Friday, October 22, 2004

Uma Viagem ao Passado e um Retrato do Descaso

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Felizmente temos os mesmos gostos, eu e Dave. Gostamos dos mesmos passeios, nos divertimos com os mesmos programas e só divergimos no que diz respeito à televisão. Eu não sou muito chegada e ele é um ex-viciado em Discovery Channel, em recuperação.



Um dos passeios de que mais gostamos é visitar museus. Todos os tipos de museus, apesar de não sermos afeitos a arte contemporânea, não é raro nos ver em algum museu de arte contemporânea ou naquelas bienais corajosas em que instalações conceituais, vendidas como arte, são expostas ao público.



Não tiro a validade de instalações conceituais, mas não as chamo de outra coisa, para que fiquem em um patamar aceitável em minha mente.



No entanto, nada nos enche de maior satisfação do que visitar aqueles museus históricos, nos quais fazemos uma verdadeira viagem no tempo, como no museu Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, ou até mesmo no Museu da República, no Catete, aqui no Rio. No Júlio de Castilhos, um museu pequeno, porém muito bem cuidado, há até mesmo uma pequena recriação de uma rua de Porto Alegre. Pequena mesmo, um carro daqueles beeeeem antigos sobre uma pista de paralelepípedos.



Sem contar que no espaço onde estão expostos canhões antigos, dezenas de gatos refestelavam-se, ao sol. Gordos, grandes, SRDs, lindos. O pessoal do museu e uma vizinha cuidam deles. O que, obviamente, já somou inúmeros pontos no meu conceito.



O Catete ainda guarda os móveis de uma época anterior à dos presidentes, duas famílias viveram entre aquelas monstruosas paredes. Sem contar que estar na sala onde eram feitas as reuniões ministeriais, ver a riqueza das pinturas nas paredes e no teto e constatar que todo o esmero na pintura e decoração das salas não condizem com a simplicidade do quarto e do banheiro de Getúlio, é, no mínimo, interessante.



E quem for ao Catete enquanto estiver tendo a exposição "comemorativa" dos cinquenta anos sem Getúlio prepare-se, na ante-sala do quarto foi montada adivinhe o quê? Uma instalação contemporânea :)



Caixas, máquinas de escrever, porta-retratos, móveis foram estrag...ops, pintados de creme e há uma música horrenda, irritantemente alta ao fundo. Se você se distrair corre o sério risco de não ver o pijama, a bala e o revólver, estrategicamente escondidos no meio da bagunça. Quem fez aquilo achou que estava destacando esses objetos, mas o efeito é inverso. Eles somem no meio da massa creme.



Aí vem o quarto, a cama minúscula, paredes brancas. A moça que trabalha lá disse que o quarto também tinha pinturas, como a sala, mas os presidentes não gostavam, pintaram de branco. Total falta de senso histórico. O banheiro é horrível. Pequeno, apertado, simples demais. Fosse um hotel, eu não aceitaria aquele quarto.



Escrevi isso tudo, mas não era sobre isso que eu queria falar. Fomos a outro museu, no Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, sem saber o que nos aguardava. De cara, o choque. Abandono, sujeira, as coisas se auto-destruindo, uma garça dentro de um laguinho apodrecido, olhando, esperançosa, procurando algo comestível. Possivelmente desistiu e voou para outro lugar mais "caçável", ou era uma garça suicida.



A estátua de D. Pedro II com o rosto pintado de branco por vândalos e os enfeites de metal da base arrancados. Ok, não se trata de gostar ou não da monarquia, de simpatizar ou não com a família real. É história. E um povo sem noção de sua própria história é escravo de sua própria ignorância.



Descaso, as coisas caindo aos pedaços. Dentro do museu, peças mal conservadas e legendas escritas à máquina, em papel amarelado pelo tempo. Muito tempo. Muita poeira e sujeira dentro das vitrines, alguns bichos conservados em formol estavam com apenas metade do formol necessário, o resto deve ter evaporado.



Pouca coisa restou do que realmente foi aquele lugar, ao contrário do Catete, não há móveis da época, nem documentos, nada. Nem mesmo a pintura das paredes e os lustres são os mesmos.



O lugar está abandonado. As múmias estão se desfazendo e as peças, muitas vezes, recebem luz direta. Os animais são mal empalhados, vi melhores no Museu do Índio, em Campo Grande. Se bem que detesto ver animais empalhados, borboletas mortas e espetadas, entre outras coisas que existem por ali.



Em algumas salas há vitrines vazias com o aviso de que estão em manutenção. Deveriam fechar o museu para reformá-lo e reformulá-lo, isso sim. Aliás, deveriam fechar a Quinta da Boa Vista para uma reforma geral, depois reabrir e cobrar, sei lá, dois, três reais para a entrada. É triste, muitas famílias ficarão sem ter onde passear, mas pelo menos se preserva o patrimônio histórico, porque não é só família que a gente vê ali. Aliás, cada vez menos as famílias irão àquele lugar se continuar desse jeito.



Nem deu vontade de tirar fotos, mas tiramos só para postar aqui e dar uma vaga idéia de como está a coisa. A propósito, o lugar ainda é fotogênico. Pessoalmente é bem pior. E por dentro é proibido fotografar...por que será, hein?





Visão externa do Museu Nacional



Detalhe da fachada do Museu Nacional



Detalhe de estátua de D.Pedro II



Detalhe do salão de festas do Palácio do Catete- Museu da República



* Foto de abertura: Eu, em uma das salas da mostra 50 anos sem Getúlio, olhando para o lustre :)

Fotos: D.Lampert.