A Rua da Infância
Lembrava o nome da rua, não o número. Sabia que era na Domingos Ferreira, alguma coisa, o apartamento no qual passei alguns dias, muitos, não sei quantos, férias da segunda série, final de ano, oito anos. Finalmente, encontrei a rua. Caminhei. Os prédios pareciam todos iguais, não reconheci nada, deveria estar longe.
Era cento e alguma coisa, duzentos e alguma coisa, algo assim. Nada específico. Esperava reconhecer a fachada, aquele portão por onde entrávamos ao voltar da praia. Garagem, acho. Havia uma torneira. Eu me lembrava bem. Da sala também me lembrava, mas lá de fora não daria para ver.
Olhei. Procurei. Linha por linha daqueles edifícios todos iguais. Os porteiros me olhavam, desconfiados. Torci para que me lembrasse de alguma coisa. Orei, até, pedindo aos céus que me permitissem reconhecer alguma coisa. Nada.
Desacelerei o passo, pouco me importava o perigo de andar lentamente por aquele lugar, olhando para as construções com cara de turista. Pouco me importava a opinião dos porteiros, dos moradores, da polícia. Estava em busca de um detalhe perdido da minha infância.
Desesperada por reconhecer alguma coisa, vi algo de familiar no número 150, ou 147, na verdade vi algo familiar em uns três ou quatro edifícios.
Provavelmente era em algum deles o apartamento que minha tia alugava para passarmos as férias no Rio de Janeiro, ela, minha mãe, meus irmãos e, dessa vez, eu. Era uma apartamento mobiliado. Eu queria saber qual. Mas não havia em minha memória registro daquelas fachadas.
Triste admitir que algumas memórias apagam-se, desbotam-se e nunca mais poderão ser recuperadas, se perderão para sempre no limbo, desaparecerão como se nunca tivessem acontecido.
Não tenho fotos, hoje em dia todo mundo fotografa tudo, toda hora, naquele tempo a gente vivia mais e registrava menos. Lembro que na época, aos oito anos, lamentei não ter levado uma câmera fotográfica.
Hoje, além disso, lamento ter achado desnecessário escrever sobre aquelas férias, falei da praia, de ver o mar pela primeira vez, mas nada do apartamento e de outros detalhes. Lamento também não ter fotografado nada daquilo em minha mente. Lamento.
Algo, porém, fotografei.Ou melhor, fotografaram. Eu e minha tia estávamos almoçando em um restaurante de esquina, perto do prédio, em outra rua, em frente à praia. Um senhor entrou, armado com uma Polaroid, perguntou se poderia tirar nossa foto. Minha tia aceitou e ele fotografou, rapidamente, depois foi lá fora, agitar a fotografia ao sol.
-Ele está sacudindo a gente ali fora - comentou minha tia. Depois o homem voltou com o registro, magicamente instantâneo, recebeu o pagamento e foi embora. Não consegui tomar todo o refrigerante.
Como que para me compensar por não ter lembrado do prédio, minha memória me mandou virar à direita. Rua Santa Clara. Caminhei. Não sabia se estava reconhecendo alguma coisa ou se queria tanto reconhecer que estava em processo de auto-sugestão.
Na esquina, Santa Clara com Avenida Atlântica, lado esquerdo, o restaurante. Sim, era ele, eu tinha certeza. As mesinhas do lado de fora, o vidro, o toldo... Alguém pode dizer que, como os prédios da Domingos Ferreira, os restaurantes da Avenida Atlântica são todos iguais. Aquele não era. Era ele.
Lá, onde eu tinha me sentado com minha tia, não consegui tomar aquele refrigerante enorme, o homem tirou a foto e eu tinha um registro. Alívio. Olhei para aquele pedaço de praia da minha infância, o mar distante, a avenida larga, o calçadão de Copacabana. Por um instante, voltara no tempo.
Era a menina pequena, correndo descalça, sentindo o cheiro de mar, a brisa, ouvindo o som das ondas. Lembro de quando tentei ouvir o mar em uma conchinha. Nunca consegui, o som era parecido, mas como aquele, só ali. Enterrava os pés na areia, só podia entrar no mar segurando a mão da minha irmã. Eu era a caçula, pequena, magrinha, qualquer onda ou vento me levaria.
Não encontrei o prédio. Mas encontrei uma parte de mim que havia ficado perdida entre o restaurante e a praia, a menina sem sapatos que levava as bonecas para tomar banho de mar e tomava picolé de leite condensado. Não tomei todo o refrigerante. Busquei algumas lembranças. Levo mais do que trouxe comigo.
