Destempero

Envelheço desde que nasci. Envelheço, em uma rapidez impressionante. Absorvendo feito esponja as experiências dos outros, os livros que leio, as histórias que ouço. Minha memória não é muito boa, tudo o que deseja ficar gravado deve ser escrito, registrado, lido e relido. É assim com fatos vividos por mim, e com fatos ouvidos e com a literatura. Se anoto, não esqueço. Minhas histórias vividas me são percebidas como narrativas, através das anotações fiéis que faço. Assim, a memória entranha-se de tal forma que algumas pessoas realmente acreditam que tenho uma incrível capacidade mnemônica, ainda que eu tente convencê-las do contrário.
O problema é que cada ano vivido por outra pessoa, que incluo em meu acervo de aprendizado (como sou muito observadora, esse acervo é muito grande) soma-se aos meus e me envelhece por dentro. O lado positivo é uma certa sabedoria e maturidade que eu não teria de outra forma (isso sem contar a modéstia e o peculiar senso de humor), o lado negativo é esse olhar pesado e as rugas emprestadas.
Às vezes características alheias servem como uma espécie de tempero, a realçar o sabor original de quem as recebe, por outro lado, às vezes o tempero acaba estragando o que deveria valorizar. Alguns sabores têm uma originalidade sutil, mas isso também depende do gosto pessoal.
Contrariando toda a humanidade, sou contra temperar saladas. O pior crime que pode ser cometido contra um tomate é colocar sal. O tomate tem um sabor suave, refrescante, capaz até mesmo de matar a sede, se esta não for muito pronunciada. O sal dá sede, causa retenção hídrica, aumenta a pressão sanguínea e enquanto consegue realçar o sabor das refeições quentes, no tomate e demais componentes da salada ele tem única e exclusivamente gosto de...sal.
Se eu quisesse sentir gosto de sal, sorveria o conteúdo do saleiro com canudinho. Se eu como um tomate, quero saboreá-lo como tomate, ter o prazer de sentir o gosto do tomate, sua textura, sua temperatura refrescante. Não é minha intenção colocar nele um troço que me arda a boca, me dê vontade de engolir o mais rápido possível, sem sentir o gosto direito, e ainda me deixe com uma sede infernal.
A pressa nos tirou o prazer de saborear os alimentos de gosto delicado, queremos sabores fortes, artificiais, gritantes, queremos sentir o sal, o vinagre, o limão, queremos sentir o gosto da máscara. Tiro a roupa do tomate. Quero que o tomate seja ele mesmo, com suas características, so suas, sem disfarces. Com a suavidade natural, tendo seu espaço respeitado, sua identidade de tomate preservada. O respeito, meus caros, começa à mesa.

Envelheço desde que nasci. Envelheço, em uma rapidez impressionante. Absorvendo feito esponja as experiências dos outros, os livros que leio, as histórias que ouço. Minha memória não é muito boa, tudo o que deseja ficar gravado deve ser escrito, registrado, lido e relido. É assim com fatos vividos por mim, e com fatos ouvidos e com a literatura. Se anoto, não esqueço. Minhas histórias vividas me são percebidas como narrativas, através das anotações fiéis que faço. Assim, a memória entranha-se de tal forma que algumas pessoas realmente acreditam que tenho uma incrível capacidade mnemônica, ainda que eu tente convencê-las do contrário.
O problema é que cada ano vivido por outra pessoa, que incluo em meu acervo de aprendizado (como sou muito observadora, esse acervo é muito grande) soma-se aos meus e me envelhece por dentro. O lado positivo é uma certa sabedoria e maturidade que eu não teria de outra forma (isso sem contar a modéstia e o peculiar senso de humor), o lado negativo é esse olhar pesado e as rugas emprestadas.
Às vezes características alheias servem como uma espécie de tempero, a realçar o sabor original de quem as recebe, por outro lado, às vezes o tempero acaba estragando o que deveria valorizar. Alguns sabores têm uma originalidade sutil, mas isso também depende do gosto pessoal.
Contrariando toda a humanidade, sou contra temperar saladas. O pior crime que pode ser cometido contra um tomate é colocar sal. O tomate tem um sabor suave, refrescante, capaz até mesmo de matar a sede, se esta não for muito pronunciada. O sal dá sede, causa retenção hídrica, aumenta a pressão sanguínea e enquanto consegue realçar o sabor das refeições quentes, no tomate e demais componentes da salada ele tem única e exclusivamente gosto de...sal.
Se eu quisesse sentir gosto de sal, sorveria o conteúdo do saleiro com canudinho. Se eu como um tomate, quero saboreá-lo como tomate, ter o prazer de sentir o gosto do tomate, sua textura, sua temperatura refrescante. Não é minha intenção colocar nele um troço que me arda a boca, me dê vontade de engolir o mais rápido possível, sem sentir o gosto direito, e ainda me deixe com uma sede infernal.
A pressa nos tirou o prazer de saborear os alimentos de gosto delicado, queremos sabores fortes, artificiais, gritantes, queremos sentir o sal, o vinagre, o limão, queremos sentir o gosto da máscara. Tiro a roupa do tomate. Quero que o tomate seja ele mesmo, com suas características, so suas, sem disfarces. Com a suavidade natural, tendo seu espaço respeitado, sua identidade de tomate preservada. O respeito, meus caros, começa à mesa.

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