Tuesday, November 16, 2004

Apenas um Número



Sempre fiz mais amizade com as mães das minhas amigas do que com minhas próprias amigas, talvez por ter irmãos bem mais velhos do que eu, sempre convivi mais com adultos do que com crianças. Porém, as amigas da minha idade dificilmente eram da minha idade. Faço aniversário no início do ano, sempre começava o ano letivo mais velha do que meus colegas, repeti a oitava série e no ano seguinte tinha quinze em uma sala de treze, quatorze. Além de tudo, as mães e irmãs mais velhas sempre me puxavam para conversar quando eu ia à casa das amigas, causando, às vezes, cenas de ciúmes por parte das meninas, que achavam que os pais gostavam mais de mim do que delas (porque eu sentava e conversava feito gente, coisa que elas não sabiam fazer).



Na faculdade eu tinha a idade de meus veteranos, depois fiquei um ano parada e no ano seguinte fiz cursinho. Fiz amizade com o pessoal do terceiro ano, eles com dezessete, eu com vinte e um. Não era de se estranhar que eu me sentisse tão deslocada no mundo. Quando comecei a nova faculdade, lá estava eu, entrando na vida adulta, cercada de adolescentes por todos os lados. Já não tinha mais muita paciência e às vezes ficava com fama de mal-educada. Me interessava pelos rapazes mais novos, mas graças a Deus nunca namorei nenhum. Eu não saberia o que fazer com eles e eles (principalmente) não saberiam o que fazer comigo.



Então veio a internet. Os blogs. Jamais imaginei que a melhor coisa que a internet me traria seria gente. Amigos. Me espantei quando percebi que meus leitores eram mais velhos do que eu. Alguns poucos da minha própria idade. Aos poucos foram chegando pessoas mais novas, um ou outro, mas a maioria continua sendo gente adulta.



Lá fora a gente faz amizade por proximidade. Vira amiga da menina que senta ao seu lado na sala de aula, que faz esteira junto na academia, que tem uma mesa perto da sua no trabalho, que mora na casa ao lado, que esbarra contigo na rua, que frequenta o mesmo supermercado, que é amiga do primo que vive na casa da sua avó onde você costuma passar os fins de semana, que frequenta a mesma igreja, o mesmo curso, as mesmas reuniões...não necessariamente essas pessoas têm grandes afinidades contigo, aliás, na maioria das vezes não têm nenhuma. Por isso cultivamos relacionamentos meia-boca, insatisfatórios, superficiais ou cheios de ressalvas.



Aqui, na net, as pessoas se tornam amigas por proximidade de idéias. Proximidade intelectual, afinidades que realmente contam. Sem dar muita bola para aparência, proximidade física e outros detalhes nos quais a gente se perde na hora de escolher amigos reais. Conhecer gente por proximidade física é um tiro no escuro.



No final das contas, meu marido é seis anos mais velho do que eu, meus melhores amigos também são mais velhos do que eu (alguns muito, outros pouco) e os que são mais novos têm cabeça de gente mais velha do que eu. Acho mesmo que até eu sou mais velha do que eu. Aliás, sempre achei isso. E me sinto em casa. A gente conversa e nem nota a diferença. Assim como com pessoas mais novas que realmente têm algo na cabeça.



Descobri, afinal, que esse negócio de idade não existe. É apenas um número que diz há quanto tempo você está neste planeta, mas que não diz nada sobre quem você realmente é, nem mesmo por quanto tempo ainda vai ficar por aqui. É apenas um número, nada mais. Eu tenho 24, mas poderia ter 42. Minha mãe tem 64, mas poderia ter 46, 22, 18, 25...converso com ela melhor do que com a maioria das meninas da minha idade, sobre qualquer coisa. Em compensação, conheço gente de 30, 32, 28, 45 com quem não consigo ter uma conversa legal, que deslanche, produtiva, em que a pessoa entenda o que estou dizendo. Idade é um número.



A gente é que coloca as distâncias, nós construimos os muros, as barreiras, as dificuldades. Na verdade a vida é bem simples, os relacionamentos são simples, as pessoas não são tão complexas quando falamos a mesma língua. É tudo muito mais divertido e interessante do que parece. Se soubermos eliminar idéias pré concebidas, se nos abrirmos para conhecer, entender, aprender...se estivermos atentos para pensar, observar, ter a exata noção do que se quer em um relacionamento.



Eu quero amizade. E não apenas isso, quero entender e me fazer entender, quero brincar e dizer bobagens, mas também ter o momento de falar sério. Quero o que me neguei durante tanto tempo. Não conseguia fazer amizades sólidas e duradouras porque nunca tive a sorte de encontrar, na carteira ao lado, no aparelho da academia, no corredor do supermercado ou na escada do edifício alguém como as pessoas que conheci pela internet (incluindo meu marido) e me sentia um ET.



Amizades virtuais, tanto as que ainda estão via computador quanto as que já se tornaram reais, foram meu maior presente nesses dois anos e meio de blogs. A internet foi legal comigo e eu só tenho a agradecer.