Esperança Descartada
Essa semana começou com gente morrendo. Não qualquer tipo de gente, mas Christopher Reeve e Fernando Sabino. Sabino morreu aqui pertinho, em Ipanema. Em casa, como eu acho que todo mundo deveria morrer. Faria oitenta e um anos na terça, faleceu na segunda. Não estava velho. Não, eu não acho que um escritor deva morrer antes dos cem anos.
Ontem fui à livraria e olhei "No fim dá certo". É injusto. A gente trabalha arduamente para escrever uma coisa, criar um texto, vê-lo se desenvolver. Então a gente morre e a nossa criação, que antes de ficar pronta era menor do que nós, permanece, tornando-se maior do que quem a escreveu.
Sem entrar no mérito da questão, se o que Sabino escrevia era bom ou não- eu acho bom, mas alguém pode não achar e querer discutir- com sua morte encerra-se um ciclo literário importantíssimo. Depois da morte de Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos, era o último baluarte do que chamo de "movimento mineiro" de sua época. O que ele simbolizava talvez fosse maior do que ele mesmo e no momento de sua morte, perdemos muito mais do que um homem.
Sem contar que ele fez a felicidade da bisbilhoteira que vos escreve. Amo livros de correspondências. Sabino publicou as cartas trocadas com Clarice Lispector, Mário de Andrade, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino.
Em meus devaneios poéticos, imagino que deva guardar todas as correspondências que troco com meus amigos. Nunca se sabe, às vezes somos expoentes de um novo movimento literário e essa seria uma bela forma de publicar livros com certa periodicidade sem precisar ter o trabalho de escrevê-los. :)
Como não bebo, não fumo, não uso drogas e quase não saio de casa, provavelmente viverei bem mais do que eles e poderei me aproveitar de sua fama póstuma. :) Não deve ter sido esse o interesse de Fernando Sabino, mas minhas más intenções eu não escondo de ninguém :) por isso torço firmemente pelo sucesso de todos os meus amigos, desde que continuem a se corresponder comigo por tempo indeterminado. :D
Outra morte ocorrida na segunda foi a do ator Christopher Reeve, que marcou minha infância com seu Super-Homem que tinha exatamente a mesma cara do desenho, sem boca, alto, forte, olhos pequenos e furinho no queixo. Nunca ninguém convenceu tanto no papel, embora ele não fosse assim um ator extraordinário.
O que me chama a atenção na morte de Christopher Reeve não é apenas o fato de eu sempre ter simpatizado com esse homem, sua luta e sua causa, mas o fato de que enquanto pessoas batalhadoras como Reeve morrem, com o coração cansado de lutar pela vida, milhares de embriões são descartados diariamente pelas clínicas de reprodução assistida.
Esses embriões poderiam ajudar pessoas como Reeve, com lesão medular, e outras, com doenças igualmente graves, como Mal de Parkinson, Mal de Alzheimer, distrofia muscular, diabetes e tantos outros problemas que certamente poderiam ter uma esperança de cura com o tratamento com células-tronco, justamente os embriões que são descartados enquanto ainda são aquelas células mágicas capazes de se transformar em qualquer tecido humano.
Poderiam ajudar, mas esbarram na ignorância da Igreja Católica e de pessoas que temem que, liberadas as pesquisas, abra-se caminho para a clonagem humana. É só estabelecer regras claras e pronto, não há brecha quando não se quer deixar uma brecha.
Reeve lutava para conseguir fundos para pesquisas com células-tronco, tinha esperança de voltar a andar com o tratamento. Nos Estados Unidos as pesquisas são permitidas, mas não têm investimento do governo. Tinham, mas a Igreja pressionou tanto que o governo retirou todo o apoio. Aqui está nas mãos do Congresso Nacional a aprovação de uma lei que regulamentaria a pesquisa e utilização de células embrionárias.
A meu ver, é um crime descartar milhares de embriões por ano, enquanto eles poderiam estar sendo usados para salvar vidas. É jogar no lixo a oportunidade de cura e melhores condições de vida para pessoas como Christopher Reeve, que tinha lesão medular, ou o tio do Dave, que mora aqui no Rio e que conheci, que tem Mal de Parkinson e mantém sua mente ativa, lucidez e bom humor, preso em um corpo rijo, já sem conseguir virar o rosto, por exemplo.
Pessoas como a tia do meu cunhado, que não deve ter nem sessenta anos e já sofre com o Mal de Alzheimer, que degenera sua mente, fazendo com que ela esqueça de rostos, fatos, tenha reações estranhas e torne-se totalmente dependente, deixando, inclusive, de ser quem sempre foi.
E esse tipo de doença, vocês já devem ter percebido, tem se tornado cada vez mais comum. Está mais do que na hora de facilitar o acesso a qualquer técnica que barre o avanço desses problemas. É um crime que, movidos pela ignorância, deixemos até mesmo de tentar.
