando aprende a parar, quando aprende a respeitar nosso corpo, quando vê a importância de cuidar do espírito e das nossas emoções. Qualidade de vida nós só teremos quando, enfim, aceitarmos que só temos 24 horas, e que delas, oito são sagradas para o sono e as outras dezesseis (é, só dezesseis) devem ser ocupadas por tarefas possíveis, realizáveis sem pressa. Mas agora acorda, Vanessa, aqui é o mundo real, tá? Uma mudança dessas não depende só do pobre indivíduo. É praticamente impossível encaixar um programa "lentidão para qualidade de vida" neste mundo enlouquecido. Angustia saber que não é o tempo que nos atropela, mas nós mesmos.

Mas se não podemos fazer o que seria ideal, façamos então o que está ao nosso ancance. Desliguei a televisão. Ela só dá o ar da graça raramente, quando tem algum filme interessante ou algum programa legal do canal Pepole + Arts, que gosto. Diminuí meu tempo de internet, aumentei meu tempo de leitura e coloquei cadernos e canetas para trabalhar. Não uso mais relógios (na verdade, eu não sei em qual mala ou caixa eles estão...risos...), com isso é bem difícil de acostumar. Anoto tudo o que tenho a fazer em uma agenda, assim consigo ter real noção da quantidade de compromissos e da possibilidade de realizar tudo em apenas um dia. Passei a dormir oito horas por noite (nem sempre é possível, mas o máximo que posso) e respeitar meu corpo.

Mesmo assim novembro passou depressa e o susto de ver o ano chegando ao fim foi o mesmo dos anos anteriores. O pior é que, como meu aniversário é em Janeiro, acumulo dois sustos de uma só vez: um, de ver o ano chegar ao fim e o outro, de constatar que, de repente, fiquei um ano mais velha. Este ano resolvi me preparar com uma certa antecedência e o resultado é que já começo a ter uma crise pré-vinte e seis anos. Não me acostumei com esse negócio de tempo passando, por isso ainda me pego, de vez em quando, tendo surtos como este. A parte boa é saber que isso não acontece apenas comigo. Ainda bem.