Feliz Aniversário

Há 66 anos nasceu a terceira criança na casa do Seu Vicente Sant'Anna, a segunda menina. Não existe um consenso quanto à data, costumava-se anotar o dia do nascimento dos bebês nas páginas em branco da Bíblia, entre o velho e o novo testamento, segundo as anotações, a menina nascera no dia 27. Ignorando o que diziam as páginas sagradas, Vicente registrou a menina como nascida no dia 17, e esta é a data oficial. No entanto, no decorrer dos anos ela sempre se lembrou de seus dois aniversários, e devo dizer que está bastante conservada para os seus 131 anos (132, daqui a dez dias).
Desnecessário dizer que não é fácil criar sozinha cinco crianças, e estou bem certa de que ela fez o melhor que podia, na época. Reconheço todo o esforço e devo admitir que eu não teria feito o mesmo, não acho que suportaria o peso de criar sozinha duas, quanto mais cinco. Criar uma criança em situações adversas já seria exaustivo demais. Mas - dizem - mãe tira forças de onde não tem para cuidar de seus filhos.
Eu vim sem aviso, vim na hora mais difícil, o casamento no fim, ela à beira dos quarenta, a penúltima coisa de que alguém precisava era mais uma criança. Ainda dei bastante trabalho, a última coisa de que precisavam era de uma criança doente, de uma cirurgia cardíaca aos 4 anos de idade. Mas quem pode saber qual é a hora certa? Infelizmente a vida não é um ensaio, não haverá possibilidade de refazer o que já foi feito, não existe borracha, não existe tecla "backspace", não existe Ctrl+z, não dá para sair sem salvar o jogo. Não sabemos se estamos no caminho certo, por mais que acreditemos estar, a vida não vem com manual de instruções, filhos menos ainda.
Mas se tem uma coisa que gostei dos meus primeiros anos, foi de ouvir todas aquelas histórias, mergulhar em seu passado e conhecer aquela menina que montava peças de teatro na rua e obrigava as crianças dos vizinhos, japonesinhos mais novos do que ela, a assistir. Que não comia direito, vivia anêmica, tomava suco de vinagre e esperava que o homem do picolé (não, eu não me recordo o nome) deixasse o carrinho guardado em sua casa, para que pudesse se fartar dos picolés sobrados do dia. Que fugia das surras da mãe subindo no corredor lateral da casa, um pé e uma mão na parede da casa, e o outro pé e a outra mão no muro. Se escondia na casa da avó e dela ouvia conselhos suaves. Eu sentia saudade da bisavó que não conheci, apenas ouvindo suas histórias.
Ouvia de longe o som do piano que sonhava em tocar, a incrível história do uniforme escolar com um cinto de couro, que ela usou para bater em uma coleguinha que lhe tirava sarro. A criança cujo irmão chamava de "capa de guarda-chuva" pelas pernas finas, tornou-se a mulher mais bonita da cidade (aqui eu assumo que minha opinião quanto a isso é bem suspeita, mas acreditem em mim).
Nunca entendi direito onde ia parar a criança quando a idade adulta chegava. Será que as pessoas viviam anos e anos sendo aquelas criancinhas e de repente viravam outra criatura completamente diferente? Minha teoria era simples: a criança continuava lá, mas a vida social nos obrigava a vestir uma capa e escondê-la. Os anos me mostraram que minha teoria estava certa e que a melhor coisa que eu fiz foi enxergar minha mãe como uma versão disfarçada daquela criança que ela fora um dia. E prestar atenção em cada uma de suas histórias, ouvir suas opiniões e instigá-la a me mostrar algo mais do que as respostas rápidas e superficiais que me dava quando o foco da conversa era ela.
Se tem uma coisa que vou levar para sempre, mãe, é a alegria de ter te conhecido. De ter me interessado em saber quem era aquela que cuidava tão bem de mim. De compreender os erros e os acertos, de admirar sua força, seu caráter e sua capacidade de se reerguer. As nossas conversas, tanta coisa que você me ensinou e que nem sabe.
E sei que não foi fácil, nada em sua vida foi fácil, nem mesmo se abrir para que construíssemos o relacionamento que temos hoje. Você não sabe o quanto torço, mãe, o quanto oro para que você tenha ainda muitos e muitos e muitos aniversários e que colha as alegrias que merece, que seja feliz com seu gaúcho (sim, porque você vai casar com um gaúcho...risos...), que tenha muita, mais muita saúde e muita, muita paz.
Saudade, mãe, porque a gente está longe. Mas feliz, porque a distância é meramente geográfica, você sabe que sempre que precisar de mim, estou aqui. Porque eu aprendi que a gente não leva nada dessa vida, que a vida, por mais longa que seja, é curta, passa rápido, e nada vale a pena. Só o que importa, só o que realmente importa é estar com quem a gente ama, com quem realmente gosta da gente. Conviver com você é um presente de Deus e eu não vou perder essa oportunidade por nada neste mundo.
Vê se te cuida bem porque você vai ter que viver - no mínimo - até os 130 anos (ou 260, se contarmos os dois aniversários), para quebrar o recorde mundial e entrar para o Guiness. :-)
PS: Foto- Mamãe em Tramandaí, em Fevereiro e a mão do Davison, que se achou descabelado demais para aparecer no blog :-D

