Friday, January 23, 2009

29 anos



Aos 29 anos, minha mãe esperava o terceiro filho. Já meu pai, aos 29 anos, se preparava para o nascimento do quarto filho. Com 29 anos, o Davison me conheceu e começamos a namorar. Aos 29 anos, minha avó acabara de ter a quinta criança. Aos 29 anos, Sylvia Plath tentou o suicídio pela segunda vez. Augusto dos Anjos morreu aos 29 anos, assim como a cantora Dolores Duran.

O Arco do Triunfo demorou pouco mais de 29 anos para ser construído. John Nash teve sua esquizofrenia diagnosticada aos 29 anos. O casamento de Bach durou 29 anos. O reinado de Ezequias em Judá durou 29 anos. Também aos 29 anos Sidarta largou sua vida de príncipe para virar Buda e se transformar na estatueta gorducha e careca, a passar a eternidade em posição de lótus. A Guerra dos Trinta Anos, quem diria, durou apenas vinte e nove.

Um pouco menos importante (apenas um pouco) do que A Guerra dos Trinta anos, John Nash, Bach e o Arco do Triunfo, eu completo hoje, dia 23 de janeiro, 29 anos de idade. Bem acompanhada, já que, além de mim e do meu pai, também nasceram no dia 23 de janeiro o cineasta Eisenstein, a princesa Caroline de Mônaco e o pintor Manet, isso sem contar as milhares de outras pessoas que também devem compartilhar essa data conosco.

Algumas coisas, no entanto, se explicam...em 23 de janeiro de 1875 morreu o Marquês de Sapucaí...pois é, eu nasci comemorando a morte do sambódromo :-) deve ser por isso que detesto carnaval. Também não gosto do surrealismo, e Salvador Dali escolheu o dia do meu aniversário de nove anos para se despedir deste mundo. Espero que tenha ido em paz.

No dia 23 de janeiro aconteceram algumas coisas importantes, embora não tão importantes quanto o meu nascimento. Entre essas coisas, gostaria de destacar o desembarque da família real portuguesa na Bahia em 1808, fugindo de Napoleão, fato esse que obrigou a colônia a se transformar em algo mais civilizado, permitindo, inclusive, as primeiras impressões de livros -ou coisa que o valha, já prevendo que 192 anos depois, nasceria uma leitora voraz, que não conseguiria sobreviver sem um mercado editorial nacional decente. No dia 23 de janeiro de 1896, Wilhem Röntgen descobriu o raio X, para que, 98 anos depois, eu pudesse fazer a documentação ortodôntica necessária para colocar o aparelho fixo e, finalmente, consertar meus dentes.

No dia 23 de janeiro de 2009 senti como se fizesse aniversário pela primeira vez. Foram tantas mudanças no ano que se passou que tive vontade de comemorar, com bastante entusiasmo, esta data querida. O Davison levou isso tão a sério que arrumou uns balõezinhos coloridos, para enfeitar nossa sala...risos...teve bolo, vela, parabéns, pizza, pãezinhos com patê de ricota com tomates secos e suco natural de frutas vermelhas :-) Ele fez tudo (exceto o bolo e as velas, que vieram prontos), preparou a festa inteira para mim, me dando o maior presente do dia (depois eu lavei a louça...risos...pelo menos isso, né?).

Ganhei um livro, um ventilador, vários tubos de tinta, lâminas para o meu estilete, alfinetes e um cortador de pizza (sim, meus presentes são esquisitos, mas há uma explicação lógica, racional e fora do senso comum para cada um deles, acredite). Fiquei felicíssima, pois era tudo o que eu queria (sério, ver conteúdo dos parênteses anteriores), e mais feliz ainda por ter comemorado de verdade meu primeiro aniversário. Mais tarde meu irmão telefonou e conversamos bastante, terminando meu dia da melhor maneira possível.

Ter 29 anos é esquisito, pois você se sente adulta demais para estar na casa dos vinte, mas ainda precisa aguardar um ano inteiro para chegar aos trinta. É como estar em uma sala de espera. Meu irmão, no alto de seus quarenta anos, me disse para aproveitar, pois ainda estou na casa dos vinte. Porém, não posso me utilizar disso, pois o segundo dígito já denuncia que os vinte não me pertencem mais, como se eu quisesse me aproveitar de uma maquiagem com o prazo de validade vencido. No entanto, sou ainda "muito nova" para todos aqueles que já passaram dos trinta, que me consideram ainda nos vinte, até pela minha aparência.

