Autor Desconhecido
Lançamento do livro Caiu na Rede traz à tona o problema da autoria falsa na internet
por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
Cora Rónai lançou o livro Caiu na Rede, pela editora Agir. Já deu entrevista no Jô, foi tema de reportagens em quase todos os jornais que eu conheço (o que significa que estou ligeiramente atrasada nesta crônica) e lançou o assunto da troca de autoria de textos na internet à pauta. O livro é uma coletânea de textos de autores desconhecidos que foram atribuídos a autores conhecidos e também de autores já consagrados que tiveram sua autoria alterada. Outros vieram ao conhecimento público sob a alcunha de "Autor Desconhecido", essa entidade tão presente na web, que passa, com ares de naturalidade, de e-mail em e-mail, sem que ninguém questione sua existência. Há pouco mais de um ano, indignada com o pipocar de textos de amigos pouco conhecidos atribuídos à entidade misteriosa, criei o blog Autor Desconhecido. O subtítulo traduz todo o objetivo do site: "este blog existe para provar que o autor desconhecido não existe". Textos não se auto-produzem. Eu, particularmente, nunca conheci um texto que fosse resultado de geração espontânea. O tal "Autor Desconhecido" é o cara mais criativo da internet. E o que mais produz textos, também. Altruísta, espalha seus textos por e-mail para que sejam copiados sem dó nem piedade, pelo simples prazer de divertir os outros, não quer créditos, não exige respeito. É o autor mais legal da net, o cara que distribui suas coisas, abre mão do seu trabalho e não se incomoda em gastar horas e horas de seu tempo criativo a fazer um texto legal e vê-lo surrupiado por outra pessoa. Desculpe destruir suas ilusões, ele não existe. Também a probabilidade do "Autor Desconhecido" ser um cara que omite seu nome para não se expor é ínfima, quase nula, a ponto de não poder ser levada em consideração, creia. O que acontece é que, atribuir um texto ao "Autor Desconhecido" lhe dá a aura de algo anacrônico, confiável e lendário, escrito por tal figura mitológica sem rosto. Mesmo que seja uma tremenda bobagem. Escrever é trabalho e dá trabalho. Dar o devido crédito (ou não atribuir um texto ruim a um bom autor) é reconhecer seu trabalho, respeitá-lo, acima de tudo. Há muita coisa por trás de um texto e a baderna autoral na internet é um tema tão complexo que eu precisaria de umas vinte crônicas para importuná-los o suficiente com a informação básica sobre o assunto. Não quero parecer (tão) chata, portanto limito-me a listar algumas frases clássicas dos repassadores de mensagens e minhas respostas a elas. "Não sei quem é o autor, mas repassei o texto porque a mensagem vale a pena" ou, a variação: "Não sei quem é o autor, mas o texto é muito legal e achei que você gostaria de ler" Primeiro, se a mensagem vale a pena, ótimo, você entendeu o texto. Não tem autor ou você não tem certeza de quem escreveu a coisa. Pense a respeito, reflita e escreva um texto seu com aquilo que aprendeu. Não copie o texto, por favor, escreva um texto novo, passando mensagem semelhante com suas palavras, coloque seu nome e envie a quem quiser. Se é a mensagem que importa... Se sentir dificuldade, leia. Pegue um livro, outro livro, outro livro, um jornal, uma revista e vá se familiarizando com a língua e com as formas de se comunicar através da linguagem escrita. É muito mais construtivo do que clicar no "enc" ou copiar e colar um texto sem pai nem mãe. Não tem tempo para isso? Viu como dá trabalho? Se quiser copiar algo, copie de um livro confiável, tasque o nome certo do autor entre o título e o texto e sinta-se um bom cidadão, contribuindo para diminuir a ignorância dos habitantes deste planeta. Se acha que nada substitui aquele texto per-fei-to, vá à luta. Pesquise, procure, é difícil, mas não