Com Uma Ponta de Raiva

Dia desses fui a um conceituado salão especializado em cabelos crespos, em Copacabana. Minha intenção era ver se haveria possibilidade de fazer um relaxamento na raiz dos meus cabelos para diminuir o volume. Sim, eu sei, meu cabelo estava detonado, anos e anos de descolorações sem critério, tinturas alucinadas e ainda havia resquícios de um relaxamento mal feito nas pontas.
Marquei por telefone, a moça perguntou se eu tinha preferência por algum profissional, como não conhecia ninguém, disse que poderia ser qualquer um, coisa que ela tratou de cumprir ao pé da letra.
O prédio estava em obras e ninguém poderia acreditar que houvesse vida ali dentro. Pois havia. O salão era no último andar e me pareceu bastante simpático. O dono, alegre e falante, foi simpaticíssimo comigo, atencioso e chamou a atenção da jornalista que estava ali para o fato de que seu salão era frequentado por pessoas de todas as cores, já que cabelo crespo no Brasil não escolhe tom de pele.
Eis que vem a criatura. A mulher, já de meia-idade, mais ou menos da cor da minha mãe, cabelos avermelhados relaxados à altura dos ombros e cara de poucos amigos.
- Vamos fazer um teste. Aqui é assim, a gente não faz nada sem testar antes.
- Mas não é assim que tem que ser?
- Seu cabelo está horrível, acho que ele não vai aguentar.
Pause.
Uma das coisas que mais detesto neste mundo é cabelereiro detonando seu cabelo para conseguir algum serviço. Comigo funciona ao contrário. Eles querem hidratar à exaustão, cortar todas as pontas possíveis e imagináveis e, de quebra, arranjar um tratamento a longo prazo como aquela reconstrução capilar com queratina feita em três sessões (que, a propósito, eu fiz em Campo Grande). A gente vai ao salão para se sentir bem, não para sair de lá pior do que entrou, caramba!
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- Bem, espero que ele sobreviva - Falei, tentando levar na esportiva. Enquanto o troço fazia efeito em uma mecha.
- Que pena, um cabelo tão bonito....ficaria lindo relaxado... - Disse, tentando torturar-me.
- Pois é, né? Que coisa...
- Mas é muita tintura.
- E descoloração. - Completei, listando meus crimes.
- Descoloração?
- É, três dias seguidos de descoloração, a moça que fez não contava que meu cabelo descolorisse tão rápido, aí tentou consertar, escureceu demais e ela teve que clarear de novo, depois consertamos o novo tom.
- Ah, mas as pessoas falam "ah, fulano fez isso e aquilo no meu cabelo", mas tem a vontade do cliente também, se você foi lá e quis descolorir, não pode reclamar.
Pause
Quem disse que eu estava reclamando???? Estava apenas contando o que aconteceu!!!
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- Não estou reclamando.
- Pois é, depois a pessoa vai querer processar o cabelereiro. Não adianta processar o cabelereiro, não vai trazer o cabelo de volta. A pessoa consegue dinheiro, mas e daí? Não dá para comprar o cabelo de volta.
- Dá para comprar uma peruca.
Pause
Entendi algo como: "estou fazendo uma porcaria no seu cabelo, mas não vai adiantar nada me processar"
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Finalmente deu o tempo do produto e ela tirou com uma toalha úmida. Já deu para perceber que os fios quebraram na toalha. Pois é, teria que ser apenas na raiz, como eu havia previsto. Com uma malévola expressão de satisfação, a criatura pegou uma das mechas do cabelo, enrolou a ponta no dedo indicador e o indicador da outra mão enrolou perto da raiz e puxou, para testar a elasticidade, obviamente, alguns fios se partiram.
- Viu? Está horrível, detonado, não tem jeito. - E, diante do meu olhar perplexo, continuou fazendo aquilo com ainda mais força, até arrebentar toda a mecha. Fez mais para cima, até sobrar uns cinco centímetros de cabelo ali.- Olha só, isso é o que se salva do seu cabelo, o resto parece palha. A gente pode fazer até aqui. - Então ela chamou o dono do salão e ele veio, todo feliz:
- E então? - Ela mostrou a mecha quebrada. Ele fez o mesmo teste em outra mecha e mostrou que as pontas estavam ruins, mas do meio para cima o cabelo estava legal. Ela, indignada, mostrou a mecha decepada. - Mas como é que você cortou isso aí?
- Não cortei, ele quebrou! - Ele olhou, desconfiado. Havia me mostrado que o cabelo não estava legal, mas não chegou ao ponto de arrancá-lo. Perguntou se ela havia feito o teste direito e sustentou a afirmação de que o cabelo não estava assim tão ruim.
Quando o rapaz virou as costas, ela, indignada, exclamou:
- Ele está louco! Olha só, você viu, o cabelo está péssimo, quebrou todo - E pegou outra mecha - Olha só - Puxava, daquela forma, até arrebentar. Pegou mais para cima e preparava-se para cometer a mesma atrocidade quando eu resolvi deixar de ser legal e ser Vanessa:
- Ei! Toda vez que você fizer isso o cabelo vai arrebentar, POR FAVOR! - Leia isso em um tom alto e áspero, voz grave, ênfase nas palavras em negrito. A mulher parou no mesmo instante, murchou completamente e pediu desculpas. Hum. Por que não fiz isso antes?
Daí para diante o negócio seguiu com uma cliente muda e emburrada (eu, obviamente), e ela também, completamente calada. Passado algum tempo, voltei a um estado mais ou menos normal (é, eu tenho esse defeito), ela enxaguou meu cabelo e sugeriu uma hidratação. Aceitei porque sabia que precisava, não pela insistência dela em dizer que meu cabelo estava abominável.
Finalmente a tortura acabou e eu me livraria da mulher. Sentei na cadeira novamente e ela começou a secar meu cabelo daquele jeito que ele (meu cabelo) detesta. Aliás, que todo cabelo crespo detesta (e ela deveria saber disso). Começou a mostrar que as pontas estavam horríveis.
- É, eu sei. - E antes que ela dissesse, eu assumi: - E um lado está mais curto que o outro. É, quebrou.
- Você devia cortar ele para igualar e tirar essas pontas, olha só - disse, mostrando das pontas com cara de nojo - estão horríveis!
- Pois é, mas eu não quero cortar. - Ela pegou um espelho grande para me mostrar meu cabelo de costas.
Pause
Sim, eu tenho um cabelo na cabeça há anos e não sei como ele é. Tenho espelhos em casa e nunca o vi. Tiro fotos de costas e não faço idéia de como meu cabelo é visto por trás. Será mesmo que essa mulher achou que estava me mostrando uma graaande novidade?
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- Olha só. Está vendo? - Disse ela com aquele sorriso de satisfação maligno, feliz por eu notar que meu cabelo era um lixo torto.
- Sim, estou. Está exatamente como estava ontem. Olha, eu não vou cortar meu cabelo agora porque ele está um lixo, uma porcaria, horrível, não tem mais jeito, então para que cortar? Quando chegar em casa eu vou passar uma máquina dois nele e tudo certo. Se ele está assim tão ruim não vale a pena gastar com ele. - Respondi, calmamente, como se realmente estivesse decidida a ficar quase careca.
- Não, mas não é assim...- Tentou consertar.
- Obrigada, tchau!- Disse eu, sorrindo. Levantei, com o cabelo ainda úmido (saltei da cadeira antes que ela terminasse de secar naquele estilo "filha do bozo"), fui pagar e encontrei o dono do salão conversando com a moça do caixa, que me perguntou se eu iria levar algum produto (eles têm fabricação própria), eu disse que não, não havia sido apresentada a eles.
- Ela não indicou nenhum produto para você?
- Não. - O dono do salão comentou com a moça:
- Ela não indicou... - Notei que ele não havia ficado nem um pouco feliz com ela. Li, certa vez, que os penteados trançados e a venda dos produtos correspondem a 70% do rendimento daquele salão. Pelo visto, indicar produtos é de praxe. Tem que ser. Mas meu cabelo estava tão ruim que nem um produto deles daria jeito...risos...mesmo assim comprei um pote de leave-in e um frasco de silicone, porque estava precisando.
Só não saí por aí xingando o salão porque entendi que o problema era isolado, era aquela mulher apenas, o dono do salão era um amor e as outras moças que trabalhavam ali aparentemente também eram simpáticas.
Apesar de ter ouvido coisas do tipo "Não lave o cabelo todos os dias ou ele apodrece", "cortando as pontas o cabelo cresce" e outros mitos do tipo, que já foram derrubados por todos os dermatologistas e revistas femininas do mundo, achei que o pessoal ali sabia o que estava fazendo. Quanto aos mitos, é só ignorar e fingir que concorda e todo mundo fica feliz.
