Thursday, December 02, 2004

Antipatia, Intolerância e a Beleza da Vida



Graças dou aos céus pela minha imensa imaginação. Às vezes acerto, outras erro, mas é o que me faz escrever decentemente, a culpada por eu ter nascido com essa veia literária.



A propósito, diz a lenda que quando eu nasci era tão branca, mas tão branca, que dava para ver praticamente todas as veias e seguir o sistema circulatório inteiro a olho nu. Dizem que uma dessas veias era literária.



Mas literária mesmo, daquelas cheias de letrinhas, de óculos de grau, segurando um livro enorme, antipática. Minha veia literária é antipática. :)



Deu para perceber?







Tentei, em vão, substituir o texto deprê anterior por outro, mais condizente com minhas condições atuais. Não pude, por pura falta de tempo. Saímos na segunda, voltamos uma hora da manhã, morrendo de sono.



Faço um curso na terça, acordei, peguei o ônibus e, na volta, mais do que cansada, comi e despenquei na cama, muito mais cedo que o habitual. Ontem também saí o dia inteiro e cheguei meia-noite, falei com minha mãe ao telefone e dormi, novamente.



Sobre o texto anterior, Dave tem uma teoria. Ele diz que quando o sol não aparece eu fico nublada. Faz sentido.



Ontem, naquelas longas conversas que temos antes de dormir, Dave me falou sobre a minha intolerância. E não apenas isso, sobre minha teimosia. Ele é uma pessoa que admite quando o outro está certo e dá o braço a torcer. Diz a lenda que eu não sou assim. Sinceramente, sou sim.



Tudo bem, não gosto de "perder discussões", mas há muito tempo não sou aquela guria chata que faz questão de assuntos polêmicos, polemiza ainda mais, só para testar sua capacidade de argumentação. Minha fase de auto-afirmação já passou há tempos. Mas a lenda sobrevive.



A gente vai ficando mais velho e percebe que tem mais o que fazer do que ficar brigando com os outros (ainda que não haja assim taaanta coisa melhor a se fazer), cansa. Mas a lenda...ah, a lenda!



Sim, eu sou teimosa, sim detesto dar o braço a torcer (digamos que eu faça isso- alongar a conversa para não dar o braço a torcer- apenas com ele hoje em dia. O moço foi premiado :) ), quase nunca as pessoas estão mais certas do que eu, mas eu assumo e até mostro a língua, em sinal de protesto, quando estão. E veja só, eu incluí o "quase", deixando margem para assumir meus erros, quem é perfeito em todas as suas opiniões?



De resto, resolvi assumir, afinal de contas, que não sou uma pessoa ruim, por mais chato que isso possa parecer. Me pego, subitamente, preocupada com gente que pouco conheço, já me sentindo amiga de infância, torcendo para que todo mundo seja muito feliz e me dando conta, também subitamente, que só tenho conhecido gente legal.



Daqui a pouco começo a espalhar coraçõezinhos pelo template, dizendo que a vida é bela e trocando meu nome para Pollyanna Stella Lampert. A propósito, continuo achando Pollyanna uma chata de galochas. Li "Pollyanna" e "Pollyanna Moça", sei do que estou falando. A garota era um porre, não gosto de ser comparada a ela.



Mas não há nada de terrível em admitir que a vida tem coisas bonitas, que as situações têm seu lado bom e que olhar por outro ângulo geralmente nos dá uma visão completamente diferente do problema. Olhar para frente e ver o tempo não como um inimigo que arrasta e aumenta nossas desgraças, mas como uma oportunidade de fazer qualquer coisa, de tentar mudar, melhorar, etc.



O problema é que a gente leva essa vida a sério demais e isso é uma bobagem. Porque tudo passa muito rápido, muda de repente, acaba sem aviso prévio. Então o importante é tentar, dê certo ou não, arriscar, buscar ser feliz e valorizar as coisas legais que aparecem no caminho.



O mais importante, por mais brega que essa afirmação possa parecer, o mais importante na vida é o amor. As pessoas que nos amam (não falo de apenas um tipo de amor), a quem amamos, o sentimento raro (sim, raro) de ter alguém que se importa, de ter um olhar em sua direção, torcendo para que tudo fique bem.



Eu me sinto na obrigação de fazer com que tudo fique bem, ao menos dentro de mim, para acalmar e recompensar esse olhar. Isso não me tortura, motiva.



Porque a vida, por mais longa que seja, é curta demais. E é uma viagem única, elástica, as coisas não são estáticas e eu acredito que com determinação, certeza do que se quer e trabalho árduo, a gente pode mudar o que for.



Não acredito que mudemos o mundo porque ele é grande e confuso demais para isso, mas existe um velho pensamento judeu que conta de um menino que queria mudar o mundo, mas percebeu que ele era muito grande para que ele conseguisse mudar sozinho, depois quis mudar o país, mas viu que também era muito grande, quis mudar a cidade, mas ela também era muito grande, quis mudar sua comunidade, mas ela também era grande demais. Então decidiu mudar a si mesmo e assim mudou a comunidade, a cidade, o país e o mundo. Ok, isso está parecendo papo de auto-ajuda, mas não é.



Se não é possível mudar o mundo, mudemos então o que está a nosso alcance e que nos é possível mudar. Se a gente não consegue sozinho, vamos procurar gente que pense parecido e unir forças. Sozinho a gente pode mudar nossa forma de ver as coisas. E isso, eu asseguro, já é um bom (e grande) começo.