Wednesday, October 06, 2004

Pensaram que iriam se livrar de mim?



Acho que precisava desintoxicar. Todo mundo sabe que internet às vezes cansa. E também não queria passar a falsa impressão de que estou mal.



O post anterior foi triste porque tinha que ser, porque não consigo mesmo passar nada além do que estou sentindo. Nem aquém. Não que eu achasse que o Nermal era um gatinho higlander, que não morreria jamais, mas como eu disse ao Alec hoje, se ele tivesse morrido de causas naturais, eu me conformaria melhor. Mas quando a morte é por doença dá impressão de que a criatura foi arrancada da vida e dói mais, acho.



Mas agradeço a todo mundo que deixou mensagem por aqui. Sei que vocês entendem e sei que quem expressou seu pesar fez isso de coração. Obrigada mesmo, faz diferença.



Vou levando o blog do jeito que sei levar enquanto não tenho aquele "Insight" sobre o que farei por aqui. Mas que fique bem claro que algo será feito por aqui.



Estive ouvindo muito sobre blogs nos últimos tempos. Sobre como um blog deve ser e das formas legais de atrair visitantes (porque o "adorei seu blog, passa lá no meu, a meu ver é completamente ilegal) e descobri que realmente não tenho um blog.



O que faço aqui é qualquer coisa, menos um blog. O layout é tudo o que não poderia ser e já tentei, vocês sabem, usar o indefectível fundo branco, mas não me adaptei, o que é pior, eu sou uma pessoa laranja, creme e verde. Isso, acho, não tem cura.



Até que enchi o saco de estar de saco cheio e pensei: "pôxa, esse espaço é meu, eu vou jogar o que quiser nele e se for bom haverá quem queira ler". Os textos são longos demais. É, o tempo na internet é isso e aquilo e ninguém quer ler textos longos. Mas se é bom, todo mundo lê. Não me confundam. E se alguém tem preguiça de ler, não vou me tolher para mostrar que ele está certo. Não está. O blog estou escrevendo para mim, se alguém lê é lucro. E ando lucrando bastante ultimamente :)



A gente cria círculos de leitores. Ingenuidade imaginar um blog que seja unanimidade, que todo mundo conheça, leia e goste. A blogosfera é ilimitadamente ramificada e, eventualmente, indivíduos transitam de um bloco a outro, alguns navegam apenas entre um grupo de blogs, outros preferem ser mais ecléticos, mas invariavelmente as pessoas tenderão a visitar aqueles blogs com os quais se identificam.



Tenho consciência de que estou começando a minha vida. Quer dizer, eu já me acho bastante velha, mas ao mesmo tempo sei que não sou. Minha vida profissional vai começar mesmo quando eu resolver lançar o material que tenho e isso está bem próximo.



Mas para isso eu tenho que dominar a arte de elaborar textos e a naturalidade ao escrever, que é uma marca dos meus textos. Ao menos aos meus olhos, bem, eu acho super natural enquanto estou escrevendo, mesmo que o leitor veja a coisa altamente artificial...risos...Mas é natural para mim, não me contradigam!...risos....



Ser natural não é encher um texto de palavrões, a menos que você seja copletamente adpto do vocabulário escatológico. O que, obviamente, não é meu caso.



Me decepciono com o mercado literário brasileiro desde que comecei a compreendê-lo. Publica-se qualquer coisa, a gente vê gente que não sabe escrever, que não tem nada a dizer, mas que, por puro marketing vende horrores.



E vê gente boa para caramba tendo que publicar seus livros do próprio bolso, correndo atrás de divulgação. E tem gente que escreve mal, acha que escreve bem, publica livro ruim e convence um punhado de gente que nunca leu nada de que aquele livro é bom e é escritor. Qualquer um pode ser escritor.



Já fui criticada uma vez quando disse que ninguém se torna escritor, ou o cara nasce escritor ou ele será, no máximo, impostor. Mantenho a afirmação. O que pode acontecer é o indivíduo nascer escritor e só descobrir isso bem mais tarde. Outros percebem mais cedo. O que também acontece é o cara nascer escritor, mas meio pedra bruta, tendo que se lapidar durante os anos. Aliás, a gente sempre tem que se lapidar, crescer, evoluir, melhorar.



Eu nasci muitas coisas. Isso me atrapalhou um bocado, embora eu não reclame...risos...mas tive um baita trabalho para descobrir o que me chamava mais e o que eu queria realmente ser. Dediquei muitos anos a outras coisas, alguns anos dediquei a me aperfeiçoar em um monte de coisa ao mesmo tempo e acabei não fazendo nada.