Existem algumas pessoas que só ficam satisfeitas quando vêem as outras em péssimo estado. Se elas conseguem te deixar mal, se sentindo um lixo horroroso, é a glória. Se depender de mim, essas pessoas morrerão frustradas, porque continuo com a mesma cara-de-pau de sempre. Corto meu cabelo e ele fica bom, mas continuo sendo o que sou, e bem feliz. E ela? O que ela pode cortar para ficar feliz e legal?
Já faz bem mais de uma semana. Ontem resolvi ir a um salão de branco aqui do Leblon. Não que o salão seja apenas para brancos, mas ele não é especializado em cabelos afro. Resolvi fazer uma escova porque queria deixar ele ondulado (eu não faço escova para meu cabelo ficar liso, eu fico muito estranha de cabelo liso), para variar.
A moça foi super simpática e discreta. Não falou absolutamente nada, coisa que muito me agradou, já que, apesar de eu adorar conversar, a cadeira do salão não me parece muito confortável para esse tipo de coisa, já que você está presa, com um secador apontado para a sua cabeça, sem poder se defender. Qualquer diálogo ali pode ser considerado interrogatório.
É difícil fazer escova no meu cabelo, é muito cabelo, muito mesmo, cansa qualquer braço. Traumatizada, eu já estava esperando que ela notasse que um lado estava mais curto do que o outro, treinando a justificaria que daria, algo como:
- Ah, é, o lado esquerdo está mais curto. Pois é, eu comi. Cortei e comi. Para suprir minha necessidade diária de queratina e fios mortos. Coloquei um catchup e comi.
Não foi necessário, educada, ela nem comentou. Só avisou:
- Depois você vai ter que cortar as pontinhas porque elas estão meio ressecadas, só as pontinhas, elas nem conseguem ficar bonitas com escova como o resto do cabelo.
- Ah, eu sei. Pois é, depois vou cortar. - E não se falou mais nisso.
Cheguei em casa, peguei uma tesoura, juntei o cabelo e tirei uns seis centímetros das pontas, de uma vez. Depois dividi ao meio e tirei mais alguns centímetros, para igualar. Sim, fiz justiça com minhas próprias mãos. Porque eu corto o meu cabelo. Porque eu decido quando, onde e como cortar meu cabelo. E porque estou de saco cheio de ficar de saco cheio por causa dessas pontinhas infames. E porque ninguém mais reclama delas para mim, nem eu.
Não ficou curto, mesmo porque ainda estou de escova. Não faço idéia de como vai ficar quando eu lavar, mas eu já estava com vontade de fazer isso há muito tempo. Até tinha separado uma foto de revista, de uma moça de cabelos cacheados cortados à altura dos ombros.
Os meus ficaram mais longos que isso, mas bem mais curtos do que estavam antes. Mais felizes também, porque acabei com a desigualdade social entre as pontas simplesmente eliminando-as. Espero que nenhum político siga meu exemplo.
Algumas fotos com cara de sono, hoje pela manhã:


PS: Sim, a foto do post de domingo foi histórica. Pela primeira vez em um ano e três meses, Dave me deixou postar uma foto dele sem aquelas alterações que o faziam parecer um menor infrator que não pode ser identificado.
PS2: Mais fotos das massinhas, em breve.
PS3: Cortar o próprio cabelo traz uma sensação libertadora, é maravilhoso, não é à toa que quando as personagens dos filmes decidem mudar, resolvem que irão agir de outra forma, marcam essa mudança passando a tesoura nos longos cabelos e assumindo um look curto de liberdade. Ainda não cheguei nesse ponto, mas um dia ainda corto o cabelo curtinho, com os cachinhos para cima, à la Felicity (quem é do meu tempo, tinha TV a cabo e gostava das séries da Sony, sabe do que estou falando.).
Em tempo: Para cortar o próprio cabelo, é necessário que você acredite ser capaz de cometer esse crime. Se você acha que não conseguiria jamais cortar seu cabelo sem ficar parecendo um poodle mal tosado, nem tente, ou certamente será guiado pelo nervosismo e fará indescritíveis caminhos-de-rato em sua cabeça. Ah, e também não se deixe levar pelas desastrosas experiências de infância. Nem o melhor cabelereiro do mundo tinha capacidade de cortar cinco fios em linha reta quando tinha dez anos de idade.
PS4: Fiz algumas correções, já que postei e saí correndo, sem revisar o que havia escrito e ficou uma porcaria. Acrescentei algumas coisas para facilitar a compreensão do texto, portanto, se não for pedir demais, se você já leu, por favor, leia novamente.

