Monday, November 29, 2004

T-r-i-s-t-e-z-a

É assim que se soletra

Ausência?








De vez em quando gostaria de tirar umas férias de mim. Já fiz isso algumas vezes, perdendo passado e presente, com a ilusão de algo diferente a construir. Já fiz de mim uma grande massinha de modelar, onde minhas mãos trouxeram de volta aquela que eu queria ser e desfizeram, amassando aqui e ali, aquela que eu não era.



Hoje pouco quero mudar, mas às vezes penso não me encaixar muito bem no mundo como ele é. Às vezes a educação esbarra na sinceridade e é sempre a primeira que acaba prejudicada. Nada posso fazer, eu sou coerente, não nasci para ser política.



Na maior parte das vezes gosto das pessoas e dos lugares, sempre procuro ver tudo com os melhores olhos possíveis. De vez em quando, porém, não existem olhos bons o suficiente. A gente tenta, tenta, tenta e não dá. Os olhos são bons, mas estão funcionando perfeitamente.



Às vezes tenho a sensação de que sou uma idiota. Acabo falando o que não deveria, achando que sinceridade é algo a ser valorizado neste planeta. Não é. Ah, não é mesmo.



Sabe, estou cansada. Cansada de como as coisas se movem por aqui. Não que queira ir para algum outro lugar, pretendo permanecer neste planeta pelos próximos cem anos, no mínimo. Mas que cansa, cansa.



Eu sou uma chata. Uma chata que às vezes se sente sozinha, mesmo sabendo que não está (e não está mesmo). Que poderia estar batendo perna por aí, nesta tarde chuvosa, mas prefere ficar em casa escrevendo, com um certo medo do calendário, porque o tempo está passando rápido demais.



O ano mal começa e já é quase natal, de repente não tenho mais doze, nem quinze, muito menos dezessete anos. Ontem fiz vinte e dois, em dois meses terei vinte e cinco. Como se faz essa conta?



Então olho no espelho e acho que engordei, a balança confirma. Parece que estou bem, só as roupas andam estreitas demais. Todas elas.



Aguardo um telefonema, uma mensagem, algum sinal de que realmente existo. Talvez eu seja apenas uma alucinação dos doze anos, exclusivamente minha. Talvez por isso sinta-me sempre uma visita inconveniente, desagradável, na vida alheia. Afinal de contas, sou alucinação particular, não posso sair por aí me intrometendo nas alucinações dos outros.



A vida segue. Eu quero um chocolate. Branco, que é mais doce e não tem gosto de chocolate. Embora eu até goste (e muito) do gosto de chocolate. Segue.



Desacelerei de uma hora para outra. O tempo passa. Eu, não.