Saturday, November 22, 2008

Atualizando

Estou novamente em Campo Grande, desta vez por um período mais curto. Fiquei duas semanas sem acesso algum à internet e sem tempo para consertar o computador da minha mãe. Agora, felizmente, deu certo :-) Ainda não tive coragem de checar meus e-mails porque sei que encontrarei milhões deles esperando resposta e também bilhões de spams em cada uma das contas.

Resolvi escrever agora porque não consigo ficar com nada entalado na garganta. Preciso externar meu desgosto e minha profunda indignação. Sou um dinossauro bastante orgulhoso de seu período histórico e revoltado com alterações desnecessárias na estrutura das coisas previamente estruturadas. Bem estruturadas, por sinal.

Escrevo para dizer que não escrevo mais. Desisti. Joguei a toalha. Abandono a carreira e abraço os fósseis amigos, solidária com o absurdo do enfiamento compulsório da famigerada reforma ortográfica da língua portuguesa goela abaixo dos brasileiros a partir de janeiro de 2009. Não quero abrir um debate, quero apenas reclamar, com licença, o objetivo da reforma é gradualmente (imagine quantas reformas serão necessárias até completar o processo) alcançar uma unificação ortográfica dos países de língua portuguesa.

Eu que, assim como você, não fui consultada a respeito e passei anos torcendo para que essa porcaria nunca entrasse em vigor, tenho uma opinião absolutamente oposta. Acredito que o caminho natural seria a total separação entre a língua falada no Brasil e a falada em Portugal e nos outros países de língua portuguesa. A língua brasileira não é portuguesa há muito tempo, nem na ortografia, nem na gramática, nem na oralidade, em aspecto algum! Por que não marcarmos nossa individualidade com uma língua própria, bem estabelecida? Até aceitaria de bom grado uma reforma ortográfica porque temos - e ainda temos - uma porção de coisas que poderiam ser alteradas, mas jamais com o objetivo de aproximar, forçadamente, a língua brasileira à que se fala em Portugal.

Nada contra Portugal, os portugueses ou seu idioma, mas já conseguimos nossa independência há um bocado de tempo e poderíamos ir muito bem, obrigada, sem essas frescurites de meia dúzia de debiloides paranoicos que tiveram essa absurda ideia (assim, sem acento, como eles querem) de assinar um acordo desses sem nos consultar e que agora creem que nem os brasileiros que leem bastante se incomodarão com a nova ortografia.

Para os semianalfabetos, no entanto, a reforma não fará a menor diferença. Mas você talvez não goste de saber que passarão a existir por aí indivíduos subumanos, vidros semiopacos, fornos de micro-ondas. A única parte boa desse acordo esdrúxulo é que não serei mais criticada quando postar alguma coisa do teclado do lampertop, que não tem trema (até tem, mas eu nunca decoro qual é a sequência de caracteres que tenho de pressionar para tremar uma letra), pois o trema será definitivamente aposentado.

As mudanças são poucas e isso não me deixa menos indignada, pois são alterações bastante inúteis e que trarão um gasto enorme ao nosso país, pois teremos de atualizar absolutamente tudo, o material educativo, os livros, os softwares, documentos e nossas cabeças. E eu não conseguirei escrever tendo de pensar se a próxima palavra é acentuada ou não, eu nem me lembro de quando foi que aprendi isso!! Sim, sou um velhinha ranzinza que continuará a escrever de forma arcaica ad infinitum.

Graças a Deus não nasci na época da minha bisavó, antes da grande reforma ortográfica, ou teria morrido de desgosto. Mas ainda vejo com uma certa simpatia a ortografia alienígena do Cantor Cristão que ela deu de presente para a minha mãe, que se anuncia: "Cantor Christão - Hymnario das Igrejas Baptistas do Brasil" e cujo primeiro hino, a Antífona, tem o título: "Antíphona".

Folgo em saber que estou bem acompanhada nessa minha indignação, li recentemente críticas de Claudio Moreno e do Pasquale a respeito dessa coisa ridícula que é o tal acordo. Até onde sei, Portugal está mais reticente, resolveu pensar melhor e parece protelar um pouco mais a entrada em vigor das regras. Uma "reforma" cosmética inútil, cara, incompleta, com um objetivo equivocado, baseado em na premissa falsa de que todos os países de língua portuguesa falam o mesmo idioma, o que justificaria uma união. Não falam.

Coloquemos na cabeça, de uma vez por todas, que somos uma nação independente, já nos desligamos há tempos de Portugal e não deveríamos abrir mão de absolutamente nada que nos diferencie de outra nação, a menos que haja um motivo realmente importante para isso, o que não é o caso. O Brasil vive como se não merecesse ter recursos próprios, como se não merecesse uma língua própria, objetivos próprios, direção individual, para poder fazer frente aos outros países, de igual para igual (ou quase igual), na globalização.

E nem adianta colocar a culpa no Lula, porque esse pensamento minúsculo já estava lá muito antes dele, e em alguns momentos, até muito pior. É um problema generalizado, que começa em cada brasileiro. Também não adianta ir para o extremo oposto e querer colocar as nossas culpas nos "imperialistas" e começar a chamar os americanos de "estadunidenses", digitando palavras de ordem em seu "laptop", clicando em "enter", tomando coca-cola e comendo m&m's. Jogar nossas culpas sobre os outros é sempre o caminho mais fácil, eu viro a vítima, o outro personifica tudo o que não quero assumir. É muito cômodo.

O caminho mais difícil é ver o que o outro fez que eu ignorei, o que eu fiz que o outro rejeitou, o que o outro plantou para que ele colhesse o que eu queria colher? E tentar consertar, na medida do que for possível. Isso não é sorte, é planejamento. E não passa por acordos inúteis com objetivos escusos (porque definitivamente o objetivo disso NÃO é unificar a língua portuguesa), mas pela educação.

Se o governo quiser, realmente, fazer uma reforma que seja útil para o Brasil, que comece por uma reforma profunda na estrutura do sistema educacional deste país, para que a escola seja um lugar em que as crianças realmente aprendam algo, desenvolvam sensibilidade artística e um raciocínio crítico, o que futuramente nos ajudará a proteger nosso patrimônio cultural e histórico de atrocidades sem pé nem cabeça como essa reforma insana.



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