Dia desses fui a um conceituado salão especializado em cabelos crespos, em Copacabana. Minha intenção era ver se haveria possibilidade de fazer um relaxamento na raiz dos meus cabelos para diminuir o volume. Sim, eu sei, meu cabelo estava detonado, anos e anos de descolorações sem critério, tinturas alucinadas e ainda havia resquícios de um relaxamento mal feito nas pontas.
Marquei por telefone, a moça perguntou se eu tinha preferência por algum profissional, como não conhecia ninguém, disse que poderia ser qualquer um, coisa que ela tratou de cumprir ao pé da letra.
O prédio estava em obras e ninguém poderia acreditar que houvesse vida ali dentro. Pois havia. O salão era no último andar e me pareceu bastante simpático. O dono, alegre e falante, foi simpaticíssimo comigo, atencioso e chamou a atenção da jornalista que estava ali para o fato de que seu salão era frequentado por pessoas de todas as cores, já que cabelo crespo no Brasil não escolhe tom de pele.
Eis que vem a criatura. A mulher, já de meia-idade, mais ou menos da cor da minha mãe, cabelos avermelhados relaxados à altura dos ombros e cara de poucos amigos.
- Vamos fazer um teste. Aqui é assim, a gente não faz nada sem testar antes.
- Mas não é assim que tem que ser?
- Seu cabelo está horrível, acho que ele não vai aguentar.
Pause.
Uma das coisas que mais detesto neste mundo é cabelereiro detonando seu cabelo para conseguir algum serviço. Comigo funciona ao contrário. Eles querem hidratar à exaustão, cortar todas as pontas possíveis e imagináveis e, de quebra, arranjar um tratamento a longo prazo como aquela reconstrução capilar com queratina feita em três sessões (que, a propósito, eu fiz em Campo Grande). A gente vai ao salão para se sentir bem, não para sair de lá pior do que entrou, caramba!
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- Bem, espero que ele sobreviva - Falei, tentando levar na esportiva. Enquanto o troço fazia efeito em uma mecha.
- Que pena, um cabelo tão bonito....ficaria lindo relaxado... - Disse, tentando torturar-me.
- Pois é, né? Que coisa...
- Mas é muita tintura.
- E descoloração. - Completei, listando meus crimes.
- Descoloração?
- É, três dias seguidos de descoloração, a moça que fez não contava que meu cabelo descolorisse tão rápido, aí tentou consertar, escureceu demais e ela teve que clarear de novo, depois consertamos o novo tom.
- Ah, mas as pessoas falam "ah, fulano fez isso e aquilo no meu cabelo", mas tem a vontade do cliente também, se você foi lá e quis descolorir, não pode reclamar.
Pause
Quem disse que eu estava reclamando???? Estava apenas contando o que aconteceu!!!
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- Não estou reclamando.
- Pois é, depois a pessoa vai querer processar o cabelereiro. Não adianta processar o cabelereiro, não vai trazer o cabelo de volta. A pessoa consegue dinheiro, mas e daí? Não dá para comprar o cabelo de volta.
- Dá para comprar uma peruca.
Pause
Entendi algo como: "estou fazendo uma porcaria no seu cabelo, mas não vai adiantar nada me processar"
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Finalmente deu o tempo do produto e ela tirou com uma toalha úmida. Já deu para perceber que os fios quebraram na toalha. Pois é, teria que ser apenas na raiz, como eu havia previsto. Com uma malévola expressão de satisfação, a criatura pegou uma das mechas do cabelo, enrolou a ponta no dedo indicador e o indicador da outra mão enrolou perto da raiz e puxou, para testar a elasticidade, obviamente, alguns fios se partiram.
- Viu? Está horrível, detonado, não tem jeito. - E, diante do meu olhar perplexo, continuou fazendo aquilo com ainda mais força, até arrebentar toda a mecha. Fez mais para cima, até sobrar uns cinco centímetros de cabelo ali.- Olha só, isso é o que se salva do seu cabelo, o resto parece palha. A gente pode fazer até aqui. - Então ela chamou o dono do salão e ele veio, todo feliz:
- E então? - Ela mostrou a mecha quebrada. Ele fez o mesmo teste em outra mecha e mostrou que as pontas estavam ruins, mas do meio para cima o cabelo estava legal. Ela, indignada, mostrou a mecha decepada. - Mas como é que você cortou isso aí?
