Friday, November 12, 2004

Grelhada



Sinto-me uma uva-passa. Ontem, cumprindo uma promessa feita há alguns séculos, eu e esta moça fomos à praia. Bem, como todos devem saber, eu não sou uma criatura com excesso de pigmentação na pele. A bem da verdade eu quase não tenho pigmentação na pele, minha melanina tirou férias no útero e nunca mais voltou.



Fui à praia, torrar no sol e entrar no mar há dezesseis anos. Juro. Ali mesmo em Copacabana, aos oito anos, com minha mãe. Foi a última vez em que fui à praia como legítima banhista torradista. Eu e minhas barbies. Depois disso, só caminhar no calçadão e olhar o mar, de longe.



Ontem quis fazer uma extravagância. Com o ar de criança que vai fazer bagunça, lá fui eu para a casa da Claudia. Chegamos à praia falando pelos cotovelos.



Alugamos cadeiras e o sol se instalou sobre as nossas cabeças. Passamos protetor. Eu, um fator 20, acho, e ela um oito, ou coisa assim. Passei um bloqueador solar 60 sobre a tatuagem dela e limpei em meus ombros, já que é a área que mais queima em mim.



- Não limpa assim que você vai ficar toda manchada.

- Não, não fico, não. - Respondi, imprudente. Aliás, imprudência foi meu nome ontem. Deveria ter mergulhado no FPS 90 ao invés de passar o gelzinho vinte (ou quinze?).



Ela achou que não precisava passar protetor na parte inferior das pernas, panturrilhas, pés...passou até a coxa e parou por ali, alegando que, como aquela área não tem gordura, fica difícil de queimar. Eu passei na perna toda porque sou neurótica.



Nunca gostei de sol porque a recíproca era verdadeira. O sol me odeia e provou isso ontem. Quando estava ficando meio quente demais, Claudia sugeriu um guarda-sol para mim. Pensei um pouco e aceitei. Estava me sentindo um filé grelhado na pedra. Pedimos um guarda-sol.



Claudia também é branca, mas a pele dela tem mais facildade de ficar com uma cor decente do que a minha, por isso ela ficou ao sol mais tempo.



Conversamos. Pelos cotovelos. O tempo passou rápido demais, comprei um óculos de sol e enfrentamos algumas tempestades de areia.



Antes de sair, após duas horas na praia, conferimos o bronzeado. É incrível como, sob o sol, não se consegue ter uma idéia exata das cores. Saímos, felizes, conversando.



Ao chegar na casa dela, o susto: estávamos vermelhas. Não apenas isso, estávamos irregularmente vermelhas. Listradas. Eu, principalmente, com marcas de dedos e ombros brancos. Felizmente passei aquele protetor 60 nos ombros. Detesto ombros queimados. Antes manchados de branco do que em chamas.



Ela ficou com as pernas vermelhas (sim, onde não passou o protetor) e com um círculo "de luz" ao redor da tatuagem. Percebemos que não se pode espalhar o protetor dessa forma tão genérica sobre uma tatuagem recém-feita. É um trabalho delicado, de artista, seguir os contornos do bicho para que ele não fique com aquela aura solar esotérica.



E eu... bem, eu agora pareço ter sido grelhada na grelha mesmo, com direito a risquinhos e tudo. Felizmente o rosto se salvou, fora um risco vermelho na testa. Felizmente não está ardendo...muito. A pele está ligeiramente irritada, espero que não se vingue de mim.



Mas apesar de tudo, valeu. Valeu pela companhia, pela tarde divertida, pelo refrigerante, pelos biscoitos, pela receita ao final do dia (que fez sucesso aqui em casa, apesar de eu ter temperado demais dois pedaços de filé...ao menos o terceiro ficou bom) e os livros, lidos e emprestados, que me fizeram esquecer as queimaduras.



Voltando para casa, o cérebro se desligando, já não funcionava direito. Sol dá sono. Ao me ver, Dave arregalou os olhinhos esverdeados:

- Guria!!! Tu tá vermelha!!!



Oooh, novidade. Sai de casa verde. Amadureci :) . Não disse isso, obviamente. Ele ficou meio desesperado, mas se acalmou quando eu disse que não estava ardendo. Só que ele teve que tirar a comida do forno porque tudo bem, não estava ardendo, mas não vamos exagerar e me colocar na frente do fogão aceso, com todo aquele vapor quente sobre essa pele histérica.



Descobri que tenho que usar um FPS maior do que vinte, se não quiser virar um morangão...na verdade o ideal seria 60, mesmo com os cancerígenos anéis de benzeno na fórmula. Dane-se o benzeno hexano tolueno, ao menos não volto da praia estampada. A impressão que dá é que acabou a tinta e não deu para pintar todo o corpo. Estou parecendo uma pintura abstrata. Aquarela vermelha sobre tela branca.



Pior é que, sendo culpa exclusivamente minha, não posso nem reclamar. Me entupi de hidratante e estou tentando convencer minha pele de que eu a amo, para ver se ela colabora. Ainda não deu resultado, mas continuo confiando em meu poder de persuasão. Colorida.



PS: A quem estranhou o post no estilo "minhas férias", contrastando com o humor ali em cima dizendo que estou intencionalmente produtiva, explico: produtiva sim, mas não morta, né? Ninguém é de ferro... :)



PS2: Meu umbigo voltou para casa cheio de areia :)



PS3: Hoje é aniversário do meu sobrinho Juninho, que faz quatro anos...nossa, como ele está velho!...risos...aliás, como eu estou velha, não é? Ele nasceu ontem...eu tinha vinte anos...que horror, que horror...de qualquer forma, se ele soubesse ler e acessar a internet, saberia que a tia Vanessa mandou um beijo e deu parabéns :) Fica registrado.



PS4: Então todo mundo gostou do tamanho da fonte? Dá para ler legal?



PS5: Na verdade, olhando bem, parece que sofri um acidente horrível, as manchas estão em um tom vermelho escuro, espalhadas principalmente nos braços e colo. A batida foi feia. Sobrevivi por pouco...risos...