Saturday, September 25, 2004

Perdi um Amigo



Me desculpe, amigo, eu falhei com você. Disse que nunca te deixaria, que estaria sempre por perto, que cuidaria de você e não cumpri. Não pude evitar que você ficasse doente, não pude evitar seu sofrimento, não pude evitar que fosse para uma clínica, não pude evitar que morresse longe de nós.



Recebi a notícia agora há pouco, ele estava com osteomielite mandibular, decorrente daquela inflamação do dente e da gengiva, que causou aquela massa da qual eu já tinha falado aqui e que já tinha sido retirada. Teria que fazer outra cirurgia. Fez a primeira raspagem, mas não foi o suficiente, teve que fazer outra, mas teve uma parada cardíaca durante a pré-anestesia. O veterinário conseguiu reanimá-lo e decidiu adiar a cirurgia.



Durante toda a semana que passou ele foi tratado com vitaminas, teve um acompanhamento nutricional, para ele ficar mais fortinho e aguentar a outra cirurgia. Hoje, durante o procedimento o veterinário percebeu que o osso estava muito comprometido.



Por conta da idade, o osso já estava poroso e não teria condições de fazer mais uma raspagem, ou se quebraria. A mandíbula do gato já é super pequena, frágil, com o passar dos anos, fragiliza-se ainda mais.



Não tinha mais jeito. Ele telefonou para a minha mãe e avisou. Poderia fechar e mandá-lo de volta para casa, mas o processo é degenerativo e ele ficaria cada vez pior, sentiria muita dor e não conseguiria comer.



Minha mãe disse que nem água ele estava conseguindo tomar. Justo ele que sempre adorou comer e tomar água. Passava um tempão tomando água e, em períodos mais secos, em que minha mãe espalhava bacias d'água por toda a casa, ele se esbaldava, tomando um pouco de cada uma.



O veterinário disse que não teria mais jeito, que ele só iria sofrer e que acabaria morrendo por falta de comida, porque não conseguiria se alimentar. Sou terminantemente contra a eutanásia, mas como é que a gente decide isso? Eu não estou lá, como vou dizer: bem, deixe o gatinho viver, cuide dele. Talvez, por um milagre, ele fique bom, ou então veja-o sofrrer até a morte. Ele não merecia passar por isso, ele não precisava passar por isso, não tinha que passar por isso.



Eu iria para lá, para cuidar dele. Mas para quê? Ele já estava na mesa de cirurgia, anestesiado. O veterinário queria autorização para aumentar a anestesia e assim terminar com todo aquele sofrimento. Com todo o sofrimento do bichinho, porque a gente continua sofrendo. Ainda mais agora.



Eu o vi nascer. Eu tinha dez anos, crescemos juntos. Era tão parte de mim, me entendia muito bem. Quando fez treze anos eu escrevi este texto, comemorativo. . Da última vez em que estive em Campo Grande, deitada na cama, ele dormindo, apoiando a cabecinha em minha perna, como gostava de fazer, cheguei a pensar que talvez aquela fosse a última vez que eu dormiria com o meu gatinho.



Fechei os olhos e agradeci por ele estar ali. Por eu poder ter essa oportunidade, por ter aprendido tanto com ele, por ter tido tantas alegrias e ter permitido que ele tivesse uma vida tão boa.



Muito mais do que um gatinho, era meu amigo. Quem nunca teve gato não consegue entender a profundidade desse relacionamento. Ele sabia se eu estava bem ou não, apenas com um olhar. Não gostava de me ver triste, se preciso, brigava comigo, para que eu reagisse. Ficava ao meu lado, fazia companhia, deitava bem pertinho, fazia questão de me ter por perto.



Eu me senti meio culpada quando fui embora, como se o estivesse abandonando. Quando fui a Campo Grande, para o noivado e ele viu o Dave, ficou na sala (o que não era normal. Geralmente um estranho nem via a cor dele, ele saía correndo e ia parar dentro do guarda-roupa), olhou, cheirou, ficou por perto, e eu achei na hora que ele estava entendendo o que significava aquele cara.



Foi assim com as minhas irmãs. Apareceu um cara estranho, passou um tempo, elas saíram de casa e depois apareceram com um filhotinho. Ele captou a mensagem, por isso não fugiu do Dave.



Mês passado, quando saí de lá, o deixei dormindo na minha cama, não quis me despedir, para que ele não ficasse triste. Já tinha conversado com ele pela manhã, depois levei as malas para a sala e não quis incomodá-lo, estava dormindo, bem mais magro, abatido. Preferi deixá-lo assim, porque quando ele estava dormindo não sentia dor, não sentia fome, não sofria.



Agora também. Dói em mim, dói muito mais em mim e em minha mãe, nunca pensei que precisaria passar por isso , principalmente depois que a Lady morreu. Estava certa de que a melhor saída era cuidar o bichinho até o fim, em casa. Mas a Lady só deixou de comer no último dia, seria duro demais vê-lo sofrer sem poder se alimentar. Às vezes a gente tem que se resignar e aceitar que as coisas nem sempre podem ser do jeito que a gente quer.



