Wednesday, October 03, 2007

Hoje, na coluna Sala de Estar, da Revista Paradoxo:

Cliente satisfeito sempre volta

Renovando a fé na humanidade

por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[04/10/2007]

Na crônica anterior, falei da falta de respeito da lanchonete Rei do Mate, do Shopping Campo Grande, que vende suco Ades de caixinha batido com água, açúcar e gelo como "suco natural", cobrando por 200 ml o valor da caixa de um litro de Ades puro, no supermercado.Felizmente, pude comprovar que nem todos os comerciantes são adeptos dessa "esperteza" que lesa o consumidor em prol do lucro imediato. Ainda em Campo Grande, resolvi lanchar em um estabelecimento do qual tomei conhecimento pelo Orkut, o Café Lírio, que fica na rua Maracaju entre a 13 de maio e a 14 de junho. A lanchonete comercializa salgados, sanduíches e refeições sem nenhum tipo de carne, tudo é muito bem feito e extremamente gostoso.

Fui muito bem atendida pela dona, nascida em Taiwan, que fala um português pontuado por um forte sotaque oriental. Quando pedi um pedaço da linda torta de chocolate que estava quase no final, à mostra na vitrine, ela não quis me vender. Sugeriu um pedaço de pavê no lugar, pois, segundo ela, a torta tinha sido feita há dois dias e ela não vendia torta velha para cliente. Ao final do dia, uma de suas funcionárias levaria para casa. Não foi apenas essa vez, outras vezes já cheguei no final do dia e ela se recusou a vender produto que estivesse há mais de um dia exposto. Diz que não gosta de vender nada que não esteja fresquinho. Desacostumada a esse tipo de coisa, é claro que me espantei. Quantas vezes já cansei de comer doces obviamente velhos, e, quando reclamava, recebia como resposta um nariz torcido e um "não, isso foi feito hoje"!

Resultado: dona Emy, do Café Lírio, ganhou uma cliente assídua. Único restaurante exclusivamente vegetariano de Campo Grande, ela tem freguesia cativa e crescente pela propaganda boca-a-boca de quem sai de lá impressionado com a qualidade dos lanches e com o preço justo que é cobrado. Boa comida, bom preço, bom atendimento. Renovei minha fé na humanidade. Algumas pessoas ainda possuem o respeito e a ética como valores de vida.

Se minha viagem a Campo Grande me colocou em contato com um lado tão feio da humanidade, exemplificado na atitude da proprietária do Rei do Mate do Shopping, também me mostrou um lado bonito, de respeito, honestidade e seriedade que há muito tempo eu não encontrava em um estabelecimento comercial. Estamos tão pouco acostumados com gentileza e honestidade que diante de uma demonstração desse tipo, ficamos até sem palavras. Estranho, é exatamente esse tipo de comportamento que, em um mundo ideal, deveria ser o normal. E o desonesto, mesquinho, maldoso e desrespeitoso deveria ser repudiado, mas é visto como natural. Nos espantamos em saber que o lixeiro que encontrou uma carteira recheada de dinheiro a devolveu, muitos chegam a julgá-lo burro por ter sido honesto, sem lembrar do “detalhe”: o dinheiro não era dele. Apropriar-se do que não é seu é errado, ainda que não haja ninguém para fiscalizar. Honestidade virou sinônimo de burrice e a falsa esperteza, que aparentemente traz lucro imediato, mas que a longo prazo não traz nada de bom, é louvada pela massa, de forma cada vez menos sutil.

Por que é tão fácil elastizar a moral e a ética dessa forma? Por que é tão difícil aceitar uma aparente perda? Dia desses comi uma torta velha em um outro estabelecimento do Shopping, cujo nome eu realmente não guardei. Estava obviamente velha, com aquele gosto de geladeira das comidas velhas guardadas destampadas. Primeira garfada e devolvi a coisa, sou cliente chata mesmo. Trocaram a torta, com cara feia. A outra torta não estava muito boa, mas também não estava tão nojenta quanto a outra. Comi, eu estava mais tolerante naquele dia. Comi, mas nunca mais volto lá para comer um pedaço de torta. Perderam uma possível cliente, perderam outros possíveis clientes a quem eu certamente recomendaria o lugar, pois eu sou um outdoor ambulante dos lugares e produtos de que gosto.

Dona Emy não me vendeu a torta. Não comi torta no Café Lírio aquele dia, mas sua atitude valeu tanto para mim que voltei nos dias seguintes, levei minha mãe e ainda fiz propaganda para todo mundo que encontrei desde então. Por isso a "esperteza" de quem não respeita o consumidor vem entre aspas. Na verdade, esse tipo de falsa esperteza, em qualquer outra situação, também vem entre aspas. Enganar para conseguir o que não é seu, também é uma "esperteza" que não trará nada de bom no futuro. Tentar prejudicar os outros em benefício próprio é uma semente perigosa de se plantar. Se as pessoas aprendessem isso, se entendessem o valor da ética, de se fazer o que é certo, de não prejudicar ninguém e tantas outras coisas ultrapassadas, teriam outra qualidade de vida e muito menos do que reclamar. "Porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará" [Gálatas 6:7], isso é uma alegria para alguns, mas em outros, deveria dar calafrios. Porém, sempre é tempo de mudar a semente. Não há dinheiro que compre a paz de espírito que tem quem não dá motivos para que se coloquem aspas em suas qualidades.

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