O difícil retorno à academia
por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[14/03/2007]
Voltei à academia. Parei há uns três anos. Após ouvir insistentes pedidos para que desistisse da musculação (que era o que eu fazia) e fosse para a yoga, pilates e outras coisas mais leves, eu, que sou do contra, retornei aos aparelhos. Não tenho paciência para as posições intermináveis da Yoga. A cabeça começa a pensar em milhões de coisas e ou eu me distraio e esqueço do que estava fazendo, ou fico com vontade incontrolável de sair correndo. E detesto aulas coletivas. Fiz umas duas de ginástica localizada, para nunca mais. Fico prestando atenção nos outros, em detalhes inúteis e, quando vejo, o movimento já mudou. Step, então, desisti completamente. Primeiro porque atividades aeróbicas me odeiam, depois porque sou totalmente descoordenada, me enrolava toda e não conseguia acompanhar a turma. Na musculação, estou em paz. O instrutor passa os exercícios, te dá a sua ficha, com o nome dos aparelhos, as cargas e repetições e você fica na sua, tranquila, totalmente concentrada. Sério, eu me concentro na musculação, porque ela está sozinha comigo, quase como uma meditação. Eu descanso malhando. Peguei uma academia pequena, vou em um horário bem tranquilo, não encontro multidões e não vejo quem está por perto. De vez em quando observo, para ver como cada um reage. Engraçado é que a maioria dos homens nem nota as mulheres que estão ali, de barriga de fora e short curtíssimo, estão mais preocupados em levantar peso se admirando no espelho do que em qualquer outra coisa. Quer dizer, não todos. Os que não malham tão desesperadamente não têm essa fixação com o espelho, só os homens quadradinhos, aqueles baixinhos que têm tronco largo e pernas mais finas. Homens quadradinhos servem apenas como guindaste de anilhas. "Oi, pega quarenta e cinco quilos para mim e coloca aqui nesse aparelho?" Porque eu não vou estourar minha coluna só para provar que sou fortinha. Descobri hoje, ao término do segundo dia de academia, que passar aspirador de pó e subir um lance de escada com o carrinho de feira lotado de compras (meu edifício, como 90% dos prédios de Porto Alegre, tem três andares para não ter elevador) dá um baita condicionamento físico. O instrutor teve que aumentar a carga de quase tudo, porque estava tudo leve. E da aula de ontem, para a parte inferior do corpo, só o que me dói é a panturrilha. Quer dizer, deixe-me explicar, minhas panturrilhas estavam enferrujadas, elas se assustaram com o treino e estão tensas. Parece uma cãibra, e não consigo esticar a perna esquerda. Estou andando como o Corcunda de Notre Dame, e meu marido disse, morrendo de rir, que eu parecia um inseto. Mas não importa. Logo, logo, voltarei ao bom preparo físico e rirei por último. Não acredito que eu consiga um corpão daquelas gostosonas malhadas, porque meu biotipo não comporta tanta massa, ficaria esquisito. Eu sou magrelinha, sempre fui, só o que não quero é ser uma magrelinha flácida dentro em breve, afinal de contas, quando os trinta se aproximam, começamos a sentir o peso da idade sobre nossos ombros. O único jeito é transferí-lo para um aparelho de musculação e transformá-lo em massa magra. Eu os manterei informados, semanalmente, do meu progresso. ---- PS: Embora meu digníssimo e amado editor insista em dizer, na abertura desta coluna, eu não sou goiana, mas vim de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, pertinho, sim, de Goiás. E lá, apesar de quase ninguém acreditar, existem boas academias, com tudo o que um homem quadradinho possa desejar. No entanto, eu abandonei os aparelhos definitivamente no início de 2003, bem antes de pensar em morar em Porto Alegre. Logo, a culpa não foi da mudança, como eu costumava dizer. Uma das maiores compulsões do sedentário é a de arranjar desculpa para o fato de continuar sedentário. Na verdade, salvo raras exceções, continua-se sedentário pelo simples fato de não tentar deixar de ser.
Labels: Sala de Estar

<< Home