Mas continuo tendo raiva absoluta de doença e morte. Não aceito, jamais aceitarei. Se eu tinha algo a aprender com doença e morte já aprendi. Passei a vida inteira vendo doença e morte. Comecei, há algum tempo, finalmente, a ver um pouco de vida. E é o que quero continuar fazendo, vendo vida. Não importa se tudo acaba em morte, não me importa se tudo acaba um dia.



Pego o retrato. Tenho muitas fotos dele. Nos últimos dias ele esteve em todos os meus sonhos. Ele e a Lady. São parte de mim, nunca vou esquecer. Nesta foto, mês passado, ele já estava doente.



Mais um ciclo da minha vida que se fecha. Este mês foi pesado para caramba nesse aspecto de ciclos se fechando. Primeiro a Amelinha, agora o Nermal. Espero, ao menos, que o próximo mês seja feliz, que seja um mês de vida, de alegrias, de boas notícias, realizações.



Continuo em hiatus. Abri exceção apenas para dar a notícia. Esperei a semana inteira por uma boa notícia, mas ela não veio. O que posso fazer? Chorei um monte, claro, quatorze anos de convívio não são pouca coisa, seja uma pessoa ou um gatinho de estimação.



Mas o processo é o mesmo, a gente sofre, sente, chora, fica triste, tem aquela saudade que dói e que te corta até a alma, aquela eterna dúvida, sem saber se eu poderia ter feito algo antes para evitar isso, se haveria algo a ser feito.



Depois a dor vai diminuindo até sobrar apenas a saudade, as lembranças, lá no fundo, de um tempo bom, de uma boa companhia que já não existe mais. E a vida segue.



A princípio não quero mais gatos. Continuo amando gatos, fã incondicional dos felinos, mas acho que não estou preparada para bicho nenhum, tão cedo.



Tudo bem que isso não é um pensamento legal, já que ninguém deixa de ter filhos por medo de sofrer caso morram. Mas filhos, depois que crescem, sabem se cuidar. Bichinhos são dependentes e inocentes demais, precisam de cuidados. A princípio, não quero. Não sei do futuro. A bem da verdade, não sei de nada.



Queria poder dormir mais uma noite com meu gatinho enrolado em minha perna, acordar às quatro da manhã com seus pedidos insistentes para que eu o acompanhasse até o prato e colocasse um pouco de ração fresca naquela ração "dormida".



Fiquei mais preocupada com a minha mãe, afinal de contas, tudo naquela casa lembra o Nermal. As portas, janelas, varandas, plantas, sofás, cadeiras, camas, guarda-roupas, estantes, mesas, tudo tem uma história para contar. Deve ser difícil.



Quando eu o levei à clínica para a primeira cirurgia, cheguei em casa aos prantos. Porque geralmente a gente abria a porta e ele já estava ali, nos recepcionando, miava, esfregava em nossa perna, eu o pegava no colo.



Naquele dia não havia ninguém para me recepcionar, ele não estava no guarda-roupa, o prato dele estava vazio, o copo de água, também. Havia pêlos na cadeira, marcas de unhas no sofá, mas nenhum som pela casa. Vazia.



Era só para desabafo, serei obrigada a quebrar o hiatus para avisar que estou bem, quando ficar melhor. Enfim, passa. Dói, mas passa. Foi o que aprendi com doença e morte. Dói, mas passa. E nunca deixa de doer.



Nermal está no céu dos gatos (eu acredito que exista isso), junto com sua mãe, Lady, que morreu em 2001, nos meus braços. E fecho o ciclo, deixando para trás meus dois melhores amigos de infância e adolescência, que tanta alegria compartilharam comigo. Descanse em paz, amigo. Descanse.



PS: Escrevi esse texto à tarde e depois recebemos a visita do Gustavo, primo do Dave, e da Carla, namorada dele. Valeu o dia. Conversamos até tarde, os dois são muito legais, muito mesmo. Aproveito para agredecer. Me ajudou a distrair e a me animar.



Eu só a conhecia pela net. E-mails, orkut e ela lê o blog. Oi, Carla :) Passeamos depois, mas fiquei triste porque enquanto comíamos um cheese-salada cheio de alface, eles comiam um cheese-burguer altamente sem graça. Devia estar bom, mas por mim o mundo comeria aquele cheese-salada. Dane-se se ele custa quatro Reais, é uma vez na vida.



E não disse que os dois são muito legais só por saber que ela lê o blog, eu diria de qualquer forma. E se os dois fossem super chatos eu diria, ou não diria nada. Alegraram bastante esse dia que começou tão triste. Obrigada.



Dave também, esteve do meu lado o tempo inteiro, desde o meu acesso de choro na saída do Jardim Botânico, quando recebi a notícia, até agora, acabou de cozinhar para mim, ficou preocupado, chorou comigo e depois fez de tudo para me animar também. Obrigada, amor, porque sei que posso contar contigo em qualquer situação.