Porque a vida é um Kinder Ovo

Não quero falar sobre nada, na gaveta de coisas que esperam, alguém grita que estava programado para hoje e eu mais uma vez posterguei (posterguei, não pôster gay). Ando muito mais procrastinadora do que deveria ou gostaria e isso é um palavrão. Escrita, a palavra fica infinitamente mais feia do que quando é falada, começo a me preparar para usá-la como xingamento: -"Sua procrastinadora!" ou - "Seu filho de uma procrastinadora!" ou "Seu postergador" - dito com a devida cara de nojo. O ato de procrastinar, para mim, é em si uma grande ofensa, é como se nem mesmo eu desse importância à minha vida e às coisas que já havia programado.
Premeditei uma faxina, por exemplo, que acaba de ser postergada. Três textos imploram para ser escritos, a impressora chora porque precisava trabalhar (tento consolá-la dizendo que eu também preciso, mas não funciona), o scanner grita que se suicidará se aquelas fotos (AQUELAS, ainda) não se jogarem dentro dele. As roupas precisam ser lavadas, assim como a louça e o lixo não me deixa esquecer que amanhã é dia de o lixeiro passar para recolher o lixo orgânico nessa cidade civilizada.
No meio dessa gritaria e desse escarcéu, tento me lembrar de algo que era mais urgente do que isso tudo, mas não consigo. Minha mãe ficou de ligar, mas o telefone ainda não tocou. Também estou devendo algumas coisas para ela, um cd, um perfume, uma carta, um número de telefone. Para outras pessoas, devo a resposta de um email, devo um contato a outra, a resposta de um recado a outra, devo uma visita a alguém, uma explicação, quem sabe. Devo, não nego, saldarei quando puder, quando conseguir.
Por enquanto tudo o que tenho a dizer é que a vida é um Kinder Ovo: uma casca superficial, doce, mas que acaba rápido e dentro tem uma surpresa baratinha, nem sempre esperada ou agradável. Não sabemos o que encontraremos dentro de um Kinder Ovo, mas a verdade é que é sempre algo totalmente inútil e geralmente o potinho de plástico que guarda a surpresa é mais legal e útil do que ela própria. Os potinhos, que deveriam ser desprezados pelas crianças, segundo a lógica de quem inventou o Kinder Ovo, são o que há de mais interessante no conceito do doce (eu costumava usar para guardar moedas). Isso é, literalmente, filosofia barata.

PS: Ok, eu sei que não tem nada a ver a foto com o texto, mas uma vida sem fotos de gatinhos é uma vida triste, vazia e sem sentido. :-D
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