Lembrava o nome da rua, não o número. Sabia que era na Domingos Ferreira, alguma coisa, o apartamento no qual passei alguns dias, muitos, não sei quantos, férias da segunda série, final de ano, oito anos. Finalmente, encontrei a rua. Caminhei. Os prédios pareciam todos iguais, não reconheci nada, deveria estar longe.
Era cento e alguma coisa, duzentos e alguma coisa, algo assim. Nada específico. Esperava reconhecer a fachada, aquele portão por onde entrávamos ao voltar da praia. Garagem, acho. Havia uma torneira. Eu me lembrava bem. Da sala também me lembrava, mas lá de fora não daria para ver.
Olhei. Procurei. Linha por linha daqueles edifícios todos iguais. Os porteiros me olhavam, desconfiados. Torci para que me lembrasse de alguma coisa. Orei, até, pedindo aos céus que me permitissem reconhecer alguma coisa. Nada.
Desacelerei o passo, pouco me importava o perigo de andar lentamente por aquele lugar, olhando para as construções com cara de turista. Pouco me importava a opinião dos porteiros, dos moradores, da polícia. Estava em busca de um detalhe perdido da minha infância.
Desesperada por reconhecer alguma coisa, vi algo de familiar no número 150, ou 147, na verdade vi algo familiar em uns três ou quatro edifícios.
Provavelmente era em algum deles o apartamento que minha tia alugava para passarmos as férias no Rio de Janeiro, ela, minha mãe, meus irmãos e, dessa vez, eu. Era uma apartamento mobiliado. Eu queria saber qual. Mas não havia em minha memória registro daquelas fachadas.
Triste admitir que algumas memórias apagam-se, desbotam-se e nunca mais poderão ser recuperadas, se perderão para sempre no limbo, desaparecerão como se nunca tivessem acontecido.
Não tenho fotos, hoje em dia todo mundo fotografa tudo, toda hora, naquele tempo a gente vivia mais e registrava menos. Lembro que na época, aos oito anos, lamentei não ter levado uma câmera fotográfica.
Hoje, além disso, lamento ter achado desnecessário escrever sobre aquelas férias, falei da praia, de ver o mar pela primeira vez, mas nada do apartamento e de outros detalhes. Lamento também não ter fotografado nada daquilo em minha mente. Lamento.
Algo, porém, fotografei.Ou melhor, fotografaram. Eu e minha tia estávamos almoçando em um restaurante de esquina, perto do prédio, em outra rua, em frente à praia. Um senhor entrou, armado com uma Polaroid, perguntou se poderia tirar nossa foto. Minha tia aceitou e ele fotografou, rapidamente, depois foi lá fora, agitar a fotografia ao sol.
-Ele está sacudindo a gente ali fora - comentou minha tia. Depois o homem voltou com o registro, magicamente instantâneo, recebeu o pagamento e foi embora. Não consegui tomar todo o refrigerante.
Como que para me compensar por não ter lembrado do prédio, minha memória me mandou virar à direita. Rua Santa Clara. Caminhei. Não sabia se estava reconhecendo alguma coisa ou se queria tanto reconhecer que estava em processo de auto-sugestão.
Na esquina, Santa Clara com Avenida Atlântica, lado esquerdo, o restaurante. Sim, era ele, eu tinha certeza. As mesinhas do lado de fora, o vidro, o toldo... Alguém pode dizer que, como os prédios da Domingos Ferreira, os restaurantes da Avenida Atlântica são todos iguais. Aquele não era. Era ele.
Lá, onde eu tinha me sentado com minha tia, não consegui tomar aquele refrigerante enorme, o homem tirou a foto e eu tinha um registro. Alívio. Olhei para aquele pedaço de praia da minha infância, o mar distante, a avenida larga, o calçadão de Copacabana. Por um instante, voltara no tempo.
Era a menina pequena, correndo descalça, sentindo o cheiro de mar, a brisa, ouvindo o som das ondas. Lembro de quando tentei ouvir o mar em uma conchinha. Nunca consegui, o som era parecido, mas como aquele, só ali. Enterrava os pés na areia, só podia entrar no mar segurando a mão da minha irmã. Eu era a caçula, pequena, magrinha, qualquer onda ou vento me levaria.
Não encontrei o prédio. Mas encontrei uma parte de mim que havia ficado perdida entre o restaurante e a praia, a menina sem sapatos que levava as bonecas para tomar banho de mar e tomava picolé de leite condensado. Não tomei todo o refrigerante. Busquei algumas lembranças. Levo mais do que trouxe comigo.

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