Sobre minha pele.
Uma discreta presença tátil. Poderia ser um fio de cabelo, o vento, ou uma sensação-fantasma, daquelas que aparecem quando nossos sentidos nos querem pregar peças. Nem sempre olho, e nunca tenho reflexos violentos, como o de bater a mão sobre a perna, para esmagar qualquer pequeno inseto. Me desfiz desse reflexo - se é que um dia o tive - pois na casa em que cresci era comum aparecer escorpião amarelo, e não seria uma boa idéia esbofeteá-lo, assim, sem motivo.
Se a sensação persiste por mais de dois segundos, eu olho, na vã tentativa de identificar a olho nu de que se trata. Uma discreta presença tátil, não posso classificar como cócegas. No fundo, eu sabia que tinha mais alguém comigo.
Sutil, leve, quase imperceptível, eu certamente notei mais sua existência do que exatamente seu corpo. Olhei. Sobre minha perna, perto do joelho esquerdo, um mosquito repousa, pensando se aquela seria ou não uma boa refeição. Mosquitos não costumam pensar muito quando resolvem apoiar suas patinhas no corpo humano. Aquele mosquito, porém, pensou. Pensou tanto que acabou sendo interrompido pelo meu reflexo óbvio: agitei a mão perto dele para afastá-lo. Voou para longe, chateado.
(eis que, enquanto escrevia esse texto, fui interrompida por mim mesma, e meu compulsivo e estranho hábito de divagar, mudar de assunto e perder o foco da conversa. O texto fica assim, estragadinho, porque esse é o blog da escrita na caverna. É minha caverna. Depois conserto, faço ficar bonitinho e publico. Aqui fica, sempre, o bruto. Ignore esse comentário, por favor, durante a leitura da íntegra. Mas fui obrigada a fazê-lo, para explicar a mudança brusca no texto, antes que alguém cogite a hipótese de me faltarem alguns parafusos)
Não, eu não mato mosquitos. Mato muito pouca coisa, na verdade. Só o absolutamente necessário (baratas que não fogem, escorpiões e aranhas assassinas), e mesmo assim, mato sofrendo. Voltando ao mosquito, não gosto desse nome. Acho depreciativo. É como se quiséssemos torná-lo ainda menor e mais estranho do que ele já é. Me soa como uma mistura de diminutivo pejorativo de mosca e o adjetivo "esquisito". Porém, como não sei exatamente com qual mosquito estou lidando, não posso chamá-lo pelo nome.
Sim, eu sei que é uma "mosquita", pois só as fêmeas picam, mas prefiro continuar a me referir ao mosquito na forma genérica e, portanto, masculina. Uma leve presença. Suave, discreta, sutil. Não era pequeno para um mosquito, mas qualquer mosquito é pequeno diante de um ser humano de 1,72m ( se você conhece um mosquito que não seja pequeno na frente de uma pessoa dessa altura, por favor, não me apresente). Não o vi mais.
Não gosto de ter parte do meu sangue sugado por um minúsculo inseto de nome potencialmente ofensivo (ao próprio), mas fiquei um pouco triste por ter atrapalhado um momento importante para aquele culicídeo (pensando bem, esse nome é pior do que "mosquito").
Sei, porém, que aqui em Campo Grande, com surtos de dengue e leishmaniose, os mosquitos passaram a ser vistos como grandes (ou pequenos, dependendo do ponto de vista) terroristas biológicos. Não o são por escolha, eu sei, mas como não carregam plaquinha de "sou um mosquito contaminado", desconfiamos de todos eles, por questão de sobrevivência. Mas não consigo ver um indivíduo de outra espécie como ameaça voluntária, por mais que me esforce. Se eles nos fazem mal, é sempre por razões alheias à sua vontade.
Insetos transmissores de doenças estão infectados pelos reais vilões, e animais maiores, que atacam humanos, só o fazem em situação de ameaça, stress ou fome. O ser humano é o único capaz de agir como ameaça voluntária a sua própria espécie, sem razão aparente ou sem justificativa plausível, às vezes por motivos fúteis.
Admiro cada vez as outras espécies que habitam nosso planeta. Por mais cruel que seja o mundo em que elas vivem, existe ordem, existe ética, existe senso de sobrevivência coletiva. Não que elas sejam melhores do que nós, são diferentes, mas essa diferença, ao contrário do que imaginamos, não as inferioriza, nem as desqualifica.
Sei que pode não pegar bem assumir, assim, publicamente, meu respeito aos mosquitos, e minha admiração pelas outras espécies que dividem conosco o planeta, mas não pude evitar. Eu ia escrever sobre uma coisa e acabei enveredando por outros caminhos, isso é bem comum por aqui. Ainda sobre mosquitos, li, há algum tempo, sobre mosquitos transgênicos criados para combater a malária. Até aí, tudo maravilhoso. O problema é que para diferenciá-los dos transmissores da doença, os cientistas resolveram equipá-los com um belo par de olhos verdes...fluorescentes!!!
Confesso que seria um tanto quanto assustador sentir aquela "discreta presença tátil" do poético início do texto, olhar, para ver de que se tratava, e me deparar com um mosquito de enormes olhos fluorescentes...se resolverem realmente soltar esses mosquitos por aí, terão de fazer muita, mas muita divulgação entre a população para que não aconteça um assassinato em série dos mosquitos alienígenas, atrapalhando todo o controle da malária que seria feito pelo insetinho. Poderiam ter feito o mosquito cor-de-rosa, ou com bolinhas azuis, ou quem sabe com um bumbunzinho fluorescente, disfarçado de vaga-lume. Olhos fluorescentes sacaneiam o pobre inseto.