Há 66 anos nasceu a terceira criança na casa do Seu Vicente Sant'Anna, a segunda menina. Não existe um consenso quanto à data, costumava-se anotar o dia do nascimento dos bebês nas páginas em branco da Bíblia, entre o velho e o novo testamento, segundo as anotações, a menina nascera no dia 27. Ignorando o que diziam as páginas sagradas, Vicente registrou a menina como nascida no dia 17, e esta é a data oficial. No entanto, no decorrer dos anos ela sempre se lembrou de seus dois aniversários, e devo dizer que está bastante conservada para os seus 131 anos (132, daqui a dez dias).
Desnecessário dizer que não é fácil criar sozinha cinco crianças, e estou bem certa de que ela fez o melhor que podia, na época. Reconheço todo o esforço e devo admitir que eu não teria feito o mesmo, não acho que suportaria o peso de criar sozinha duas, quanto mais cinco. Criar uma criança em situações adversas já seria exaustivo demais. Mas - dizem - mãe tira forças de onde não tem para cuidar de seus filhos.
Eu vim sem aviso, vim na hora mais difícil, o casamento no fim, ela à beira dos quarenta, a penúltima coisa de que alguém precisava era mais uma criança. Ainda dei bastante trabalho, a última coisa de que precisavam era de uma criança doente, de uma cirurgia cardíaca aos 4 anos de idade. Mas quem pode saber qual é a hora certa? Infelizmente a vida não é um ensaio, não haverá possibilidade de refazer o que já foi feito, não existe borracha, não existe tecla "backspace", não existe Ctrl+z, não dá para sair sem salvar o jogo. Não sabemos se estamos no caminho certo, por mais que acreditemos estar, a vida não vem com manual de instruções, filhos menos ainda.
Mas se tem uma coisa que gostei dos meus primeiros anos, foi de ouvir todas aquelas histórias, mergulhar em seu passado e conhecer aquela menina que montava peças de teatro na rua e obrigava as crianças dos vizinhos, japonesinhos mais novos do que ela, a assistir. Que não comia direito, vivia anêmica, tomava suco de vinagre e esperava que o homem do picolé (não, eu não me recordo o nome) deixasse o carrinho guardado em sua casa, para que pudesse se fartar dos picolés sobrados do dia. Que fugia das surras da mãe subindo no corredor lateral da casa, um pé e uma mão na parede da casa, e o outro pé e a outra mão no muro. Se escondia na casa da avó e dela ouvia conselhos suaves. Eu sentia saudade da bisavó que não conheci, apenas ouvindo suas histórias.
Ouvia de longe o som do piano que sonhava em tocar, a incrível história do uniforme escolar com um cinto de couro, que ela usou para bater em uma coleguinha que lhe tirava sarro. A criança cujo irmão chamava de "capa de guarda-chuva" pelas pernas finas, tornou-se a mulher mais bonita da cidade (aqui eu assumo que minha opinião quanto a isso é bem suspeita, mas acreditem em mim).
Nunca entendi direito onde ia parar a criança quando a idade adulta chegava. Será que as pessoas viviam anos e anos sendo aquelas criancinhas e de repente viravam outra criatura completamente diferente? Minha teoria era simples: a criança continuava lá, mas a vida social nos obrigava a vestir uma capa e escondê-la. Os anos me mostraram que minha teoria estava certa e que a melhor coisa que eu fiz foi enxergar minha mãe como uma versão disfarçada daquela criança que ela fora um dia. E prestar atenção em cada uma de suas histórias, ouvir suas opiniões e instigá-la a me mostrar algo mais do que as respostas rápidas e superficiais que me dava quando o foco da conversa era ela.
Se tem uma coisa que vou levar para sempre, mãe, é a alegria de ter te conhecido. De ter me interessado em saber quem era aquela que cuidava tão bem de mim. De compreender os erros e os acertos, de admirar sua força, seu caráter e sua capacidade de se reerguer. As nossas conversas, tanta coisa que você me ensinou e que nem sabe.
E sei que não foi fácil, nada em sua vida foi fácil, nem mesmo se abrir para que construíssemos o relacionamento que temos hoje. Você não sabe o quanto torço, mãe, o quanto oro para que você tenha ainda muitos e muitos e muitos aniversários e que colha as alegrias que merece, que seja feliz com seu gaúcho (sim, porque você vai casar com um gaúcho...risos...), que tenha muita, mais muita saúde e muita, muita paz.
Saudade, mãe, porque a gente está longe. Mas feliz, porque a distância é meramente geográfica, você sabe que sempre que precisar de mim, estou aqui. Porque eu aprendi que a gente não leva nada dessa vida, que a vida, por mais longa que seja, é curta, passa rápido, e nada vale a pena. Só o que importa, só o que realmente importa é estar com quem a gente ama, com quem realmente gosta da gente. Conviver com você é um presente de Deus e eu não vou perder essa oportunidade por nada neste mundo.
Vê se te cuida bem porque você vai ter que viver - no mínimo - até os 130 anos (ou 260, se contarmos os dois aniversários), para quebrar o recorde mundial e entrar para o Guiness. :-)
PS: Foto- Mamãe em Tramandaí, em Fevereiro e a mão do Davison, que se achou descabelado demais para aparecer no blog :-D

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