No final das contas, chego à conclusão de que não devo prestar a menor atenção a esses dois números. Eles só dizem há quanto tempo estou neste mundo, mas não definem absolutamente nada a meu respeito. Às vezes sou jovem demais, às vezes sou mais adulta do que imaginava, transitando, como tantas pessoas, entre várias faixas etárias, em diversas situações. Temos a idade que nossa mente se propõe a ter, uma idade que não é medida em números, mas em entusiasmo, energia, alegria e paz de espírito. Uma idade que é medida em sonhos, em confiança, em esperança, em certeza, em flexibilidade, em vontade de crescer, de mudar, de melhorar, de ajudar a quem precisa.

Eu não levo mais os dramas a sério, e a vida tem sido muito mais leve, mais clara, mais fresca, como se alguém tivesse ligado o ar condicionado. Deus leva meu fardo, e o dissolve dia após dia. Cada manhã tem se aberto para mim como um mar de possibilidades, e cada novo dia é um presente. Fiz uma escolha consciente, de não me intoxicar mais com o que me fazia mal, e foi como se eu pendurasse aqueles balõezinhos coloridos dentro da minha cabeça. Sim, é estranho imaginar isso, mas foi a melhor analogia que pude fazer assim, subitamente, por mais esdúxula que pareça.

Já disse Fernando Pessoa que todas as cartas de amor são ridículas. Na verdade, a felicidade é ridícula para o mundo de hoje, que cultua o sofrimento, a tristeza, as desgraças e a desesperança, como se alimentar sentimentos negativos e uma visão negativa da vida fosse prova de inteligência, de raciocínio, de pensamento crítico e profundo. Não tenho medo algum de estender a bandeira da felicidade, por mais ridícula e que ela pareça a quem está preso ao modo acinzentado que impera em nosso mundo.

Minha felicidade é racional, serena, bem humorada, é a felicidade de alguém que já estava de saco cheio da ladainha deprimente e superficial do culto à dificuldade, à tristeza, ao carregar de pesos sobre as costas. Minha felicidade é ter, neste vinte e três de janeiro, a certeza de que, não importa quantas velas estejam sobre o bolo, a vida está apenas começando.



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Wednesday, July 16, 2008

Parabéns, mamãe!!!



Minha mãe completa neste dia 17 de julho seus 68 anos. Sua mente jovem acompanha o corpo super conservado em uma constante e irrefutável prova de que idade é apenas número, o que importa é a cabeça. O número que acompanha sua certidão de nascimento não define quem você é, muito menos deve arbitrar como você deve se parecer, o que deve fazer e em que precisa acreditar. Com minha mãe eu aprendo a cada dia e todos os dias ela cresce diante de mim como pessoa, me ensina a olhar para a frente, a dar a volta por cima, a ter coragem.

Aprendo com sua força, com seu caráter, com seu senso de humor, sua leveza, com sua capacidade de perdoar, de aprender, de crescer, de brincar e de falar sério, rápida e direta, sem toda essa prolixidade que me é peculiar. Minha mãe tem uma energia que poucas pessoas conseguem acompanhar (aí eu me incluo), e é, ao mesmo tempo, agitada e serena, frágil e forte (ok, eu sei o quanto isso é lugar-comum, mas grande coisa, o mundo é um imenso e redondo lugar-comum e todas as cartas de amor são ridículas, já dizia um certo Pessoa), com uma capacidade extraordinária de agrupar pessoas ao seu redor e de ser especial em cada uma dessas vidas.

Temos algumas coisas em comum, é claro, mas até mesmo nessas coisas eu tenho muito a aprender com ela. Assim como acontece comigo, ninguém que conheça minha mãe consegue ser indiferente a ela. Ou ama, quando a conhece de verdade, ou a detesta, por ver nela algo que gostaria de ter consigo, ou por burrice mesmo, por nem se interessar em conhecer a dona daquela postura impecável. O mais engraçado é quando tentam adivinhar como ela é baseando-se apenas na aparência: enganam-se feio. Mamãe é simples, divertida, inteligente, culta, sem preconceitos, sincera, direta e com um coração maravilhoso, foi capaz de criar seus cinco filhos sozinha de uma maneira tão extraordinária a ponto de meu pai, depois de todos nós já crescidos, tê-la elogiado e agradecido pela forma como ela nos criou. Ele recebia elogios pelos filhos e sabia que se não fosse ela, não seríamos assim.

É claro que depois de adultos, cada um faz suas próprias escolhas. Nem sempre os pais têm controle ou responsabilidade sobre o que os filhos se tornam. Minha mãe nos deu o seu melhor, e eu hoje dou o meu melhor para ela, sabendo que nada do que um filho possa fazer retribui o amor e esforço de uma boa mãe. Mesmo sem ser mãe eu sei disso.

Não sei quanto tempo temos neste mundo, ninguém sabe, na verdade. Hoje você está aqui, amanhã pode não estar mais, você pode morrer esta noite. O que realmente vale a pena? O que levamos desta terra? O que realmente faz diferença? A única coisa deste mundo que realmente pode ser considerada válida é o amor, o relacionamento que temos com aqueles que amamos, o que dizemos e, sobretudo, o que fazemos para e por aqueles que dizemos amar. O que fazemos com o tempo que Deus nos permitiu viver ao lado dessas pessoas é o que conta, no final.

Me esforço para que minha mãe sinta meu amor através das minhas atitudes, para que ela tenha certeza de que pode contar comigo em todos os momentos e para que Deus saiba que eu valorizo, honro e cuido da mãe que Ele me deu. O que eu não tive maturidade e condições para fazer por meu pai enquanto ele estava comigo, faço por minha mãe, até porque tenho certeza de que ele jamais concordaria com o contrário. Agradeço a Deus todos os dias por ter a oportunidade de fazer minha mãe ter momentos agradáveis ao meu lado e, quando estamos longe, através dos telefonemas freqüentes.

Gostaria que todos os filhos pensassem e agissem assim com seus pais (os dois, ou o que lhes sobrou), sem perder tempo. Só Deus é perfeito, seu pai pode não ser perfeito, sua mãe também não, mas eu te garanto que você também não é. E na maioria das vezes, na balança, ao final, nossos erros pesam muito mais do que os deles, não é à toa que um dos dez mandamentos é "Honra a teu pai e a tua mãe, para que te prolonguem seus dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá".

Minha mãe, como filha, tem sido um grande exemplo para mim. O cuidado que ela tem com a minha avó, a preocupação, o amor, a entrega, só me fazem admirá-la ainda mais e também me incentivam a ter com ela o mesmo cuidado, o mesmo amor, pois certamente, se eu fosse mãe, gostaria de receber isso de meus filhos.

Mas minha mãe não é apenas mãe, ela é uma mulher, uma pessoa com vida própria, com amigos, com trabalho, com seus hobbies, a pessoa que ela redescobriu ser após os filhos saírem de casa, e que eu espero que seja a cada dia mais feliz e realizada. Porque merece e porque tem se esforçado para isso. Admiro sua força, sua beleza, sua alegria, sua inteligência, sua sabedoria, sua jovialidade, sua tranqüilidade e sua paz, que só Deus dá. E Ele tem se mostrado cada vez mais presente e atuante em nossa vida, à medida em que minha mãe entrega tudo em Suas mãos, Ele a fortalece, dá direção aos seus caminhos e dirige seus passos para a vitória.

É a essa estrela iluminada e vitoriosa que eu parabenizo por mais um ano de vida. Tenho certeza de que será uma vida muito longa e feliz, teremos ainda dezenas de aniversários a comemorar pela frente, e que a cada um deles tenhamos mais motivos para celebrar.

Te amo, mãe!


PS: A foto que abre este post é de antes de eu sequer pensar em nascer, antes mesmo de ela se casar com meu pai. Data do início da década de 60, a Dona Estela era simplesmente a Telita...que, aliás, ela não deixou de ser. O gurizinho ao seu lado é o Ben-Hur, seu irmão e seu grande amigo, que faleceu em 1984.

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Mais algumas:


Para quem não me reconheceu, eu sou esta barriga redonda, escondida sob o vestido. O menino na foto é um de meus irmãos, Vladmir (que hoje ganha para abrir a cabeça dos outros com um objeto cortante...risos...ele é neurocirurgião e estou certa de que já ouviu piadinhas bem melhores a respeito). Em 1979.


Nesta foto, mamãe e eu, há vinte e quatro curtos anos, praticamente ontem. Eu era pequenininha, do tamanho de um botão. :-)



Aqui, em 2005, uma de minhas fotos preferidas, de quanto eu ainda conseguia me manter na faixa dos 58 Kg (não, eu não vou reclamar...hahahaha...)