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Uma discreta presença tátil. Poderia ser um fio de cabelo, o vento, ou uma sensação-fantasma, daquelas que aparecem quando nossos sentidos nos querem pregar peças. Nem sempre olho, e nunca tenho reflexos violentos, como o de bater a mão sobre a perna, para esmagar qualquer pequeno inseto. Me desfiz desse reflexo - se é que um dia o tive - pois na casa em que cresci era comum aparecer escorpião amarelo, e não seria uma boa idéia esbofeteá-lo, assim, sem motivo.
Se a sensação persiste por mais de dois segundos, eu olho, na vã tentativa de identificar a olho nu de que se trata. Uma discreta presença tátil, não posso classificar como cócegas. No fundo, eu sabia que tinha mais alguém comigo.
Sutil, leve, quase imperceptível, eu certamente notei mais sua existência do que exatamente seu corpo. Olhei. Sobre minha perna, perto do joelho esquerdo, um mosquito repousa, pensando se aquela seria ou não uma boa refeição. Mosquitos não costumam pensar muito quando resolvem apoiar suas patinhas no corpo humano. Aquele mosquito, porém, pensou. Pensou tanto que acabou sendo interrompido pelo meu reflexo óbvio: agitei a mão perto dele para afastá-lo. Voou para longe, chateado.
(eis que, enquanto escrevia esse texto, fui interrompida por mim mesma, e meu compulsivo e estranho hábito de divagar, mudar de assunto e perder o foco da conversa. O texto fica assim, estragadinho, porque esse é o blog da escrita na caverna. É minha caverna. Depois conserto, faço ficar bonitinho e publico. Aqui fica, sempre, o bruto. Ignore esse comentário, por favor, durante a leitura da íntegra. Mas fui obrigada a fazê-lo, para explicar a mudança brusca no texto, antes que alguém cogite a hipótese de me faltarem alguns parafusos)
Não, eu não mato mosquitos. Mato muito pouca coisa, na verdade. Só o absolutamente necessário (baratas que não fogem, escorpiões e aranhas assassinas), e mesmo assim, mato sofrendo. Voltando ao mosquito, não gosto desse nome. Acho depreciativo. É como se quiséssemos torná-lo ainda menor e mais estranho do que ele já é. Me soa como uma mistura de diminutivo pejorativo de mosca e o adjetivo "esquisito". Porém, como não sei exatamente com qual mosquito estou lidando, não posso chamá-lo pelo nome.
Sim, eu sei que é uma "mosquita", pois só as fêmeas picam, mas prefiro continuar a me referir ao mosquito na forma genérica e, portanto, masculina. Uma leve presença. Suave, discreta, sutil. Não era pequeno para um mosquito, mas qualquer mosquito é pequeno diante de um ser humano de 1,72m ( se você conhece um mosquito que não seja pequeno na frente de uma pessoa dessa altura, por favor, não me apresente). Não o vi mais.
Não gosto de ter parte do meu sangue sugado por um minúsculo inseto de nome potencialmente ofensivo (ao próprio), mas fiquei um pouco triste por ter atrapalhado um momento importante para aquele culicídeo (pensando bem, esse nome é pior do que "mosquito").
Sei, porém, que aqui em Campo Grande, com surtos de dengue e leishmaniose, os mosquitos passaram a ser vistos como grandes (ou pequenos, dependendo do ponto de vista) terroristas biológicos. Não o são por escolha, eu sei, mas como não carregam plaquinha de "sou um mosquito contaminado", desconfiamos de todos eles, por questão de sobrevivência. Mas não consigo ver um indivíduo de outra espécie como ameaça voluntária, por mais que me esforce. Se eles nos fazem mal, é sempre por razões alheias à sua vontade.
Insetos transmissores de doenças estão infectados pelos reais vilões, e animais maiores, que atacam humanos, só o fazem em situação de ameaça, stress ou fome. O ser humano é o único capaz de agir como ameaça voluntária a sua própria espécie, sem razão aparente ou sem justificativa plausível, às vezes por motivos fúteis.
Admiro cada vez as outras espécies que habitam nosso planeta. Por mais cruel que seja o mundo em que elas vivem, existe ordem, existe ética, existe senso de sobrevivência coletiva. Não que elas sejam melhores do que nós, são diferentes, mas essa diferença, ao contrário do que imaginamos, não as inferioriza, nem as desqualifica.
Sei que pode não pegar bem assumir, assim, publicamente, meu respeito aos mosquitos, e minha admiração pelas outras espécies que dividem conosco o planeta, mas não pude evitar. Eu ia escrever sobre uma coisa e acabei enveredando por outros caminhos, isso é bem comum por aqui. Ainda sobre mosquitos, li, há algum tempo, sobre mosquitos transgênicos criados para combater a malária. Até aí, tudo maravilhoso. O problema é que para diferenciá-los dos transmissores da doença, os cientistas resolveram equipá-los com um belo par de olhos verdes...fluorescentes!!!
Confesso que seria um tanto quanto assustador sentir aquela "discreta presença tátil" do poético início do texto, olhar, para ver de que se tratava, e me deparar com um mosquito de enormes olhos fluorescentes...se resolverem realmente soltar esses mosquitos por aí, terão de fazer muita, mas muita divulgação entre a população para que não aconteça um assassinato em série dos mosquitos alienígenas, atrapalhando todo o controle da malária que seria feito pelo insetinho. Poderiam ter feito o mosquito cor-de-rosa, ou com bolinhas azuis, ou quem sabe com um bumbunzinho fluorescente, disfarçado de vaga-lume. Olhos fluorescentes sacaneiam o pobre inseto.
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