Monday, December 11, 2006

Destempero




Envelheço desde que nasci. Envelheço, em uma rapidez impressionante. Absorvendo feito esponja as experiências dos outros, os livros que leio, as histórias que ouço. Minha memória não é muito boa, tudo o que deseja ficar gravado deve ser escrito, registrado, lido e relido. É assim com fatos vividos por mim, e com fatos ouvidos e com a literatura. Se anoto, não esqueço. Minhas histórias vividas me são percebidas como narrativas, através das anotações fiéis que faço. Assim, a memória entranha-se de tal forma que algumas pessoas realmente acreditam que tenho uma incrível capacidade mnemônica, ainda que eu tente convencê-las do contrário.

O problema é que cada ano vivido por outra pessoa, que incluo em meu acervo de aprendizado (como sou muito observadora, esse acervo é muito grande) soma-se aos meus e me envelhece por dentro. O lado positivo é uma certa sabedoria e maturidade que eu não teria de outra forma (isso sem contar a modéstia e o peculiar senso de humor), o lado negativo é esse olhar pesado e as rugas emprestadas.

Às vezes características alheias servem como uma espécie de tempero, a realçar o sabor original de quem as recebe, por outro lado, às vezes o tempero acaba estragando o que deveria valorizar. Alguns sabores têm uma originalidade sutil, mas isso também depende do gosto pessoal.

Contrariando toda a humanidade, sou contra temperar saladas. O pior crime que pode ser cometido contra um tomate é colocar sal. O tomate tem um sabor suave, refrescante, capaz até mesmo de matar a sede, se esta não for muito pronunciada. O sal dá sede, causa retenção hídrica, aumenta a pressão sanguínea e enquanto consegue realçar o sabor das refeições quentes, no tomate e demais componentes da salada ele tem única e exclusivamente gosto de...sal.

Se eu quisesse sentir gosto de sal, sorveria o conteúdo do saleiro com canudinho. Se eu como um tomate, quero saboreá-lo como tomate, ter o prazer de sentir o gosto do tomate, sua textura, sua temperatura refrescante. Não é minha intenção colocar nele um troço que me arda a boca, me dê vontade de engolir o mais rápido possível, sem sentir o gosto direito, e ainda me deixe com uma sede infernal.

A pressa nos tirou o prazer de saborear os alimentos de gosto delicado, queremos sabores fortes, artificiais, gritantes, queremos sentir o sal, o vinagre, o limão, queremos sentir o gosto da máscara. Tiro a roupa do tomate. Quero que o tomate seja ele mesmo, com suas características, so suas, sem disfarces. Com a suavidade natural, tendo seu espaço respeitado, sua identidade de tomate preservada. O respeito, meus caros, começa à mesa.