Thursday, May 01, 2008

Ligeiramente míope



Minha visão tem estado embaçada. Coisas da idade... meus óculos estão fazendo aniversário, dois aninhos, que bonitinhos... e depois que comecei a dirigir, percebi que anti-reflexo na lente não é frescura, é necessidade. Lá vou eu fazer um óculos com todos os adicionais imprescindíveis, inclusive air-bag e ar condicionado. E acho que o astigmatismo já ganhou a companhia da miopia, pois meu olho esquerdo se deu melhor com a lente do Davison do que com a minha.

Se eu pudesse, faria tudo por aqui mesmo, mas depois de me adaptar a Porto Alegre eu me sinto mais segura por lá. Abro a lista da Unimed, escolho um oftalmologista (pode ser aquele maluco que nos atendeu da última vez, ele era divertido), conheço as óticas, tenho minha armação inteirinha (milagre, milagre!!! Uma armação sobreviveu a mim!!!)... Não que eu não me sinta bem aqui, mas fico mais à vontade em Porto Alegre para esses procedimentos.

Apesar disso ou até mesmo por já ter me adaptado fora, estou ficando menos antipática com Campo Grande. Até que esta cidade tem seu valor. Fora, é claro, os hipermercados 24 horas (por que raios Porto Alegre não tem hipermercado 24 horas, meu Senhor?), o centro decente da cidade (eu fujo do centro de Porto Alegre por causa daquele alemão, o Kauss...), a Riachuelo, as Pernambucanas (yes! Eu cansei da C&A, da Renner e da Marisa e nem pen-sar em comprar roupas em lojas com vendedoras persecutórias. Argh!), o Café Lírio (oh, céus, que lanchonete maravilhosa!!!!!! Posso entrar e comprar de olhos fechados, sei que vou comer um lanche bem feito, fresquinho, limpinho, gostoso, com um bom preço, super saudável e sem que ninguém tenha morrido para isso), o camelódromo (diz a lenda que Porto Alegre vai ter um...teriam de fechar Canoas inteira para caber todos aqueles camelôs do centro. Se eu fosse prefeita daquele lugar, demoliria o centro da cidade inteiro e construiria de novo)...

Campo Grande tem lá seu charme. Embora eu já esteja irremediavelmente apaixonada por Porto Alegre (quem diria, não?), não tem sido nenhum horror passar esses dias por aqui. Já estou planejando minha próxima viagem para cá e falei para a minha mãe que vou inaugurar a ponte-aérea Campo Grande-Porto Alegre, então eu e o Davison passaremos a semana trabalhando em PoA e viremos para Campo Grande passar os finais de semana, para relaxar...risos...

Como eu tenho uma porção de milhagens e algumas barras de ouro escondidas no sofá, consigo bancar algumas dezenas de viagens até terminar de construir minha máquina de teletransporte. Estou trabalhando nela, aproveitando alguns buracos de minhoca que sempre encontro em meu caminho. Será bastante útil, já que não tenho mais idade para viajar 26 horas de ônibus sem doer as costas, nem paciência para fazer ar blasé no aeroporto, na fila para o neurótico detector de metais de Guarulhos (ainda escrevo sobre minhas surreais experiências com a infraero).

Antes de vir, porém, passei por situações periclitantes. Logo que cheguei a Porto Alegre no mês passado, o Davison teve a magnífica idéia de mandar pintar as portas dos banheiros (e descupinizá-las também, tadinhos dos cupins, já tinham construído uma civilização milenar, estavam naquelas portas desde muito antes de pensarmos em voltar do Rio de Janeiro). Foi só o Davison começar a elogiar a minha pele para que explodissem carocinhos de todos os tamanhos em meu rosto, braços e pernas. Parecia uma versão maximizada da alergia que tive a esmaltes.

Um dia antes de eu vir, chegou a outra porta e já planejávamos pintar (romanticamente, nós dois) os marcos das portas quando me caiu a ficha....a única coisa que tinha em Porto Alegre que não tinha aqui era...o cheiro da tinta!!!! Comentei com o Davison e descobrimos então que a semelhança entre o esmalte de unhas e a tinta esmalte não está apenas no nome... lá vou eu marcar uma consultinha básica com um alergista.

