Esse texto foi baseado em um e-mail endereçado a uma grande amiga minha, que na época sugeriu que eu o transferisse à Paradoxo. Com um certo atraso, segui o conselho e publiquei, há três dias (na quarta, finally), com algumas alterações.
Tirado daqui: Sala de Estar
A incansável busca por um emprego
Carta de uma desempregada sem a menor qualificação para coisa alguma
por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
Estou enlouquecida aqui atrás de emprego, mandando meu pobre currículo (pobre em todos os sentidos) para todo mundo. O chato é que em todo lugar aonde vou dão preferência a quem tem experiência comprovada. Não adianta nem dizer que um dia peguei uma cesta e saí para vender balinhas na rua por três meses. Se não posso provar, não conta. Você não precisa ter cérebro, tem que ter experiência. Aí esbarro no problema número dois: não posso pleitear qualquer vaga. As recrutadoras (e recrutadores) olham torto para mim por causa da minha aparência, dependendo da vaga. Porque eu não tenho cara de quem está precisando de emprego desesperadamente. Mais ou menos como quando eu fui atrás de uma vaga de caixa do Carrefour e o cara me disse que nem ia pegar meu currículo porque eu era bonita demais para o cargo. Tá, eu não sabia que um dos pré-requisitos para ser caixa de supermercado era ser não-bonita. Feia demais acho que eles também não contratam, então você tem de estar naquela faixa central de nem-feia-nem-bonita para conseguir esse grande emprego. O problema é que para pessoas sem curso superior não existe muita opção. Ao menos não opções que precisem de cérebro. Então me candidato a serviços mais braçais do que intelectuais. Agora, resignada, decidi procurar trabalho temporário como promotora de eventos, recepcionista de eventos ou degustadora em supermercados. Não ria, eu adoraria ter alguma experiência como degustadora, esse negócio de servir coisinhas minúsculas a pessoas que não estão minimamente interessadas naquelas coisinhas minúsculas e fazer com que elas se interessem, seria legal. Não por toda a minha vida, obviamente, mas como algo temporariamente temporário não me importo. Mas acho que esbarro em outro problema: não tenho a bendita experiência como degustadora (sim, eles pedem) e nem devo ser bonita o suficiente para recepcionista de eventos, você sabe, aqui em Porto Alegre, estranhamente, está cheio de gaúchas. Meninas altas, bonitas, de narizinho afilado, carinha arrumadinha e cabelo liso. Eu tenho uma cara estranha. Bonita demais para caixa do Carrefour, esquisita demais para recepcionista de eventos, inteligente demais para balconista de doceria (me disseram isso, com outras palavras) e com formação de menos para atividades mais intelectuais, eu estou em um limbo. Que venham os concursos, porque ali, pelo menos, ninguém escolhe pela aparência (ou currículo).
[22/03/2006]

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