Naturalmente

Não costumo demonstrar muito entusiasmo em relação a nada. O que não significa que eu não me entusiasme com nada. É tudo culpa de minha terrível mania de agir naturalmente diante de pessoas ou situações para não parecer deslumbrada. Não é à toa que essa é minha frase mais usada: "Aja naturalmente". Acabo, às vezes, mandando a mensagem errada, como se eu não estivesse muito aí para nada, mensagem de descaso.
Em casa, porém, sinto-me à vontade para dar aqueles ridículos gritinhos de alegria que tanto alegram minha sobrinha e apavoram meu marido. Mas é que a família já me acha idiota, então não posso decepcioná-los. De resto, tento agir naturalmente, porque tenho uma reputação a zelar (acho).
A humanidade não precisa saber que não sou assim tão normal e que, ainda que tente agir naturalmente, por dentro estou tendo imensos ataques de alegria histérica. Geralmente me porto como uma Lady, aquele ar de "ah, é? Que coisa..." enquanto me seguro para não parecer uma maluca deslumbrada descontrolada.
Será que isso é ruim? Tentar agir com discrição enquanto minha vontade é bem outra? Será que isso é falsidade? Ou apenas uma forma de viver em sociedade sem precisar ser trancada no primeiro hospício que aparecer pela frente?
Será medo? Será que eu me escondo atrás dessa mania de agir naturalmente? Será que meu ridículo senso de ridículo tomou outra forma e hoje me engana, para que eu acredite que ele desapareceu, e usa a identidade falsa do "aja naturalmente"? Será que eu seria uma chata de sandálias se parasse de agir naturalmente? Sim, eu tenho medo de parecer ridícula, de parecer uma idiota por demonstrar empolgação por qualquer coisa que seja.
Será que alguém percebe isso? Será que é uma bobagem me preocupar com esse tipo de coisa? Eu falo pelos cotovelos e não me sinto ridícula, acho meu sorriso horrível, mas sorrio o tempo todo, sem me sentir ridícula, nem mesmo feia. Faço caretas, mostro a língua (sim, eu sou uma Lady muito da mal educada), brinco, uso roupas estranhas, faço coisas esquisitas no cabelo e não me acho ridícula. Por que raios tenho medo de parecer ridícula se muito raramente eu me sinto ridícula?
Escrevo textos ridículos como esse, usei um template ridículo por dois anos, posto fotos ridículas e não acho que estou ridícula. Por que raios teria uma preocupação tão ridícula quanto essa de não parecer ridícula?
Porque a gente não controla o que os outros acham da gente. Eu posso cuidar para não parecer ridícula e acabar parecendo ainda mais ridícula por isso. Eu posso cuidar um monte, mas se a pessoa com quem eu estiver conversando quiser me achar ridícula ela vai encontrar bons motivos para isso. Sempre há.
Medo do ridículo é ridículo. Aliás, qualquer medo é ridículo. Nos aprisiona, nos fecha, nos impede de viver como gostaríamos. E isso é ridículo, porque estamos carecas de saber que a vida passa rápido demais e deixar de fazer qualquer coisa por medo é perder tempo. E perder tempo por bobagem, convenhamos, é ridículo.
Às vezes me sinto como uma criança bem minúscula em uma festa cheia de adultos enormes. Dá vontade de me esconder debaixo da primeira mesa que aparecer e viver assim, segura, escondida, amedrontada. Mas isso é receita para frustração. Tenha medo, esconda-se, sinta-se seguro em seu mundinho fechado e seja a criatura mais frustrada de todo o universo. Sim, porque se a gente não arrisca, não enfrenta, não consegue nada.
Por isso eu não me escondo sob a mesa, mas continuo tentando agir naturalmente. Será que o "agir naturalmente" é, na verdade, uma forma de dizer que não estou segura do que sou? Porque se estivesse segura, seria absolutamente natural agir naturalmente. E se for apenas medo, insegurança, passa com o tempo ou eu tenho que arrancar, como fiz com tantas coisas que me prendiam?
Mesmo que passe com o tempo, não costumo ter paciência para esperar o tempo passar. Se eu identifiquei o problema e ele me incomoda, arranco. Sim, dói, é complicado, é ruim, mas eu vou ficar sofrendo com um problema identificado até quando?
Se o troço é um PNI (problema não-identificado) a gente não sabe o que é, portanto, não sabe como resolver. Mas quando a gente sabe o nome, sobrenome, endereço e telefone do problema, continuar se torturando, esperando que ele passe com o tempo, é ridículo.
Portanto, ao perceber-me sob a mesa, saio, discretamente e tento, mais do que nunca, agir sinceramente, ainda que, para isso, tenha que me forçar a não "agir naturalmente". Garanto, desde já, que isso vai ser difícil. Muito difícil.
PS: Estou descascando :)

