Relato de uma desorganizada compulsiva
por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[12/04/2007]
Confesso: sou colecionadora de tralhas, embora elas não sejam catalogadas, nem organizadas como as coleções costumam ser. Minhas tralhas não se proliferam pela casa por desorganização pura e simples, mas por valor histórico. Sei que a maioria das pessoas não conseguiria entender o valor histórico de uma notinha de supermercado ou de um pote de creme meio cheio (ou meio vazio) que não é usado há dois anos, mas algumas coisas têm valor óbvio, por exemplo: eu guardo todos os ingressos de cinema dos filmes que vi com meu marido, desde quando éramos namorados, há três anos e meio. A idéia inicial era reuní-los em uma caixa, mas eles quiseram brincar de esconde-esconde. Sempre que resolvo limpar alguma gaveta, encontro um deles, e logo busco em meu banco de recordações aquele dia, aquele filme, as sensações que causou.
Existem, porém, os papéis que sei que deveria jogar fora, as revistas, os jornais...o que fazemos com as revistas depois que as lemos? Pago quase dez Reais por mês em algo para jogar no lixo depois? Dia desses fomos visitar um tio do meu marido e descobri uma coleção diferente de livros na estante, pareciam pequenas enciclopédias. Ele explicou que se tratava de uma compilação de vários números de uma revista que ele gostava. Pegou uma pilha daquelas revistas, selecionou o que interessava, desmontou e mandou encadernar.
Achei uma saída extremamente inteligente, reuniu o que queria, diminuiu o entulho e ainda ganhou capa dura para proteger as folhas. No entanto, ainda não usei essa estratégia em minhas revistas, pois não tenho um lugar decente para colocar nem os livros que já tenho...embora continue a comprar livros, mesmo assim. Argumento derrubado, minha cara, favor providenciar outro, com urgência, ou assumir a preguiça, a bagunça crônica e a procrastinação.
Vivo perseguida pela sombra das coisas que não consigo jogar fora, planejando dar cabo das inutilidades o quanto antes, para liberar espaço. Porém, é como se eu perdesse momentos e lembranças a cada objeto sem função que fosse para o lixo. Por que razão pequenos presentes são chamados de "recordações" ou "lembrancinhas"? Algumas coisas realmente guardam fatos, pessoas e acontecimentos, para resgatar a memória.
Minha memória é péssima, me agarro a elementos de apoio para construir minha história. Escrevo para não me perder, conto meus dias pelos papéis espalhados, pelas fotos, pelos textos, pelos livros que li e me esqueceram, pelas roupas que não uso mais, pelos papeizinhos minúsculos cuja utilidade só eu conheço, pelos cartões e documentos sem validade, pelas revistas e jornais obsoletos.
Sou eu espalhada pela casa, meus dias, minha vida, minhas lembranças, que quero, urgentemente, organizar e enxugar. Liberar o espaço na casa e na mente, colocar estantes, poder ver a parede e arrastar os móveis para passar o aspirador sem medo. A vida não ficará menor sem aquele sachezinho de açúcar, sem aquele batom velho, sem o folder da veterinária em Copacabana, que me faz ter a certeza de que já estive lá, e que traz os momentos agradáveis e desagradáveis que vivi entre o mar e o morro, entre o mar e a Lagoa, entre o mar e eu.
Liberar espaço, com o sério objetivo de acumular novas tralhas, é a melhor motivação para que eu realize essa faxina, respeitando meu senso histórico.
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