Decidi tomar uma decisão drástica: como meus linfócitos T enlouquecidos resolveram se lembrar de todas as alergias que já tive na vida só porque ficaram histéricos com a tinta esmalte, o rímel voltou a irritar meus olhos, e temi que o ar condicionado voltasse a me encher de pelotinhas. A única saída foi arranjar uma franja enorme e óculos escuros para encarar o vôo a Campo Grande sem correr o risco de ser barrada por suspeita de varíola. Naquela altura do campeonato, meu rosto e principalmente minha testa já parecia um vasto campo epidérmico devastado pela catapora. Não estou exagerando. E meus olhos estavam tão vermelhos e inchados que eu parecia um lutador de boxe no último round com conjuntivite.

Prendi o cabelo, passei chapinha na franja, coloquei os óculos escuros e me disfarcei tão bem que nem meu marido nem minha mãe me reconheceram!!!! O pior foi descobrir o quão desinformada sou, quando, ao renovar a escova com minha cabeleireira campograndense oficial, ouvi da filha dela:

- Essa franja parece a daquela menina da novela. - E eu:

- Ah, é? Quem? Eu não vejo TV.

- Aquela...como é mesmo o nome dela? Aquela louca da novela. Isso, parece aquela louca da novela.

Hahahahahahahahahahahahahaha....pô, sacanagem! Eu vou escolher justo o penteado da "louca da novela"???? Depois vi um exército de campograndenses de cabelo escuro, liso e com franjinha....putz!!! Minha TV é um objeto decorativo na sala, acompanho notícias pela net e por jornais impressos e o pobre eletrodoméstico parou de funcionar por falta de uso. Não mandamos consertar ainda por falta de interesse. Nunca lembro de levar o troço à assistência técnica . Pensamos em comprar outra, mas deu preguiça e investimos em material de trabalho. Meus programas favoritos eram documentários do History Channel (muitos para falar mal, é claro), "Você é o que você come", "Acerte seu relógio biológico", etc. etc. etc.

Minhas revistas preferidas são de ciências, de literatura e linguística, meu passatempo predileto é sudoku e desafios de lógica, meus assuntos preferidos são nutrição, fisiologia, comportamento felino e física teórica. Ou seja, eu sou um alienígena que não tem o menor interesse em saber como são os cabelos das loucas de todas as novelas da TV aberta, para evitar cortes em série. Quando a testa melhorou (uma testa desse tamanho com uma porção de machucados explodidos certamente chamaria a atenção da humanidade, mas uma franja igual à da louca da novela não tem sido menos discreta), tentei esconder a franja, tarefa pouco satisfatória com os fios esticados pela chapinha.

Aliás, mesmo que muita gente tenha elogiado (fora a parte de parecer com o cabelo da louca da novela, pois acho que isso não é elogio), eu achei tão esquisito, mas tão esquisito, que percebi que ficaria mais à vontade com a catapora alérgica à mostra. Minha cara não combina com franja e vice-versa. Não combina com minha personalidade, não sou eu. Descobri agora o porquê de eu ter ficado dezessete anos sem usar esse penteado.

A parte divertida da coisa: as janelas e o portão da casa da vovó estão sendo pintados com...tinta esmalte! Lá estou eu com varicela alérgica de novo. Como já descobri que minha cara não vai explodir, lavei o cabelo (finalmente!!!!), os cachinhos voltaram e a franja virou uma camadinha curta simpática de fios enrolados (vantagens de se ter cabelo crespo...risos..).

Para alguém que cresceu acostumada a ser feia, esquisita e totalmente fora dos padrões, nenhum desvio estético incomoda, nem mesmo a cara cheia de carocinhos. Ter passado por todos os complexos possíveis e imagináveis na adolescência e ter me encaixado sem querer nos padrões (o que um aparelho ortodôntico não faz, né?) depois de uma certa idade, tem lá suas vantagens libertadoras. Depois tiro uma foto da minha alergia e posto aqui :-) Por enquanto, estou mais do que satisfeita em ter meus cachinhos de volta. Ainda que tenha uma constelação cor-de-rosa enfeitando meu rosto.






PS: Continuo sem checar e-mails e orkut. Meu tempo tem sido escasso, estou ajudando minha mãe com as escavações arqueológicas para que ela consiga se livrar das tralhas que deixei aqui sem prejuízo para a minha saúde mental, sem traumas horríveis de ver no lixo algum importante caderno da Idade do Lápis Lascado.