Modelando

Não me reconheço mais. Uma das coisas mais legais em se estar vivo é justamente a possibilidade de se reinventar diversas vezes, como massinha de modelar.
Sou massinha de modelar. Assim, como aquelas que gosto de transformar em frutas, animais, rostos. Misturo cores, fico horas pensando em um novo formato, arrisco daqui e dali e sei que nunca vai secar. Pode até derreter um pouco, mas secar, jamais.
Essa é a desvantagem da massinha, na opinião de algumas pessoas, ela não se eterniza, nenhum arqueólogo do futuro vai encontrar esculturas em massinha de modelar no meio dos escombros de uma antiga civilização do século XX. Mas para mim é aí que reside a maior beleza de se trabalhar com massinha: ela é maleável, permite alterações e um dia simplesmente desaparece.
Uma vez resolvi fazer uma mulher inteira, comprei 500g de massinha branca e modelei separadamente cabeça, tronco, membros, pescoço e cabelos. Modelei também uma poltrona, sobre a qual ela sentava, sensual, nua, com as pernas ligeiramente inclinadas para a esquerda, olhando para o nada. Depois uni as peças, aproveitando o esqueleto de palitos de fósforos.
E lá ela ficou, na estante, por longos anos. Um dia, talvez pelas sucessivas alterações climáticas, talvez porque tivesse chegado a hora, talvez pela fragilidade de seu esqueleto, ela começou a desmontar. Primeiro foi o braço. Consegui consertar. Depois o outro braço. Depois a perna abaixo do joelho caiu, a outra perna, um talho na barriga e, por fim, desabou-lhe a cabeça. Decidi que era melhor não tentar mais consertar, a morte havia chegado para aquela estátua de massinha.
Porque a beleza da massinha está em ser simples. Complicar demais abrevia a vida.
PS: A lua de massinha que ilustra o post não foi feita por mim, mas pelo Davison, há quase dois anos. Ela continua viva, firme e forte, mesmo depois de viajar do Rio de Janeiro a Porto Alegre.

Não me reconheço mais. Uma das coisas mais legais em se estar vivo é justamente a possibilidade de se reinventar diversas vezes, como massinha de modelar.
Sou massinha de modelar. Assim, como aquelas que gosto de transformar em frutas, animais, rostos. Misturo cores, fico horas pensando em um novo formato, arrisco daqui e dali e sei que nunca vai secar. Pode até derreter um pouco, mas secar, jamais.
Essa é a desvantagem da massinha, na opinião de algumas pessoas, ela não se eterniza, nenhum arqueólogo do futuro vai encontrar esculturas em massinha de modelar no meio dos escombros de uma antiga civilização do século XX. Mas para mim é aí que reside a maior beleza de se trabalhar com massinha: ela é maleável, permite alterações e um dia simplesmente desaparece.
Uma vez resolvi fazer uma mulher inteira, comprei 500g de massinha branca e modelei separadamente cabeça, tronco, membros, pescoço e cabelos. Modelei também uma poltrona, sobre a qual ela sentava, sensual, nua, com as pernas ligeiramente inclinadas para a esquerda, olhando para o nada. Depois uni as peças, aproveitando o esqueleto de palitos de fósforos.
E lá ela ficou, na estante, por longos anos. Um dia, talvez pelas sucessivas alterações climáticas, talvez porque tivesse chegado a hora, talvez pela fragilidade de seu esqueleto, ela começou a desmontar. Primeiro foi o braço. Consegui consertar. Depois o outro braço. Depois a perna abaixo do joelho caiu, a outra perna, um talho na barriga e, por fim, desabou-lhe a cabeça. Decidi que era melhor não tentar mais consertar, a morte havia chegado para aquela estátua de massinha.
Porque a beleza da massinha está em ser simples. Complicar demais abrevia a vida.
PS: A lua de massinha que ilustra o post não foi feita por mim, mas pelo Davison, há quase dois anos. Ela continua viva, firme e forte, mesmo depois de viajar do Rio de Janeiro a Porto Alegre.