- Não cortei, ele quebrou! - Ele olhou, desconfiado. Havia me mostrado que o cabelo não estava legal, mas não chegou ao ponto de arrancá-lo. Perguntou se ela havia feito o teste direito e sustentou a afirmação de que o cabelo não estava assim tão ruim.
Quando o rapaz virou as costas, ela, indignada, exclamou:
- Ele está louco! Olha só, você viu, o cabelo está péssimo, quebrou todo - E pegou outra mecha - Olha só - Puxava, daquela forma, até arrebentar. Pegou mais para cima e preparava-se para cometer a mesma atrocidade quando eu resolvi deixar de ser legal e ser Vanessa:
- Ei! Toda vez que você fizer isso o cabelo vai arrebentar, POR FAVOR! - Leia isso em um tom alto e áspero, voz grave, ênfase nas palavras em negrito. A mulher parou no mesmo instante, murchou completamente e pediu desculpas. Hum. Por que não fiz isso antes?
Daí para diante o negócio seguiu com uma cliente muda e emburrada (eu, obviamente), e ela também, completamente calada. Passado algum tempo, voltei a um estado mais ou menos normal (é, eu tenho esse defeito), ela enxaguou meu cabelo e sugeriu uma hidratação. Aceitei porque sabia que precisava, não pela insistência dela em dizer que meu cabelo estava abominável.
Finalmente a tortura acabou e eu me livraria da mulher. Sentei na cadeira novamente e ela começou a secar meu cabelo daquele jeito que ele (meu cabelo) detesta. Aliás, que todo cabelo crespo detesta (e ela deveria saber disso). Começou a mostrar que as pontas estavam horríveis.
- É, eu sei. - E antes que ela dissesse, eu assumi: - E um lado está mais curto que o outro. É, quebrou.
- Você devia cortar ele para igualar e tirar essas pontas, olha só - disse, mostrando das pontas com cara de nojo - estão horríveis!
- Pois é, mas eu não quero cortar. - Ela pegou um espelho grande para me mostrar meu cabelo de costas.
Pause
Sim, eu tenho um cabelo na cabeça há anos e não sei como ele é. Tenho espelhos em casa e nunca o vi. Tiro fotos de costas e não faço idéia de como meu cabelo é visto por trás. Será mesmo que essa mulher achou que estava me mostrando uma graaande novidade?
Play
- Olha só. Está vendo? - Disse ela com aquele sorriso de satisfação maligno, feliz por eu notar que meu cabelo era um lixo torto.
- Sim, estou. Está exatamente como estava ontem. Olha, eu não vou cortar meu cabelo agora porque ele está um lixo, uma porcaria, horrível, não tem mais jeito, então para que cortar? Quando chegar em casa eu vou passar uma máquina dois nele e tudo certo. Se ele está assim tão ruim não vale a pena gastar com ele. - Respondi, calmamente, como se realmente estivesse decidida a ficar quase careca.
- Não, mas não é assim...- Tentou consertar.
- Obrigada, tchau!- Disse eu, sorrindo. Levantei, com o cabelo ainda úmido (saltei da cadeira antes que ela terminasse de secar naquele estilo "filha do bozo"), fui pagar e encontrei o dono do salão conversando com a moça do caixa, que me perguntou se eu iria levar algum produto (eles têm fabricação própria), eu disse que não, não havia sido apresentada a eles.
- Ela não indicou nenhum produto para você?
- Não. - O dono do salão comentou com a moça:
- Ela não indicou... - Notei que ele não havia ficado nem um pouco feliz com ela. Li, certa vez, que os penteados trançados e a venda dos produtos correspondem a 70% do rendimento daquele salão. Pelo visto, indicar produtos é de praxe. Tem que ser. Mas meu cabelo estava tão ruim que nem um produto deles daria jeito...risos...mesmo assim comprei um pote de leave-in e um frasco de silicone, porque estava precisando.
Só não saí por aí xingando o salão porque entendi que o problema era isolado, era aquela mulher apenas, o dono do salão era um amor e as outras moças que trabalhavam ali aparentemente também eram simpáticas.
Apesar de ter ouvido coisas do tipo "Não lave o cabelo todos os dias ou ele apodrece", "cortando as pontas o cabelo cresce" e outros mitos do tipo, que já foram derrubados por todos os dermatologistas e revistas femininas do mundo, achei que o pessoal ali sabia o que estava fazendo. Quanto aos mitos, é só ignorar e fingir que concorda e todo mundo fica feliz.