Essa semana começou com gente morrendo. Não qualquer tipo de gente, mas Christopher Reeve e Fernando Sabino. Sabino morreu aqui pertinho, em Ipanema. Em casa, como eu acho que todo mundo deveria morrer. Faria oitenta e um anos na terça, faleceu na segunda. Não estava velho. Não, eu não acho que um escritor deva morrer antes dos cem anos.
Ontem fui à livraria e olhei "No fim dá certo". É injusto. A gente trabalha arduamente para escrever uma coisa, criar um texto, vê-lo se desenvolver. Então a gente morre e a nossa criação, que antes de ficar pronta era menor do que nós, permanece, tornando-se maior do que quem a escreveu.
Sem entrar no mérito da questão, se o que Sabino escrevia era bom ou não- eu acho bom, mas alguém pode não achar e querer discutir- com sua morte encerra-se um ciclo literário importantíssimo. Depois da morte de Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos, era o último baluarte do que chamo de "movimento mineiro" de sua época. O que ele simbolizava talvez fosse maior do que ele mesmo e no momento de sua morte, perdemos muito mais do que um homem.
Sem contar que ele fez a felicidade da bisbilhoteira que vos escreve. Amo livros de correspondências. Sabino publicou as cartas trocadas com Clarice Lispector, Mário de Andrade, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino.
Em meus devaneios poéticos, imagino que deva guardar todas as correspondências que troco com meus amigos. Nunca se sabe, às vezes somos expoentes de um novo movimento literário e essa seria uma bela forma de publicar livros com certa periodicidade sem precisar ter o trabalho de escrevê-los. :)
Como não bebo, não fumo, não uso drogas e quase não saio de casa, provavelmente viverei bem mais do que eles e poderei me aproveitar de sua fama póstuma. :) Não deve ter sido esse o interesse de Fernando Sabino, mas minhas más intenções eu não escondo de ninguém :) por isso torço firmemente pelo sucesso de todos os meus amigos, desde que continuem a se corresponder comigo por tempo indeterminado. :D
Outra morte ocorrida na segunda foi a do ator Christopher Reeve, que marcou minha infância com seu Super-Homem que tinha exatamente a mesma cara do desenho, sem boca, alto, forte, olhos pequenos e furinho no queixo. Nunca ninguém convenceu tanto no papel, embora ele não fosse assim um ator extraordinário.
O que me chama a atenção na morte de Christopher Reeve não é apenas o fato de eu sempre ter simpatizado com esse homem, sua luta e sua causa, mas o fato de que enquanto pessoas batalhadoras como Reeve morrem, com o coração cansado de lutar pela vida, milhares de embriões são descartados diariamente pelas clínicas de reprodução assistida.
Esses embriões poderiam ajudar pessoas como Reeve, com lesão medular, e outras, com doenças igualmente graves, como Mal de Parkinson, Mal de Alzheimer, distrofia muscular, diabetes e tantos outros problemas que certamente poderiam ter uma esperança de cura com o tratamento com células-tronco, justamente os embriões que são descartados enquanto ainda são aquelas células mágicas capazes de se transformar em qualquer tecido humano.
Poderiam ajudar, mas esbarram na ignorância da Igreja Católica e de pessoas que temem que, liberadas as pesquisas, abra-se caminho para a clonagem humana. É só estabelecer regras claras e pronto, não há brecha quando não se quer deixar uma brecha.
Reeve lutava para conseguir fundos para pesquisas com células-tronco, tinha esperança de voltar a andar com o tratamento. Nos Estados Unidos as pesquisas são permitidas, mas não têm investimento do governo. Tinham, mas a Igreja pressionou tanto que o governo retirou todo o apoio. Aqui está nas mãos do Congresso Nacional a aprovação de uma lei que regulamentaria a pesquisa e utilização de células embrionárias.
A meu ver, é um crime descartar milhares de embriões por ano, enquanto eles poderiam estar sendo usados para salvar vidas. É jogar no lixo a oportunidade de cura e melhores condições de vida para pessoas como Christopher Reeve, que tinha lesão medular, ou o tio do Dave, que mora aqui no Rio e que conheci, que tem Mal de Parkinson e mantém sua mente ativa, lucidez e bom humor, preso em um corpo rijo, já sem conseguir virar o rosto, por exemplo.
Pessoas como a tia do meu cunhado, que não deve ter nem sessenta anos e já sofre com o Mal de Alzheimer, que degenera sua mente, fazendo com que ela esqueça de rostos, fatos, tenha reações estranhas e torne-se totalmente dependente, deixando, inclusive, de ser quem sempre foi.
E esse tipo de doença, vocês já devem ter percebido, tem se tornado cada vez mais comum. Está mais do que na hora de facilitar o acesso a qualquer técnica que barre o avanço desses problemas. É um crime que, movidos pela ignorância, deixemos até mesmo de tentar.

<< Home