Wednesday, September 15, 2004

Mesmo Sob Ameaça da Tempestade...

Minha mãe ligou agora há pouco, para me dar a notícia. Minha tia faleceu hoje pela manhã. Nunca é fácil.

Orei, torci, esperei, mas nem sempre as coisas acontecem como a gente quer. Às vezes percebemos que não somos escritores de nada, que a vida se escreve por si. Digo agora a terrível frase conformista que detesto: Deus sabe o que faz. Sim, Ele sabe, mas algumas vezes colocamos em Deus a culpa do que é apenas resultado do que se plantou. Não sei.

Não sei nada, sei muito pouco. Quem sabe da vida? Eu não sei nada da vida, não entendo muitas coisas que acontecem e que deixam de acontecer, não consigo me acostumar com um mundo cheio de coisas ruins, sempre lutando para ver o lado bom das coisas.

Resigno-me. Agora eu não quero ver nada.


Sempre quis gostar dela e ter um relacionamento legal, mas nem sempre foi possível, mesmo porque durante a adolescência eu era muito mais intolerante do que alguém acha que ainda sou. Não sou. Ou talvez até seja, mas não quero mais ser.

Nos últimos tempos entendi algumas coisas, conversei com ela durante mais de uma hora ao telefone, no final do ano passado, ela dizendo dos medos e da luta contra o câncer, eu dando força e dizendo a ela que tudo ficaria bem. Percebi, pelo tom de voz, que ficou mais tranqüila e animada. Estou certa de que ela está bem.

Foi a última vez que nos falamos, mas ela conversou com minha mãe muitas outras vezes, depois que me mudei. Fazendo planos, certa de que se recuperaria.

Ninguém pôde ir lá, ela ficou sendo cuidada pelos amigos. Morava há uns quinze anos em Nova York, tem uma filha que vai fazer quatorze anos neste mês e que, ao que entendi, ficará com a irmã mais velha, por parte de pai (o pai dela faleceu há alguns anos).

A luta da Amelinha acabou, não faz sentido algum se preocupar com ela. Lembra a passagem bíblica que conta que o filhinho do rei Davi estava muito doente porque Davi deixou o mal entrar em sua casa quando mandou Urias para a frente de batalha, para que morresse e ele pudesse casar com sua mulher.

O rei, desesperado, passava os dias prostrado, chorando, orando e jejuando pela cura do seu filho. Quando o garoto morreu, seus servos ficaram até com medo de contar a ele, pensavam: "Se enquanto a criança estava doente, o rei chorava, vivia prostrado, orava e não comia, o que não irá acontecer quando souber que o filho está morto?" Não teve jeito, tiveram que contar.

Imediatamente o rei se levantou, para espanto de seus servos, comeu, tomou banho, entrou na casa do Senhor e adorou, seus servos indignaram-se: "Que é isto que fizeste? Pela criança viva jejuaste e choraste, mas depois que a criança morreu, levantaste e comeste pão?"

Ele respondeu: "Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque pensava: Quem sabe se o Senhor se compadecerá de mim, de modo que viva a criança? Mas agora que é morta, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei a ela, mas ela não voltará para mim".

Ele sabia que ela já estava com Deus (a título de curiosidade, depois disso a mulher de Davi, Bate-Seba, vivúva de Urias, engravidou e deu à luz a Salomão, que foi o rei mais sábio, rico e glorioso de Israel).

Me preocupa apenas quem ficou. Minha mãe agora está bem, há alguns dias estava bem chateada. Minha avó parece frágil, mas ela já perdeu mãe, pai, irmãos, netos, marido e três filhos, provavelmente é bem mais forte do que parece. Minha prima me preocupa, mas o que posso fazer por ela?

O pior de tudo é a sensação de impotência perante a vida. Costumo dizer que não fomos feitos para morrer. A morte apareceu como acidente de percurso. Por isso nunca nos acostumamos com a idéia, não é natural.

Se a vida fosse apenas isso, apenas esse pequeno período que passamos na Terra, nada valeria a pena, porque é muito pouco, muito rápido, muito efêmero.

Com isso a gente aprende o que não deve ser feito. Temos que dar valor às pessoas que amamos, não perder tempo com bobagens, não descuidar da saúde, da boa alimentação, dos exames periódicos que todos devemos fazer e, principalmente, aprender da vida com quem a criou. Porque a gente não sabe nada. Nós não somos nada.

As roupas coloridas, os apliques esdrúxulos, os acessórios exagerados, brincos enormes, pulseiras, presilhas, a mala de estampa de oncinha que ela me deu (sim, eu também gosto dessas coisas de gosto duvidoso), não tinha medo de arriscar, fazia um monte de coisa errada, mas às vezes acertava sem querer. Era engraçada, falava todas as bobagens que lhe vinham à cabeça. Às vezes era maldosa, mas nem sei se fazia essas coisas de propósito.

Havia uma fórmula secreta de se lidar com ela, poucas pessoas descobriram, minha mãe, uma das únicas que sabia como ela era de verdade e conseguia lidar, sem grandes problemas. Uma fórmula secreta. Acho que era amor, tolerância, respeito.

Talvez seja a fórmula secreta de se lidar com todas as pessoas que não se parecem conosco. E talvez se pareçam. Talvez sejamos todos meio parecidos, no fundo.

Depois que o tempo passa, a gente "adultece" e percebe que as pessoas são diferentes, reagem de forma diferente, todos têm seus defeitos e suas qualidades, inclusive nós. E nossos defeitos não são menores do que os dos outros, talvez, apenas, diferentes.

Resigno-me, novamente. Vou ver o mar. Não sou uma pessoa de praia, mas gosto de olhar o mar, quando tenho oportunidade. Me faz ver que sou pequena, que não tenho controle de nada.

Mas a Bíblia também conta de um dia em que Jesus e os discípulos estavam em um barco em alto-mar e começou uma tempestade assustadora.

Desesperados, os discípulos acordaram o mestre, pedindo a ele que os salvasse, porque estavam prestes a morrer no meio daquela tempestade. Jesus, acordando, ordenou ao vento e ao mar que se aquietassem e, no mesmo momento, a tempestade desapareceu.

Então repreendeu os discípulos, perguntando: "Por que temeis, homens de pequena fé?" Deveria estar claro para eles que o mar jamais engoliria o barco em que estivesse o Senhor.

Não importa o tamanho da tempestade, o tamanho do problema, se ele ameaça te engolir, se parece que você não vai suportar, se o coração aperta, se a garganta avisa que você não pode conter o choro.

Se Ele está em sua vida, não há porque temer, nem porque se desesperar, a tempestade passa. É a lição que tiro dessa história. É do que me lembro sempre que olho o mar. Tão grande, tão ameaçador, mas que se cala diante da voz daquele que o criou.

E a vida continua, não é mesmo? Por algum motivo, ela continua. Pelas coisas boas, pela bonança que há de vir, ela sempre continua. Ainda bem.

PS: No post de ontem, "Continua Lindo", uma foto da vista do quarto.

PS2: Respondi os comentários de ontem, logo aqui abaixo. Vamos ver se coloco ordem nesta coisa.