Na infância todo mundo é multifuncional. Eu fazia minha pobre família assistir às minhas performances no meio da sala. Cantava, dançava, representava, fazia teatro de bonecas. Na maioria das vezes minha mãe era a única platéia, mas meus irmãos também se divertiam com a leitura das abobrinhas que eu escrevia e com as músicas intermináveis da Vanessa.



Cantava mal para caramba, foi um limite que eu superei na marra. Me esforcei, tive aulas de canto comigo mesma, com a inestimável ajuda da Mariah Carey, Whitney Houston, Celine Dion, Toni Braxton e Laura Pausini que depois de intermináveis dias e noites me ensinando harmonia e afinação conseguiram me transformar em um ser cantante que se preze. Ou talvez tenha sido apenas a transição para a adolescência. Ajuda, não é?



E família de artistas. Gente que canta, desenha, representa, escreve, faz tudo muito bem e tudo meio escondido. Eu não quero me esconder de ninguém. É outro limite que estou tentando superar na marra. O desenho larguei há algum tempo. Acho que este ano não desenhei nada. A menos nada do que eu costumava desenhar.



Aliás, meus desenhos simplesmente desapareceram durante a mudança de Campo Grande para Porto Alegre e a única prova de que eu costumava desenhar bem são uns dois ou três desenhos horríveis, muito mal feitos que scaneei em 2002.



Qualquer dia desses desenho de novo. O problema é que sou muito perfeccionista e desenhar estava virando uma tortura, já que eu queria o rosto perfeito, o sombreado perfeito, o olhar perfeito, e nada estava perfeito, nunca.



Cantar é hobby, representar é uma necessidade reprimida que de vez em quando coloco para fora, também como hobby. Escrever quer ser profissão. Talvez até seja. Mas não consigo contar planos enquanto são apenas planos.



Mas acho que tudo se completa. O processo de criação de personagem é meio semelhante, tanto no ator quanto no escritor, ou no desenhista, com a diferença de que o escritor, assim como o desenhista, começa do zero, do nada, e cria seu personagem, desenha seus contornos, com a máxima perfeição, para dar veracidade, e como o cantor interpreta a música e o ator interpreta o personagem, o escritor tem que interpretar toda a sua criação.



Todos os personagens, o cenário, o enredo, tudo tem que ganhar vida através de suas palavras e isso, para mim, é um exercício maravilhoso, é criação, é o que nos faz humanos, é o que temos de mais próximos com Deus, acredito que é nisso que Ele nos fez à sua imagem e semelhança, na capacidade de criar.



É claro que Ele tem infinitamente mais recursos do que nós, inclusive intelectualmente, e nós somos limitadíssimos. Deus é o escritor ilimitado e nós, seus personagens com capacidade de escolha. Não existe nada mais incrível na vida do que essa sensação de folha em branco pela frente e tanta coisa já escrita para trás.



Não acredito em destino. Acredito em opções e escolhas. Se a vida fosse dirigida por destino, se tudo estivesse selado, maktub, pré-escrito, seria muito sem graça. Deus já sabe as escolhas que faremos, simplesmente porque Ele conhece o futuro, mas quem faz as escolhas somos nós. E isso também é maravilhoso. É respeito.



Não sei quanto a vocês que também escrevem, mas eu, quando crio um personagem e traço uma idéia para ele no livro, sempre me espanto ao ver toda a história mudar, de repente, porque o personagem simplesmente não aceita o que eu imaginei para ele. Sim, acontece, eu não sou louca, mas o cara que nem existe, que nada mais é do que um amontoado de letras, acha que pode saber o que é melhor para ele, melhor do que eu, que o criei.



E meus livros sempre viram outra coisa, totalmente diferente do que eu imaginava a princípio. Às vezes é frustrante, porque a idéia era boa, mas o personagem foi muito imbecil. Mas é que enquanto as características da personalidade da criatura vão sendo moldadas, vai sendo traçada também sua forma de fazer escolhas. E sobre algumas coisas você não tem o mínimo controle. Ou tem e eu é que sou louca mesmo, vai saber.



O trabalho de escritor é meio solitário, então nem sempre você sabe como outro ser da mesma espécie trabalha. Eu sei do que já li de outros autores, porque escritor só fala escrevendo mesmo. Embora eu seja horrivelmente tagarela.



Talvez eu não seja mesmo escritora, talvez eu não saiba nada de criação de personagem, talvez eu seja apenas uma maluca imaginativa, que cresceu bem pouco e acha que sabe muito mais do que realmente sabe. Isso eu só vou aprender vivendo. E por isso também, pela possibilidade de crescer e aprender é que a vida é maravilhosa. :)