Friday, April 06, 2007

Sala de Estar

Saindo dos escombros

A vida não poderia estar em melhores mãos

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[06/04/2007]

Hoje é páscoa, ainda existe uma pequena porcentagem de pessoas que não dá tanta bola para ovos de chocolate e se lembra do sacrifício de Cristo por nossos pecados. Alguns se sentem culpados, embora a intenção fosse que nos sentíssemos gratos por tamanha prova de amor. Essa páscoa me parece diferente das anteriores, talvez por eu ter prestado um pouco mais de atenção na importância dessas celebrações em família, talvez por eu ter acordado apenas agora, como se fosse o primeiro feriado em muitos meses. Talvez por eu ter conseguido descansar.


Durante as festas de 2005 e o início de 2006 meu marido lutava contra a morte em uma UTI. Felizmente, apesar de perdermos natal e ano novo, apesar de eu não ter tido festa de aniversário e mal ter me lembrado da data, tivemos muito a comemorar: no final de janeiro ele recebeu alta e voltou para casa, para se recuperar. Prometemos fazer uma ceia de natal e de ano novo, com tudo o que tínhamos direito, assim que o ano terminasse; 2006 se arrastou com pequenas vitórias e grandes lutas, mas sempre com a força e a certeza de que Deus nos sustentava em todas as situações. Quando enfim dezembro chegou, já fazíamos os planos para a tão esperada ceia, quando minha sogra, Dinorá, se sentiu mal.


Fazendo quimioterapia há um ano e meio, ela foi internada pouco antes do natal para um procedimento simples, mas os dias se arrastavam, a internação engoliu nosso natal, ano-novo e meu aniversário, novamente. No final de janeiro perdi minha grande amiga. Não tivemos o alívio da vitória que recebemos em 2006, a tranqüilidade da alta e do milagre que havíamos presenciado. Foi um baque tão forte que me derrubou por dois meses, pelo menos, e escrevo agora como quem afasta um pouco os escombros, retirados lentamente pelos bombeiros da minha alma.


Aos poucos retomo meu dia-a-dia, ainda tentando lidar com todos os aspectos dessa tragédia familiar. Então hoje, lendo um livro que me foi apresentado pela minha cunhada "Uma mulher segundo o coração de Deus", de Elizabeth George, me espantei com um trecho do início, em que ela comenta sobre a morte recente de sua sogra, Lois.


"meu coração e minha mente estavam cheios de pensamentos como: "o que faremos para o Dia de ação de graças? Nós sempre passamos este dia na casa de Lois. Ela sempre preparou o peru, a salada, os temperos e as tortas caseiras. Como será uma reunião familiar sem ela?" (...) Ela não estaria no seu banco costumeiro, aos domingos na igreja...Eu não teria mais motivos para pegar a estrada que levava à sua casa. Além disso, a casa nem era mais dela"


São perguntas parecidas com as que continuam rondando minha mente, mesmo quase três meses depois. As reuniões familiares, os almoços de domingo, as nossas idas à clínica... penso continuamente na ausência brusca, sigo a me torturar com as lembranças que insisto em chamar, sempre. A luta foi tão intensa que, quando tudo acabou, meu cérebro não soube entender como agir dali para diante. Gostaria de conseguir ter encerrado essa história com a facilidade com que encerrei a minha história com meu pai, quando ele morreu.


"Me lembrava da batalha de Lois contra o câncer e a pneumonia no final de sua vida, percebi que estava enfrentando a dura realidade. Todos nós temos um corpo que um dia vai desaparecer - e este dia não está necessariamente tão longe. Lembrei-me também mais uma vez o quão desesperadamente quero que minha vida - verdadeiramente cada dia, cada minuto - tenha valor."


Talvez o pior seja encarar o fato de que não sou eu a escrever essa história. Não está em minhas mãos e o tempo está passando, meu tempo e o de todos nós. Por mais que eu tenha o costume de entregar minha vida e meu dia para Deus todas as manhãs, desenvolver a confiança absoluta nesta entrega é um hábito a ser renovado a cada minuto. Como uma criança que se lança de um lugar alto nos braços estendidos do pai, confiando que ele irá segurá-la. Essa é a verdadeira entrega: se lançar. Não importa o que aconteça, eu sei que Ele está no controle de tudo e que posso confiar em Seus braços. Eu não sei viver se não for assim e passei tanto tempo a me torturar que esqueci de renovar essa confiança. Uma das últimas coisas que ouvi da Dinorá foi: "as coisas não poderiam estar em melhores mãos". E não poderiam, mesmo.


Minha luta atual tem sido exercitar essa entrega sempre que me sinto tentada a me torturar com as lembranças, como se minha própria vida tivesse se transformado em um museu, olhando o presente, o futuro e o passado como coisas inexoravelmente condenadas ao pretérito perfeito. "Ela morreu, mas sua vida continua". Sim, até que eu morra, também. Enquanto isso, luto para não desperdiçar nenhum minuto, e para dar valor ao que é realmente importante. Tenho feito faxina em minha vida, afastando o que me atravanca o caminho e restabelecendo as prioridades. Sou nova página em construção, no momento, colaborando com as reformas que Deus tem realizado aqui dentro.


Nossa rotina é atribulada e corrida, mas é necessário fazer determinadas pausas para reavaliar a vida e jogar fora o que nos atrapalha. Olhar as coisas boas que acontecem (sim, acontecem, embora as coisas ruins sejam tão catastróficas que pareçam maiores), os presentes que recebemos todos os dias: as pessoas que amamos, a saúde, a vida. Ainda tenho muito a escrever (apesar de achar, sinceramente, que tudo já foi escrito, as novidades restringem-se à forma), a ler, a aprender, a viver, e outros verbos no infinitivo terminados em "er", sem muito desespero, sem megalomania, sentindo o vento no rosto, ouvindo uma música tranqüila, sem dar tanta importância aos acontecimentos, porque tudo passa. Mais uma vez, essa afirmação volta a me trazer alívio.


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