Não costumo demonstrar muito entusiasmo em relação a nada. O que não significa que eu não me entusiasme com nada. É tudo culpa de minha terrível mania de agir naturalmente diante de pessoas ou situações para não parecer deslumbrada. Não é à toa que essa é minha frase mais usada: "Aja naturalmente". Acabo, às vezes, mandando a mensagem errada, como se eu não estivesse muito aí para nada, mensagem de descaso.
Em casa, porém, sinto-me à vontade para dar aqueles ridículos gritinhos de alegria que tanto alegram minha sobrinha e apavoram meu marido. Mas é que a família já me acha idiota, então não posso decepcioná-los. De resto, tento agir naturalmente, porque tenho uma reputação a zelar (acho).
A humanidade não precisa saber que não sou assim tão normal e que, ainda que tente agir naturalmente, por dentro estou tendo imensos ataques de alegria histérica. Geralmente me porto como uma Lady, aquele ar de "ah, é? Que coisa..." enquanto me seguro para não parecer uma maluca deslumbrada descontrolada.
Será que isso é ruim? Tentar agir com discrição enquanto minha vontade é bem outra? Será que isso é falsidade? Ou apenas uma forma de viver em sociedade sem precisar ser trancada no primeiro hospício que aparecer pela frente?
Será medo? Será que eu me escondo atrás dessa mania de agir naturalmente? Será que meu ridículo senso de ridículo tomou outra forma e hoje me engana, para que eu acredite que ele desapareceu, e usa a identidade falsa do "aja naturalmente"? Será que eu seria uma chata de sandálias se parasse de agir naturalmente? Sim, eu tenho medo de parecer ridícula, de parecer uma idiota por demonstrar empolgação por qualquer coisa que seja.
Será que alguém percebe isso? Será que é uma bobagem me preocupar com esse tipo de coisa? Eu falo pelos cotovelos e não me sinto ridícula, acho meu sorriso horrível, mas sorrio o tempo todo, sem me sentir ridícula, nem mesmo feia. Faço caretas, mostro a língua (sim, eu sou uma Lady muito da mal educada), brinco, uso roupas estranhas, faço coisas esquisitas no cabelo e não me acho ridícula. Por que raios tenho medo de parecer ridícula se muito raramente eu me sinto ridícula?
Escrevo textos ridículos como esse, usei um template ridículo por dois anos, posto fotos ridículas e não acho que estou ridícula. Por que raios teria uma preocupação tão ridícula quanto essa de não parecer ridícula?
Porque a gente não controla o que os outros acham da gente. Eu posso cuidar para não parecer ridícula e acabar parecendo ainda mais ridícula por isso. Eu posso cuidar um monte, mas se a pessoa com quem eu estiver conversando quiser me achar ridícula ela vai encontrar bons motivos para isso. Sempre há.
Medo do ridículo é ridículo. Aliás, qualquer medo é ridículo. Nos aprisiona, nos fecha, nos impede de viver como gostaríamos. E isso é ridículo, porque estamos carecas de saber que a vida passa rápido demais e deixar de fazer qualquer coisa por medo é perder tempo. E perder tempo por bobagem, convenhamos, é ridículo.
Às vezes me sinto como uma criança bem minúscula em uma festa cheia de adultos enormes. Dá vontade de me esconder debaixo da primeira mesa que aparecer e viver assim, segura, escondida, amedrontada. Mas isso é receita para frustração. Tenha medo, esconda-se, sinta-se seguro em seu mundinho fechado e seja a criatura mais frustrada de todo o universo. Sim, porque se a gente não arrisca, não enfrenta, não consegue nada.
Por isso eu não me escondo sob a mesa, mas continuo tentando agir naturalmente. Será que o "agir naturalmente" é, na verdade, uma forma de dizer que não estou segura do que sou? Porque se estivesse segura, seria absolutamente natural agir naturalmente. E se for apenas medo, insegurança, passa com o tempo ou eu tenho que arrancar, como fiz com tantas coisas que me prendiam?
Mesmo que passe com o tempo, não costumo ter paciência para esperar o tempo passar. Se eu identifiquei o problema e ele me incomoda, arranco. Sim, dói, é complicado, é ruim, mas eu vou ficar sofrendo com um problema identificado até quando?
Se o troço é um PNI (problema não-identificado) a gente não sabe o que é, portanto, não sabe como resolver. Mas quando a gente sabe o nome, sobrenome, endereço e telefone do problema, continuar se torturando, esperando que ele passe com o tempo, é ridículo.
Portanto, ao perceber-me sob a mesa, saio, discretamente e tento, mais do que nunca, agir sinceramente, ainda que, para isso, tenha que me forçar a não "agir naturalmente". Garanto, desde já, que isso vai ser difícil. Muito difícil.
PS: Estou descascando :)

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