Sala de Estar
Comunicar não é fácil
por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[27/07/2006]
Porto Alegre cansou de ser hostil, agora me recebe com um belo sorriso nos lábios sempre que resolvo sair para dar uma volta. Os dias têm sido mais claros, ainda que estejamos em pleno inverno, as árvores não foram avisadas sobre o final do outono e há folhas douradas espalhadas pelo chão. A chuva fina não caiu hoje, mas eu fui atrás dela. Perseguidora de chuvas que sou, o máximo que consegui foi lavar o carro. O sapato voltou cheio de areia. Estou cansada.
Não leia a última frase como se ouvisse uma velhinha exausta da vida, largada em sua poltrona, inerte, julgando que a morte deveria estar à sua procura, porque ela mesma anda exaurida de esperar ou buscá-la. Leia como realmente é. Como se ouvisse uma menina de onze anos chegando de uma brincadeira na rua, jogando-se no sofá, esbaforida, cheia de vida, de alegria e de...cansaço!
Físico mesmo, é, físico. Não sou mais aquela menininha. Também não fiz o menor esforço para sentir esse cansaço, mas é aquela coisa brega de "minha alma correu o dia inteiro"...brega e de muito mal gosto, porque parece que morri. Não morri. Apenas resolvi dar uma volta dentro de mim hoje. Isso é meio esquizofrênico, eu sei. Mas é que eu realmente não conheço tantas palavras quanto gostaria, acho mesmo é que metade delas não foram inventadas.
Por isso de vez em quando eu falo um idioma inventado, que tem todas as palavras de que preciso. É claro, não conheço todas elas, mas penso em uma coisa e me surge uma palavra inventada, que se pareça com o que pensei. Não existe barreira, não existem ruídos, não existem vícios de linguagem. Todas as palavras que procuro, encontro em minha língua inventada. E posso ficar horas inventando histórias com milhares de palavras, sem repetir nenhuma, escrevendo contos intermináveis em minha cabeça e descortinando versos inexistentes.
A única parte ruim é que ninguém entende minha língua inventada. Como as palavras partem da minha cabeça, só a minha cabeça consegue decodificá-las. Não quero escrever um dicionário, dicionários aprisionam palavras. Não posso colocá-las em fila indiana e inventar regras gramaticais, porque elas se intimidariam e desistiriam de nascer.
Então fecho meu livro inventado, aquele que vive dentro da minha cabeça, guardo a caneta inventada, o gravador que dita palavras, que as mistura, modifica, inventa, renova. Guardo tudo naquela gaveta em que convivem alegremente as minhas coisas bagunçadas, dentro de minha inestimável caixa craniana. Procuro as palavras no idioma conhecido, esse, que uso para escrever este texto. Não as encontro. Procuro novamente. Trabalho ingrato.
Se quiser escrever para não ser lida, uso minhas palavras inventadas. Se houver quem me leia, tenho que me fazer entender, comunicar-me usando as palavras antigas, aquelas repetidas, que todo mundo entende. É quando guardo a liberdade em caixinhas e me esforço para fazê-la parecer que tem asas.

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