Monday, April 10, 2006

Você se casaria com este homem?





No dia 15 de Abril de 2003 começava um blog que eu só fui descobrir uma semana depois. Todos os dias em que eu ia postar no Another Monster (que na época estava hospedado no blogger.br) via aquele blog na lista dos recentemente atualizados. Fiquei intrigada, porque só postava de madrugada, coisa de quem tem conexão discada e tem que esperar passar da meia-noite, que fica mais barato.

Curiosa, depois de alguns dias, cliquei, para ver quem era aquela criatura que postava todos os dias no mesmo horário que eu. Quando abriu, o template escuro, as letras brancas, um cartum em que um cara meio pirado sentava, pensativo, sobre uma cratera lunar tendo ao fundo nosso belo globo terrestre, me convidaram a entrar naquele submundo e ler aqueles textos estranhos. Rolei a barra lateral e descobri que o blog começara há pouco tempo. Os textos (ainda) eram curtos e resolvi dar uma olhada e, como tantos outros, viciei. Todas as madrugadas entrava, eufórica, para ler mais um texto do tal indivíduo. Ninguém sabia seu nome, sua idade, de onde ele era, qual sua cara, sua profissão, nada. Só o que sabíamos era que ele escrevia muito bem e tinha uma imaginação fora do normal.

Algumas pessoas, no começo, tinham dúvidas a respeito de sua identidade, alguns achavam que Edmund era um personagem, outros acreditavam piamente que um maluco com dupla personalidade e graves problemas psiquiátricos realmente escrevia aquele blog. Eu o imaginava como sendo um jornalista desempregado, de uns 43 anos, divorciado, uns três filhos, escrevendo em um computador em seu quarto mal iluminado, com livros espalhados pelo chão e uma velha luminária na escrivaninha. Aos poucos ele foi contando sua história, na série "A história de um lunático" e soubemos que ele era gaúcho e tinha 29 anos.

Devo deixar bem claro que sou chatíssima em relação a textos. Super hiper mega crítica, raramente me impressiono ou vicio em alguma coisa, principalmente relacionado a humor. Sou péssima em achar graça de alguma coisa. Humor fácil, excesso de palavrões, escracho, nada disso funciona comigo. O negócio tem de ser inteligente, tem de ser interessante, tem de ser sutil. Ser realmente engraçado de propósito exige um talento e tanto. E para completar, sou ranzinza. Só em saber que o negócio propõe-se a ser humorístico, já torço o nariz. Mas eram textos muito bem construídos, argumentos inteligentes, Edmund era um personagem sério em textos de humor. A curiosidade era grande, todo mundo queria saber quem era o dono daquele cérebro.

Em determinado momento, já estava claro que Edmund era um personagem, mas ele existia por si só, não havia uma única referência concreta ao seu criador. Eu lhe escrevia e-mails elogiando os textos e ele me respondia como o Edmund, com seu jeito característico de escrever. Na terceira tentativa aquilo começou a irritar e eu desisti da idéia. Porém, no dia 17 de Julho de 2003 Edmund fez uma viagem à Dimensão Zeta e nos abandonou por doze dias. Acostumados a posts diários, ficamos histéricos, esperando nosso mestre. Para nosso espanto, no dia 29 de Julho não encontramos um texto, mas uma mensagem de voz. Ao ouvir, meu coração disparou. A voz era linda, a dicção perfeita, impostação milimétrica, interpretação fantástica. E sim, eu sou hiperbólica, mas realmente foi isso o que senti.

Imediatamente, enviei o e-mail mais ridículo que já escrevi em toda a minha vida, começava dizendo "Não gostaria de parecer aquelas pessoas deslumbradas com o seu talento e sua inteligência, mas dessa vez eu fiquei deslumbrada. " Quem me conhece sabe que nunca fiz e jamais faria uma coisa dessas. Nunca fui de arroubos emocionais e deslumbres groupies, mas naquele momento, o senso de ridículo foi parar no lixo enquanto digitava maltraçadas linhas ao desconhecido. Ele então me respondeu, passando seu número do ICQ. Felizmente, ao conversarmos, não foi o lunático personagem que falou comigo, mas uma das pessoas mais centradas e equilibradas que já conheci. E jamais imaginei que estava diante da criatura mais encantadora que já entrou em minha vida.

E assim começou a história de amor mais improvável, meio por acaso, através do blogger.br, entre um rapaz criativo, talentoso, inteligente, romântico e sensível e uma menina solitária e umbiguista que jamais imaginou que conseguiria se apaixonar por alguém.

Depois de um tempo, ele pensou em deletar o blog por estar ocupado demais para atualizá-lo. Ciente do valor histórico daquele espaço, pedi encarecidamente que ele não fizesse isso. Diante de meu pedido, ele disse que não deletaria com uma condição: que eu mantivesse o blog vivo. Fui obrigada a concordar e assim nasceu Josephine ButterFly (que deve estar morrendo neste momento...risos...) e minha primeira tentativa (fracassada, obviamente) de fazer um heterônimo.

Josephine nunca foi um personagem propriamente dito. Nem personalidade definida ela tem. No começo acabei dando tantas referências que algumas pessoas desconfiaram que ela era Heiter (Van) e tive que, cara-de-paumente, desmentir. Depois, abandonei o barco e ele voltou a escrever.

Aos leitores do Diário que acharem um absurdo eu estar revelando a identidade do Edmund ao dizer, depois de três anos, que ele é personagem de Davison Lampert: não me matem. Quem começou com isso não fui eu, mas a irmã dele, Marjorie, que abriu o jogo em seu perfil no Orkut. Sem saída, ele acabou aceitando a idéia de ser desmascarado e agora assume seu Edmund sem receio. Nada mais natural do que eu escrever este texto. Não acredito, sinceramente, que isso tire a mágica do personagem, ao contrário, deixa Edmund menos abstrato e cria um laço entre seu autor e leitores. Acho que um abismo acaba de ser transposto. E nisso vejo uma grande evolução de nossa espécie.

Então, se você não conhece, dê uma bela olhada no Diário de um Lunático. Estou certa de que, como eu, também irá se apaixonar.


PS: Para os curiosos de plantão, uma dica: dêem uma olhada nos arquivos do Diário (o desenho cinza na coluna da esquerda). Nos comentários de 2003, Heiter(Van) era eu. E textos da Josephine foram transferidos para Save the Planctons. Pronto, falei.

PS2: Por incrível que pareça, a produção de textos dele começou há muito pouco tempo. O ofício de cartunista está em sua vida há mais tempo que o de escritor. Já participou de vários salões de humor, inclusive um dos cartuns que estão no blog, o de 31 de julho de 2003, foi o primeiro colocado no tradicional concurso "histórias de trabalho" de 1997, realizado pela secretaria de cultura de Porto Alegre.

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