Friday, February 09, 2007

PARTICIPAÇÃO DE FALECIMENTO


"Clóvis, esposo; Marjorie e Davison, filhos; Vanessa Stella, nora e familiares comunicam com pesar o falecimento da inesquecível


Dinorá da Silva Lampert



ocorrido em 26 de janeiro de 2007 no Hospital Santa Rita.

Agradecem todas as manifestações de carinho e conforto recebidas.

Agradecem, também, aos enfermeiros do Hospital Santa Rita, bem como aos médicos e enfermeiros da CliniOnco. Em especial, ao Dr. Ricardo Moacir Silva pelo atendimento durante sua internação.



"...Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor."


Apocalipse 14.13 a





Porto Alegre, 04 de fevereiro de 2007."



O texto acima foi escrito por minha cunhada, Marjorie Lampert, para participar o falecimento da mãe dela, minha sogra e grande amiga Dinorá, mas infelizmente não houve como publicar a nota no jornal (impossível neste momento desembolsar mais de dois mil Reais por um box 10x5 na Zero Hora. Capaz de a Dinorá ressuscitar e nos dar um puxão de orelha por uma coisa dessas nas circunstâncias financeiras atuais. O preço não é muito diferente nos outros jornais daqui.). No entanto, pedi permissão para publicá-lo neste meu espaço, e garantir que nossa homenagem esteja disponível a quem por ela procurar.

Foi o principal motivo do meu silêncio por todo esse tempo. Nos pegou de surpresa, confesso, embora nem devesse, talvez. Estava doente há muito tempo e nunca foi nos dada muita esperança, mas ninguém precisa nos dar esperança, nascemos com ela e nos agarramos à que tínhamos. Muito, muito mais do que esperança, certeza. Certeza de que ela venceria, apesar de tudo.

Acompanhei toda a sua luta. Um ano e meio de quimioterapia, a verdadeira razão de eu ter cortado o cabelo, por solidariedade, para convencê-la a cortar também, e não dar continuidade à tortura de vê-lo caindo aos tufos. A peruca era tão bem feita que ninguém desconfiou, os vizinhos foram tomados de surpresa ao descobrirem, no início do ano, que ela estava doente.

O câncer permanecia estável, passávamos as horas na clínica, durante a aplicação dos remédios, conversando como se estivéssemos na sala de casa. Tudo o que eu queria era ajudá-la a lidar bem com aquilo, mas consegui muito mais. Consegui uma amiga, uma grande amiga, muito inteligente, sábia, humilde, divertida, suave. Era uma menina, eu costumava esquecer que estava falando com uma pessoa mais velha do que eu.

Eu estava com ela quando foi internada, no natal, para um procedimento simples, por conta de um acúmulo de líquido na pleura. Algumas coisas que passamos e dissemos vou guardar comigo, só para mim, para sempre. Ela não tinha idéia do quanto eu estava aprendendo. Eu também não.

Viajei para Campo Grande para ajudar minha mãe com minha avó, que sofrera o segundo AVC. Acreditava que quando voltasse, a Dinorá já estaria em casa. Em duas semanas o pulmão estava tomado pela doença, que se espalhava em um ritmo assustador. Cheguei de viagem e minha amiga estava fraca, mas ainda lutando. Pediu desculpas por não conseguir conversar direito por causa da falta de ar, mas me colocou à par das novidades.

Tive o privilégio de poder ajudar a cuidar dela nos últimos dias, mas foi a Marjorie quem segurou a barra durante todo o mês em que ela ficou internada (e que eu não poderia mesmo ajudar, porque estava gripada quando ela entrou em isolamento), e as duas irmãs da Dinorá, Lídia e Graziela, revezaram-se durante a noite. Davison ajudou, além de suas forças, e seu pai, Clóvis, demonstrou seu amor indo visitá-la com frequência, a despeito de seu sério trauma de hospitais. Por isso quando cheguei me prontifiquei a ajudar, para que descansassem. Assim, pude compartilhar sua última noite, sua última febre, suas últimas horas, mas não estava mais lá quando ela partiu.

A sensação que tive foi que alguém havia pisado no freio. Eu estava vindo de uma viagem de treze meses em alta velocidade e, subitamente, alguém pisou no freio. O pára-brisa estilhaçado, eu, tonta, sem saber onde estava, quem era, e o que havia acontecido. Surreal. Alguém, por favor, coloque as legendas.

Depois, a calmaria. A vida ficou estranha por alguns dias, a cabeça confusa com o impacto. Agora, resta a saudade. Saudade da menina louca por peixe, apaixonada pelo mar, por sentir a brisa no rosto, que pintava quadros lindíssimos, sempre atenta, curiosa, cuidadosa. Saudade da minha amiga, da minha menina, das nossas conversas, da sintonia que criamos. Saudade daquele sorriso, daquele abraço, de beijar sua bochecha e vê-la achar graça.

Saudade, só isso. Boas lembranças, que as ruins, dos últimos dias, eu já guardei na gaveta cinza do meu arquivo do esquecimento. Não sofremos além disso, porque sabemos onde ela está agora. Felizmente, bem longe do sofrimento, da dor, bem longe do desespero e desta Terra atribulada. Descansou, e descansa ainda, sem as preocupações aqui de baixo. A nós resta apenas manter-nos firmes no Caminho, confiando na promessa do reencontro.

Guardo comigo a lembrança da moça alegre com quem tive o prazer de conviver durante esses três breves anos. Me lembrarei sempre dela bem, feliz, como quando via o mar.






Marjorie, Davison e Dinorá, em Tramandaí, RS, 8 de Julho de 2006


Dinorá, eu e Marjorie





"Em tudo somos atribulados, porém não angustiados, perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos" (2 Coríntios 4:8,9)

"Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem. porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas" (2 Coríntios 4:17,18)