Thursday, December 08, 2005

Coluna de hoje, recém postada na Sala de Estar


Algoz de si mesmo

Quando o perfeccionismo atrapalha

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre

Há algum tempo existe a lenda que citar, em uma entrevista de emprego, o perfeccionismo como defeito, impressiona. Acho que o truque já anda mais do que manjado, mas mesmo que ainda funcione, na realidade essa característica traz muito mais problemas do que coisas boas. Geralmente o perfeccionista é extremamente organizado, mas nem sempre. Ele pode ser incrivelmente desorganizado e se torturar por isso, portanto é melhor que a empresa não se fie muito nas vantagens dessa característica. A bem da verdade, torturar-se é bastante comum na vida de uma pessoa perfeccionista.

A pessoa se cobra demais. Escrava do perfeccionismo pouco lógico e nada prático. Sabe que pessoas que se cobram desse jeito não conseguem fazer nada e não chegam a lugar algum. Em que isso a transforma? Em uma louca? Em uma burra? Em uma criatura patética? Em uma covarde, que sabe de seu problema, mas não tem coragem de reagir e desafiá-lo? Mas como desafiá-lo? Como se livrar dessa crescente sensação de incapacidade, de pressa?

Na verdade o perfeccionista não crê em si mesmo, ele não se sente capaz, por isso se cobra, exige, desgasta, para obrigar a si mesmo a fazer o que julga necessário. Acha que, se não cobrar, ele não faz, como um patrão tirano que não confia em seu próprio funcionário. O perfeccionista é, antes de mais nada, extremamente auto-crítico, no pior sentido do termo. Rígido consigo mesmo, é difícil cobrar dele tolerância com os outros. Mesmo quando já consegue controlar essa parte, falta colaborar um pouco mais consigo.

Antes que o julguem, ele já se julgou. Antes que o condenem, já se condenou. Antes que o critiquem, já se criticou. E antes que o desprezem, ele já se desprezou. Não significa, no entanto, que ele não goste dele mesmo ou não acredite em nada do que faz, muito pelo contrário, é por acreditar demais que se cobro, pois sabe que pode sempre fazer melhor (acredita, mas não confia, dá para entender?). É por gostar demais que se exige, pois sabe que se não fizer nada não sai do lugar, e não merece isso.

O problema todo é quando não se sabe trabalhar sob pressão. A criatura se embanana toda, se enrola e não consegue nem mesmo se concentrar no que está fazendo. Quando a pressão vem dos outros, menos mal. A gente vai para casa e está tudo bem. Mas quando a pressão vem da gente mesmo, é uma tortura injusta. Torna-se algoz de si mesma.

Alguém me disse, certa vez, que nosso cérebro é reprogramável e que não temos a menor necessidade de sofrer anos e anos por um problema que já conseguimos identificar. Também me disse que nada pode ser mais forte do que nossa vontade e que podemos sim, mudar, se quisermos. E ainda - para completar - disse que não podemos ser escravos de nada, muito menos de coisas pouco lógicas e nada práticas. O problema é descobrir como se faz para consertar cada bug que surge em nosso cérebro. Parar de se cobrar tanto, de se torturar por algo que já passou, que já fizemos, que já aconteceu. Passado.

Respire fundo, que enquanto não tivermos as respostas, temos ao menos que aprender a contar até dez, lentamente, nos perdoando por não sermos exatamente aquilo que (acreditamos com todas as forças) deveríamos ser. E temos que saber, também, que por mais sinceros que sejamos na hora da entrevista de emprego ao dizer que nosso pior defeito é ser perfeccionista, o pessoal do recrutamento tende a não acreditar. Ainda bem.

[08/12/2005