Existem algumas pessoas que só ficam satisfeitas quando vêem as outras em péssimo estado. Se elas conseguem te deixar mal, se sentindo um lixo horroroso, é a glória. Se depender de mim, essas pessoas morrerão frustradas, porque continuo com a mesma cara-de-pau de sempre. Corto meu cabelo e ele fica bom, mas continuo sendo o que sou, e bem feliz. E ela? O que ela pode cortar para ficar feliz e legal?
Já faz bem mais de uma semana. Ontem resolvi ir a um salão de branco aqui do Leblon. Não que o salão seja apenas para brancos, mas ele não é especializado em cabelos afro. Resolvi fazer uma escova porque queria deixar ele ondulado (eu não faço escova para meu cabelo ficar liso, eu fico muito estranha de cabelo liso), para variar.
A moça foi super simpática e discreta. Não falou absolutamente nada, coisa que muito me agradou, já que, apesar de eu adorar conversar, a cadeira do salão não me parece muito confortável para esse tipo de coisa, já que você está presa, com um secador apontado para a sua cabeça, sem poder se defender. Qualquer diálogo ali pode ser considerado interrogatório.
É difícil fazer escova no meu cabelo, é muito cabelo, muito mesmo, cansa qualquer braço. Traumatizada, eu já estava esperando que ela notasse que um lado estava mais curto do que o outro, treinando a justificaria que daria, algo como:
- Ah, é, o lado esquerdo está mais curto. Pois é, eu comi. Cortei e comi. Para suprir minha necessidade diária de queratina e fios mortos. Coloquei um catchup e comi.
Não foi necessário, educada, ela nem comentou. Só avisou:
- Depois você vai ter que cortar as pontinhas porque elas estão meio ressecadas, só as pontinhas, elas nem conseguem ficar bonitas com escova como o resto do cabelo.
- Ah, eu sei. Pois é, depois vou cortar. - E não se falou mais nisso.
Cheguei em casa, peguei uma tesoura, juntei o cabelo e tirei uns seis centímetros das pontas, de uma vez. Depois dividi ao meio e tirei mais alguns centímetros, para igualar. Sim, fiz justiça com minhas próprias mãos. Porque eu corto o meu cabelo. Porque eu decido quando, onde e como cortar meu cabelo. E porque estou de saco cheio de ficar de saco cheio por causa dessas pontinhas infames. E porque ninguém mais reclama delas para mim, nem eu.
Não ficou curto, mesmo porque ainda estou de escova. Não faço idéia de como vai ficar quando eu lavar, mas eu já estava com vontade de fazer isso há muito tempo. Até tinha separado uma foto de revista, de uma moça de cabelos cacheados cortados à altura dos ombros.
Os meus ficaram mais longos que isso, mas bem mais curtos do que estavam antes. Mais felizes também, porque acabei com a desigualdade social entre as pontas simplesmente eliminando-as. Espero que nenhum político siga meu exemplo.
Algumas fotos com cara de sono, hoje pela manhã:


PS: Sim, a foto do post de domingo foi histórica. Pela primeira vez em um ano e três meses, Dave me deixou postar uma foto dele sem aquelas alterações que o faziam parecer um menor infrator que não pode ser identificado.
PS2: Mais fotos das massinhas, em breve.
PS3: Cortar o próprio cabelo traz uma sensação libertadora, é maravilhoso, não é à toa que quando as personagens dos filmes decidem mudar, resolvem que irão agir de outra forma, marcam essa mudança passando a tesoura nos longos cabelos e assumindo um look curto de liberdade. Ainda não cheguei nesse ponto, mas um dia ainda corto o cabelo curtinho, com os cachinhos para cima, à la Felicity (quem é do meu tempo, tinha TV a cabo e gostava das séries da Sony, sabe do que estou falando.).
Em tempo: Para cortar o próprio cabelo, é necessário que você acredite ser capaz de cometer esse crime. Se você acha que não conseguiria jamais cortar seu cabelo sem ficar parecendo um poodle mal tosado, nem tente, ou certamente será guiado pelo nervosismo e fará indescritíveis caminhos-de-rato em sua cabeça. Ah, e também não se deixe levar pelas desastrosas experiências de infância. Nem o melhor cabelereiro do mundo tinha capacidade de cortar cinco fios em linha reta quando tinha dez anos de idade.
PS4: Fiz algumas correções, já que postei e saí correndo, sem revisar o que havia escrito e ficou uma porcaria. Acrescentei algumas coisas para facilitar a compreensão do texto, portanto, se não for pedir demais, se você já leu, por favor, leia novamente.

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