Sunday, December 07, 2008

Não deixo marcas por onde passo. Deslizo sorrateiramente, naturalmente, como parte da paisagem. Sim, faço barulho, me espalho, tomo conta de cada espaço, tiro as pedras da calçada, desnorteio o roteiro, polvilho o caos, atraio tudo de bom e de ruim, mas depois passo, placidamente, sem muito alarde, desapareço com os dias e sou como se nunca tivesse sido, na história particular de cada um.

Minha lembrança fica como o suave aroma dos perfumes que não uso, como quando sentimos um cheiro que nos faz lembrar sei lá o quê. Sou sei lá o quê. Tudo, menos uma pessoa. Não consigo ser uma pessoa. Sou várias idéias, vapor de alguma coisa, uma luz que não se pode ver, um vento, sim, o vento, em várias direções, espalhando os papéis pela casa, espalhando tudo por onde passo, para que você saiba onde estavam coisas que nem se lembrava de ter possuído algum dia. Depois você guarda, arruma, organiza, cataloga, meu trabalho é só o de espalhar.

Ao redor das minhas próprias coisas, gravito por alguns segundos, pensando em quando conseguirei guardá-las, arquivar. Não arquivo nada, tudo está sempre em aberto, não me sinto no direito de fechar livros que não abri, não rasgo fotos, nem queimo cartas. Não sei estabelecer prioridades, não tenho como catalogar e arquivar, escolher o que merece minha atenção e o que espera o descanso de um baú. Por isso tudo se espalha, cada coisa ocupando, por instantes, seu lugar no topo. E os dias não se alargam, não se estendem.

Eu continuo passando, assim, no gerúndio, entre as linhas, sem nunca estar em uma palavra. Sou parte da paisagem, parte da lembrança, ninguém sabe exatamente se existi, pode ter sido apenas impressão. Sou uma impressão. O mais estranho é me sentir confortável nesta posição, com poucas inquietações, algumas certezas, e um punhado de boas intenções. Sou um vento que passa, sim, e talvez bem menos efêmera do que imagino, do que gostaria. Parei de me disfarçar e agora deslizo, invisível, pelas frestas e entrelinhas do que eu mesma desmontei.