impossível, encontrar o verdadeiro autor. Segundo, se você achou o texto muito legal, então, por favor, respeite o autor. Pesquise, encontre, confirme e só então envie. Se não encontrar, não repasse, você sobrevive. "O site (ou blog, ou agenda, ou perfil, ou qualquer outro espaço) é meu, é pessoal e eu coloco nele o que eu quiser, com ou sem nome do autor." O espaço ser pessoal e o dono poder fazer o que quer não dá a ninguém o direito de ser antiético e mal educado. Por exemplo, a casa da sua amiga é dela, ela faz lá dentro o que quiser, mas se você esquecer sua bolsa lá o fato de a casa ser dela não lhe dá o direito de mexer na sua bolsa, usar as suas coisas, gastar seu dinheiro como se fosse dela e jogar no lixo o que bem entender. A casa é dela, mas a bolsa e sua. Então, o site é seu, mas o texto, não. "Ele deveria ficar feliz, se alguém roubou o texto é porque é bom" Seguindo esse raciocínio, se alguém entrar na sua casa e roubar seu aparelho de dvd, fique feliz. Se o ladrão gostou, é porque o aparelho era bom. "Repasso bons textos porque acho que é uma forma de incentivar a leitura" Não é errado enviar textos legais para estimular a leitura, errado é fazer isso sem nem ao menos se dar ao trabalho de fazer uma pesquisa simples no Google. Não custa nada, é só colocar um trecho do texto entre aspas, pesquisar e descobrir o autor. Se não tiver tempo para pesquisar na hora, não repasse o texto, deixe para mais tarde. A pessoa pode até ler, mas sem o autor correto não poderá pesquisar novos textos do cara, caso se interesse subitamente pela leitura. "Escritor quer crédito por causa do ego" Escritor quer crédito por causa do respeito ao seu trabalho. Se você trabalha em uma empresa e desenvolve, depois de um árduo trabalho, um projeto espetacular, acha correto distribuir aos seus colegas e ficar bem feliz ao ver seu projeto (exposto e elogiado) creditado a algum deles ou ao "funcionário desconhecido"? "Acho que é do Verissimo" Toda vez que leio isso tenho arrepios. Porque o "acho que é do Verissimo" transforma-se em "é do Verissimo" no e-mail seguinte e aí proliferam-se os apócrifos mais absurdos que vemos circulando por aí. Martha Medeiros, em recente entrevista à Zero Hora, enxerga nesse fenômeno uma prova de que lê-se muito pouco neste país. Isso é verdade. Então, além de pedir encarecidamente que não repassem textos de autoria desconhecida, duvidosa ou não confirmada, acho válido pedir, por favor, que antes de "achar que é do Verissimo", dê um pulinho na loja de livros usados e compre um livro do autor em questão (seja ele Verissimo, Quintana, Saramago, Shakespeare, Borges ou quem quer que seja) ou vá a uma biblioteca, empreste e leia, atentamente, para saber de quem está falando. Dê uma pesquisada em sites confiáveis, procure conhecer a biografia do sujeito que você está culpando por aquele texto, reflita, pense bem. Se você não tem tempo para nada disso, por favor, utilize seu escasso tempo para qualquer coisa que não seja encaminhar mensagens suspeitas. Para respeitar o autor, para difundir textos de forma responsável, para agir de forma educada e ética, para aprender e ensinar corretamente, para, no mínimo, não passar por ignorante. Internet é só mais um meio de transportar informações, não é uma outra dimensão em que nossos valores e princípios podem ser jogados no lixo assim. Somos pessoas lidando com pessoas, como em qualquer outro lugar, qualquer outra situação. Respeito. É o que pedimos. Simples assim. PS: Tanto o site do livro Caiu na Rede (http://www.livrocaiunarede.com.br) quanto o Autor Desconhecido (http://www.autordesconhecido.blogger.com.br) contêm diversos textos com a autoria desvendada, servindo como banco de dados para pesquisas sobre autoria.
[04/05/2006]

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