Sunday, August 06, 2006

Como se forma um escritor?

Saiu no segundo caderno da Zero Hora desta quarta-feira dia 2 de Agosto de 2006 uma matéria intitulada "Uma escola para autores", abordando a polêmica sobre o nome do Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos. Segundo o artigo, houve debates e discussões na imprensa e na internet sobre se é possível formar escritores na universidade. Cita a poetisa Ana Peluso, que questiona a "formação de escritores", sugere que ficaríamos trancafiados na faculdade (juro que chamo a polícia se isso acontecer: é sequestro!) e refere-se a autores de internet de forma jocosa, como se ela própria não fosse uma.

A discussão me parece um tanto quanto surreal, visto que esta não é uma iniciativa nova, países como Estados Unidos, Portugal e Inglaterra já têm em seus currículos universitários o curso de Escrita Criativa. "Formação de escritores e agentes literários", para quem leu a proposta do curso no site da universidade (e para mim só está habilitado a criticar quem pelo menos leu a proposta e procurou entendê-la), nada mais é do que um curso de escrita criativa, voltado também para o mercado editorial, buscando capacitar profissionais para atuar como agentes literários. Julgar um curso pelo nome é o mesmo que julgar um livro pela capa. A idéia de questionar a legitimidade de um curso por não gostar do seu nome soa tão absurda quanto escrever uma crítica líterária de um livro com 500 páginas sem ter lido nada além do título. É uma atitude superficial, imatura, precipitada e irresponsável.

Nem mesmo eu, aluna da primeira turma, me vejo em condições de julgar o curso recém-nascido, mas estamos na segunda semana de aula e até agora tenho gostado do que se apresenta e do que o curso promete. Não vamos aprender a escrever, isso todo mundo já sabe. E achei que fosse desnecessário explicar que o curso não vai dar receita de bolo para construção de uma narrativa, de um poema ou mesmo de um bolo. Pelo que entendi do conteúdo programático e pelo que tenho visto até o momento, neste curso vamos mais ler do que escrever, ele nos oferecerá uma boa base teórica, mas não apenas isso, a oportunidade de nos colocar em contato com a realidade editorial, com a produção de texto de outros autores, com as técnicas de escrita, para educar nosso talento e organizar nossas idéias.

Já fui criticada uma vez quando disse que ninguém se torna escritor; ou nasce escritor ou será, no máximo, impostor. Mantenho a afirmação. Acontece do indivíduo nascer escritor e só descobrir isso bem mais tarde, outros percebem mais cedo, alguns nascem quase prontos, outros precisam de muita lapidação. Ocorre que o aprimoramento, o estudo, o trabalho é absolutamente necessario a qualquer escritor para seu desenvolvimento, ignorar isso é uma enorme arrogância e demonstra pequenez de espírito.

Mas e se ninguém que não tenha nascido com talento para escrever e inclinação para literatura pode se tornar escritor, para que serve um curso de formação de escritores? Existe um abismo enorme entre formação e artificialização, a Unisinos é a primeira universidade brasileira a levar para dentro do campus o trabalho que qualquer escritor decente tem sozinho, perdido entre seus livros, cadernos e canetas. Não se está fazendo nada além de oferecer uma formação universitária focada em literatura e produção textual. Qualquer pessoa que escreva tem um interesse absurdo e inesgotável de aprender, observar e absorver. Me espanta que alguém que se diz escritor não tenha a menor curiosidade a respeito de um curso que englobe todas as suas áreas de interesse: escrita criativa, literatura, linguística, cinema, história...além de ter a oportunidade de ouvir escritores já consagrados explicando seu processo criativo, falando de suas experiências com a literatura e com o mercado editorial.

Apaguemos da mente a idéia de que escrever dá-se por iluminação divina, sinto muito, mas a Bíblia já foi escrita, Deus encerrou sua produção literária ali e desde então quem quiser escrever de verdade deve enfrentar o fato de que escrever é trabalho e dá trabalho, organizar a atividade literária dentro de um curso universitário é uma iniciativa louvável, uma necessidade ignorada pelo nosso país até o momento. Nunca tive e nunca terei espécie alguma de experiência mediúnica para compor um texto, ele é fruto do meu trabalho, do meu cérebro, da prática exaustiva da escrita, da minha experiência pessoal, do meu estudo e das minhas leituras. Não entendo qual é a razão da celeuma em torno da criação de um curso de formação para escritores, ainda que lidos apenas por suas gavetas, o que já foi meu caso e já foi o caso de todos os escritores conhecidos e desconhecidos, de todos os tempos. Ninguém nasce distribuindo textos, muito menos sendo lido.

Ainda que eu me apresente como escritora, jamais me fecharia na arrogância de achar que dispenso qualificação profissional quando ela me foi oferecida, tenho muito a aprender e sei que uma das melhores características da nossa civilização é justamente qualificar profissionais na Academia, dando a quem tiver acesso à ela a oportunidade de absorver um conhecimento específico, organizado. Conforme sugeriu Fabrício Carpinejar, questionar o curso de formação de escritores, é questionar um curso de artes plásticas, de teatro, de cinema, de música, de dança.

Acalmem-se, escritores assustados, nós já sabemos escrever, estamos na faculdade apenas para estudar.


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PS: Agradeço imensamente os comentários do post anterior. É ótimo compartilhar as conquistas com pessoas que são tão especiais para mim e que gostam de mim mesmo sabendo que eu sou uma pessoa horrível que não conta as coisas com antecedência...risos...