O maior acidente da aviação brasileira não chegou sem aviso
por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[26/07/2007]
A notícia do acidente com o airbus da TAM só foi assimilada depois que tivemos a confirmação de que meu irmão, que é piloto, não estava na aeronave. Era aniversário da minha mãe e ela passou a noite apreensiva, até conseguir falar com ele. Respiramos semi-aliviados. Porto Alegre está em choque. Muita gente conhecida estava no vôo, não se fala em outra coisa. Foi uma tragédia de proporções assustadoras, da qual fiquei sabendo às dez e quinze da noite, saindo da aula. Depois que consegui falar com meu irmão é que tive idéia do tamanho do desastre, ele me disse várias vezes que foi uma tragédia, que havia morrido muita gente no avião e em terra, mas só quando cheguei em casa e pude ver as notícias percebi que havia sido pior do que eu poderia imaginar. É óbvio que fiquei aliviada por não ter ninguém da minha família ali, mas foi inevitável sentir a dor daquelas famílias que perderam seus entes queridos de forma tão brusca. Depois do choque, a população aguarda uma resposta sobre os motivos do acidente.
Que me desculpem aqueles que estão ávidos por jogar a responsabilidade sobre a TAM, sobre o piloto, sobre a aeronave, sobre o diabo (ele, talvez, tenha tido sua parcela de culpa): essa era uma tragédia anunciada. Quem já pousou em congonhas (e eu já o fiz inúmeras vezes nas conexões de vôos para Porto Alegre, Campo Grande e Rio de Janeiro e também quando fui a São Paulo) sabe que dá a nítida impressão de que o avião vai cair em cima dos prédios. Quem já esteve nos arredores de Congonhas, em terra, também sabe que parece que os aviões vão cair em cima de nossas cabeças. A primeira vez em que vi um avião voar tão baixo por ali, juro que me apavorei, sendo tranqüilizada por meu irmão, que me assegurou que ele não cairia.
Um aeroporto daqueles não tem como não ser perigoso, ainda mais sendo um aeroporto internacional, local de escalas e conexões de vôos interestaduais; Congonhas não tem condições de suportar todo esse fluxo de aeronaves grandes. Com a pista molhada, então, liberar pousos e decolagens em um aeroporto sem área de escape, é uma temeridade. É claro que não houve apenas um fator responsável pelo acidente, ou então todos os aviões que pousaram em Congonhas naquele dia teriam se acidentado; mas a pista molhada não pode nem ser desconsiderada como fator, nem relegada a segundo plano, como insiste em fazer o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira.
O Ministério Público, em Janeiro deste ano, havia pedido a interdição da pista principal de Congonhas e a proibição do uso da pista secundária depois das 23h. A decisão do MP foi tomada após a derrapagem de um Boeing da Varig. A Anac culpou a aeronave, o juiz Antônio Cedenho autorizou a liberação de Congonhas, mas determinou que a pista principal fosse fechada em períodos de chuva forte ou moderada, para evitar aquaplanagem. A Anac interpôs um agravo de instrumento contra essa restrição e a desembargadora Cecília Marcondes aceitou um relatório que estabelecia o peso máximo da aeronave para pousos em Congonhas, liberando o uso das duas pistas (em qualquer situação), ao contrário do que pedia o Ministério Público.
O MP entrou com a ação no dia 24 de janeiro e essa decisão foi tomada no final de fevereiro, cinco meses antes da tragédia com o avião da TAM. Em 22 de março de 2006, um avião da BRA (com 115 passageiros a bordo) derrapou em Congonhas, quase saindo da pista. O susto de imaginar que a aeronave poderia ter despencado na avenida nos fez pensar que providências seriam tomadas para evitar um desastre. Em 6 de outubro de 2006, um Boeing da Gol derrapou na pista por causa da chuva. Na época, com testemunhas vivas, o brigadeiro José Carlos Pereira foi obrigado a assumir que o acidente foi causado pela aquaplanagem e reconheceu que o pavimento precisava ser melhorado. Depois disso ocorreu a derrapagem do Boeing da Varig, no dia 17 de janeiro deste ano, e também foi noticiado que um avião da Pantanal derrapara no dia 16 de julho, um dia antes do acidente com o vôo 3054 da TAM.
A reforma foi feita, a pista foi entregue sem estar pronta, mas reforma alguma resolverá o problema crucial de Congonhas, sintetizado pelo engenheiro de terminais aéreos e ex-piloto militar, Joseph Fox, ao jornal O Estado de São Paulo: "A pista do aeroporto de Congonhas é o deque de vôo de um porta-aviões no meio de um oceano de casas, que não permite erros, transformando falhas pequenas em grandes tragédias". Fox, que viaja sempre para o Brasil, ainda confidenciou ao jornal: " Sempre que tenho de ir a Congonhas tenho a sensação de estar conduzindo meu jato A-5 Vigilante de volta de uma missão no Vietnã - pousar aquele monstro de 21 toneladas e 23 metros em menos de 300 metros sobre o mar, era tão assustador como a aterrissagem em São Paulo."
Depois o brigadeiro José Carlos Pereira não sabe a razão de a Ifacta sugerir uma intervenção internacional. Se o Brasil tem condições de resolver esses problemas sozinho, sem colocar em risco nenhum brasileiro ou estrangeiro, então que resolva logo, sem politicagem, sem tentar varrer qualquer coisa para baixo do tapete, sem ceder a pressões para manter Congonhas operando da mesma forma depois desse desastre. Que fique claro: sem usar Congonhas como joguete político nem de um lado, nem de outro. Nem para salvar a pele do governo federal, nem para crucificá-lo.
É óbvio que querem colocar a culpa na aeronave, querem colocar a culpa no piloto, no co-piloto, no controlador de vôo, em qualquer coisa que não seja o óbvio, mas o Ministério Público Federal é brasileiro, não desiste nunca e entrou, no dia seguinte ao acidente, com outra Ação Civil Pública (através dos procuradores Fernanda Teixeira Souza Domingos Taubemblatt, Márcio Schusterschitz da Silva Araújo e Suzana Fairbanks Lima de Oliveira), desta vez pedindo o fechamento do aeroporto de Congonhas, por segurança, pelo menos até que sejam concluídas as investigações. Na inicial da ação anterior, de janeiro, os procuradores questionavam: "Quantas vidas mais serão colocadas em risco para que medidas efetivas e satisfatórias sejam tomadas? Quantos incidentes ainda terão que ocorrer para que as autoridades se conscientizem dos valores constitucionais máximos, dentre eles o direito à vida e à integridade física?" Após a tragédia anunciada, espero que não tenhamos de somar mais nenhuma vida perdida, nenhum novo incidente aos números que já temos para dar esta resposta.
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