Saturday, September 23, 2006

Aquarela

Estava até agora incomodando meu marido e meus vizinhos, cantando "Aquarela". A razão de eu ter feito isso é bem simples: queria tirar uma outra música da cabeça. Para isso, nada melhor do que uma música que a gente goste.

Sempre que eu ouço Aquarela não posso deixar de pensar que ela sintetiza a vida de uma forma tão delicada e leve que eu não havia percebido que ali Vinicius estava tentando me avisar, desde cedo, o que viria (eu não percebia, até porque eu cantava "E o futuro é um astronauta que tentamos pilolar", ou seja, perdi mais tempo pensando em como pilolar um astronauta do que refletindo sobre a letra da música).

Quando Vinicius morreu (cedo demais), três meses antes de completar 67 anos, eu tinha quase seis meses de idade. Naquela época eu nem sabia que já estava no mundo. A bem da verdade, eu nem sabia o que era mundo. Ele já sabia de tudo isso, a que Toquinho me apresentou algum tempo depois.

Hoje, lendo outros autores, não entendo o que ainda nos leva a escrever, repetindo tudo o que já foi dito antes de nós. Nada temos a acrescentar, e mesmo assim continuamos escrevendo. Na maior parte das vezes não conseguimos chegar nem perto da maestria com que nos descreveram a vida os que vieram antes de nós. Mas continuamos a escrever.

Que vício é esse que nos faz continuar a tingir o papel, mesmo sabendo que um dia tudo há de descolorir? Mesmo sabendo do fim inevitável das coisas, continuamos. Mesmo sabendo do fim inevitável de tudo, escrevemos.

Não estou aqui sugerindo que deveríamos sentar em nossas poltronas sem mover um mísero músculo, esperando a morte chegar porque, afinal, tudo acaba. Mas é engraçado ver o quanto nos esforçamos, nos estressamos, arrancamos nossos cabelos e destruímos nossa saúde (a única coisa que pode adiar o inevitável fim e nos dar um tempinho a mais para pensar) por nada, ignorando que tudo passa, acaba, desvanece, descolore.

E continuamos escrevendo. Uma amiga ontem comentou o espanto que lhe causou minha auto-definição no site do Desafio Literário, retirado de um texto antigo: "Sou uma esponja que suga todas as influências ao redor e libera, se espreme, ao correr de uma caneta sobre o papel. Impeçam-me de escrever e eu morro inchada." Para mim, escrever tem essa característica compulsiva. Carrego um caderno dentro da bolsa porque não suporto o acúmulo de coisas ao final do dia, dentro de mim, tenho que colocar no papel. O caderno é quase uma extensão da minha cabeça e do que guardo atrás do esterno (existe um reservatório de emoções, impressões e anotações internas atrás do esterno, estou certa disso).

E ali, então, surgem coisas dos mais variados tipos, contos, crônicas, pequenas notas, algumas coisas acabo publicando, outras ficam guardadas para sempre. Escrevo. Gosto de ser lida, mas gosto mais de escrever. Gosto de ser lida, mas tenho a necessidade de escrever, como necessito beber água, comer, respirar e tomar banho.

Ao mesmo tempo, não acredito no escrever como uma inspiração divina, uma incorporação mediúnica ou um chilique histérico. Para mim, escrever é trabalho, braçal e intelectual, como é desenhar e pintar. Prazeroso, mas nem por isso deixa de ser cansativo. Embora eu me sinta muito mais leve depois de um bom texto. Mas eu jamais tive com o desenho o relacionamento amoroso que tenho com a literatura.

O desenho era um bom amigo, que me irritava de vez em quando, mas com quem eu gostava de conversar. Só que ele seguiu sua vida e eu segui a minha. De vez em quando nos encontramos, de vez em quando sinto saudades, como ontem, quando encontrei entre as compras do Davison um bloco de papel canson e uma fine pen. Não arrisquei rabiscar nada nas folhas do meu marido. Mas senti uma nostalgia, a lembrança suave que se tem dos mortos.

Nem isso sinto pela minha poesia. Ela foi embora, odiada. Detesto cada verso piegas que escrevi, abomino cada poema. Gosto da boa poesia, escrita pelos outros. Ao mesmo tempo em que me empolga a idéia de trabalhar a poesia durante o curso (porque teremos essa matéria), por ser ministrada por um professor cuja poesia (e prosa) eu admiro, apavora-me pensar que serei obrigada a produzir alguma coisa nesse sentido. Justo eu, que havia prometido que nunca mais cometeria um verso.

Esse curso não é para qualquer um, meus amigos, é para quem não tem medo de enfrentar seus piores pavores, de mudar o que for necessário, de ser desvendado. Porque ele mexe com os alicerces do seu texto, mexe com a base de quem você achou que era. Assusta. Outra opção, caso você não seja uma criatura destemida, é ser maluca e sem noção o suficiente para, mesmo apavorada, achar legal e ir em frente, buscando o desafio não por não temê-lo, mas por curiosidade, o que é meu caso. Acho que meu gato amarelo teve a quem puxar.

Até porque, veja só, tudo acaba. Se ficarmos fugindo da poesia, do amor, das amizades, das novidades, dos desafios, daqui a pouco a astronave se espatifa em um asteróide e não fizemos nada.


Aquarela
Vinicius de Moraes

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Vai voando, contornando
A imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando
Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando
É tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo
Um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo
Sereno indo
E se a gente quiser
Ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Um menino caminha e caminhando chega num muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá