Thursday, November 18, 2004

Já vai tarde



O Brasil tem um problema muito grave, a cultura hipócrita de elevar qualquer defunto ao posto de herói, só porque morreu, como se a morte apagasse tudo o que a criatura fez e foi em vida. Tutty Vasques falou sobre isso dia desses, no No Mínimo. Embora confesse que nutria uma "certa simpatia" por Yasser Arafat, assume que o país sofre desse mal, de transformar qualquer morto em exemplo para a humanidade. Ele comenta que isso não aconteceu em Israel, mas acho que ele não tinha visto ainda, aconteceu no Brasil.



A revista Veja da semana passada traz Arafat na capa, com cara de coitado. A reportagem intitulada "O fim de uma era", lamenta a morte do líder palestino de uma forma que a gente quase chora por ter perdido tão incrível criatura, dizendo que ele "morreu após quatro décadas de luta pela paz na terra santa"...hein? Como é que é? É brincadeira, não? Arrisco dizer, sem medo de errar, que se não fosse Yasser Arafat já teríamos a paz na terra santa há muito tempo. Mas Veja é Veja. Não sei quanto a vocês, mas para mim essa revista há tempos perdeu a credibilidade. Se é que algum dia teve.



A sessão "Cartas" da Veja desta semana vem recheada de comentários exaltando o "grande líder", mas ao menos uma carta de uma pessoa sensata (a única, aliás) me salta aos olhos:



"Nem antes nem hoje o terrorismo, de qualquer espécie e sob qualquer bandeira ou ideologia, pode ser considerado inocente. O fato que agora parecem esquecer é que esse "maravilhoso líder" foi o responsável por inúmeros atos terroristas e pela morte de civis, crianças, pais e mães de família. Estar morrendo ou ter ficado merecidamente confinado pelo Exército de Israel não o torna menos assassino nem alivia seus crimes.

Claudia Stella Bär"




Adoro essa menina. Não apenas por ser minha irmã, claro :) Mas ela colocou em palavras o que estava atravessado na minha garganta. O cara morreu, não muda o que eu pensava dele e, acima de tudo, não muda nada do que ele fez.



Esquecer o passado, apagar a história por interesse político ou funerário pode ser algo bem comum neste país, mas eu não caio nessa. E me admira ainda haver quem caia. Não existe o terrorista ruim e o terrorista bonzinho. Terrorista é terrorista. Jovem ou velho, vivo ou morto.