Mamãe e vovó, este ano.



Para encerrar o post-homenagem, mamãe no lançamento do livro "Meu filho, minha filha", do meu querido Fabrício Carpinejar, que é a figura a quem ela abraça.

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Saturday, June 28, 2008

Meu cérebro não está mais explodindo, e isso é bom :-) No entanto, ainda estou semi-surda do ouvido direito, e isso não é bom. Mas estou medicada, bem tratada e me alimentando bem. Acredito que é o suficiente. O frio tem sido mais ameno e meu secador entrou em greve, o que significa que não posso lavar o cabelo enquanto o novo não chegar (lavei ontem, o que me dá alguma vantagem). Descobri que o secadorzinho de viagem não sobrevive se uma maluca resolve acoplar um difusor para não perder seus amados cachinhos durante a secagem. Frescura.

De resto, não tenho feito nada, concentro-me em minha recuperação porque cansei de ficar doente, credo! Isso é soma de frio com imunidade baixa por stress. Tenho de aprender a parar um pouco, oh, céus! Tenho, mas não quero :-) esse é o problema.

Dia 21 de Junho comemoramos quatro anos de casados. QUATRO anos de casamento!!! Êêêê!!! Devo lembrá-los de que, no início, quase ninguém acreditava que esse relacionamento daria certo, porque foi tudo rápido, porque nos conhecemos pela internet e porque o pessoal achava que nós não batíamos bem :-) Acho que só eu, o Davison e a minha mãe sabíamos que era para sempre (pena que não tem coraçãozinho no teclado. Ou graças a Deus não tem...hahaha...eu encheria esse post de coraçõezinhos, que horror!).

Cá estamos nós, no mesmo grude de sempre, provando que o importante não é seguir os padrões, mas se comprometer em desenvolver e solidificar o relacionamento. Como eu sempre digo, isso é um trabalho constante, do dia-a-dia.

Bem, obviamente eu não consegui comemorar nada...risos... passei a noite fazendo inalação. :-D Planejei fazer um bolo, mas mal consegui levantar da cama, com as vias aéreas superiores congestionadas e uma dor de ouvido assassina. O Davison comprou uma torta, mas eu não consegui sentir o gosto. Felizmente ele sempre compra a mesma torta, então eu já sei o gosto que ela tem :-) Tudo bem, ele já me convidou para uma sessão de cinema comemorativa quando eu melhorar , todos os dias são especiais.

Mas vou confessar uma coisa: apesar de eu de-tes-tar ficar parada (os dias em que fiquei literalmente de cama foram a pior tortura da minha vida), eu simplesmente AMO me esconder em nossa caverna particular, guardada do resto do mundo, vivendo nossa vidinha, conversando com ele o tempo inteiro (e como fala essa criatura! Depois eu é que sou tagarela), rindo das gracinhas dele (e ele sabe fazer rir. Quem conhece o Diário de um Lunático sabe do que estou falando), rindo das gracinhas dos gatinhos, dizendo "não" para o Tiggy (fazemos isso o dia inteiro, mas não adianta nada. Ele responde com um "grrrum?" e continua a bagunça), vendo o Gatão fazer strike nos móveis (ele gosta de brincar de gatinho-bolinha de boliche), secando a cabeça da Ricota (ela insiste em tomar água da pia, e não sei como consegue abrir um pouco e molhar a cabeça), comendo sopinha de brócolis, tomando chá de poejo, brigando com o biscuit, lixando isopor e entortando arame. Nossa vida é bastante incomum, mas criei um universo particular aqui e tem sido bom me esconder um pouco do frio.

Ah, e estou comendo Macron compulsivamente. Alguém sabe o que é isso? O Davison comprou no supermercado para mim, eu nunca tinha ouvido falar, mas não sei como vivi minha vida toda sem o Macron!!! Ingredientes no rótulo: claras, coco ralado e açúcar. Acho que batem as claras em neve, misturam o coco e levam ao forno. É praticamente um bolinho por fora e cocada úmida por dentro. Eu, que sou enlouquecida por doce de coco, ando viciada no tal do Macron. Só não entendi até agora por que raios nomearam o tal doce com esse nome sinistro. Mistérios gaúchos.

Assim que eu estiver melhor, volto para escrever um pouco mais nas paredes da caverna, que sinto falta.

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Thursday, May 17, 2007