Saturday, March 12, 2005

Amigos de verdade
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Cuidei durante pouco mais de uma semana de uma gatinha que não podia mais se mover. Sempre tão ativa e companheira, a Lady definhava claramente e eu não queria enxergar. Acreditava com todas as minhas forças que mais uma vez ela iria contrariar todas as expectativas e ficar de pé novamente. Deitada, paralisada em sua caminha, apenas seu olhar tranquilo me seguia pela sala. Eu dava o remédio, água e comida pastosa em sua boquinha com a ajuda de uma seringa. No último dia ela esperou que eu chegasse do cursinho para se despedir, ir ao céu dos gatos e deixar um buraco imenso na minha alma.

No ano seguinte foi a vez do meu pai. Subitamente, infartado, sem que eu pudesse me despedir. Justamente no momento em que eu esperava um tempo para consertarmos tanta coisa mal resolvida. Ficou aquela frustração e mais uma vez um buraco no peito. Planejando me entregar a uma depressão que eu comodamente apelidei de luto, tingi os cabelos de preto, para não precisar me preocupar com a aparência enquanto eles desbotavam. Felizmente olhei-me no espelho, os cabelos bem mais escuros do que naturalmente são e minha cara apagada. Fui obrigada a olhar para mim (coisa que eu não queria fazer), inventar uma maquiagem diferente (foi quando adotei o lápis preto) e seguir a minha vida. Tanta coisa se seguiu, o processo, intrigas, roubos, lutas...não havia tempo para me deprimir.

Com a morte da Lady me apeguei mais ao Nermal, para que ele não se entristecesse demais pela falta da mãe. Antes de ela morrer eu entendi que havia me pedido para cuidar dele. Cuidei. Tínhamos nossos próprios códigos e ele era muito mais do que um amigo, era um irmão e tanto. Crescemos juntos, foram quase quinze anos de convivência diária que fizeram dele a minha companhia para todas as horas. Quando fui morar em Porto Alegre cogitei fortemente a possibilidade de levá-lo comigo. Mas o apego que ele tinha à minha mãe e a longa viagem de avião somadas à sua idade avançada me fizeram recuar.

Cheguei a ir a Campo Grande só para ficar com ele, enquanto minha mãe viajava. Ele adoeceu rapidamente, de um mal que não entendemos direito. De início, parecia dor de dente e eu acreditava que uma simples extração traria meu gatinho de volta à velha e redonda forma. Foram dias de esperança, voltei para Porto Alegre e em seguida para o Rio imaginando que meu gatinho sairia daquela sem grandes problemas. E então ele morreu. Assim, sem aviso prévio. Morreu e pronto. Eu não estava por perto, não pude me despedir dele como fiz com a Lady, não pude mostrar a ele que ele não estava sozinho. Ele estava sozinho.

A gente faz o que pode e na verdade a gente pode muito pouco. Porque eu fui atenta na hora de evitar um problema renal mais grave fazendo tratamento para os cálculos e trocando de ração, mas não fui atenta o suficiente para escovar-lhe os dentes periodicamente e evitar uma inflamação. Fui atenta na hora de cuidar para que a Lady não sofresse um aborto desnecessário depois do atropelamento, mas não fui atenta o suficiente para perceber que a bola que ela tinha na barriga era uma hérnia que lhe bloqueava o intestino. Meu pai foi atento na hora de parar de fumar após uma síncope, mas não foi atento o suficiente para tirar umas férias e fugir do stress.

E às vezes somos totalmente atentos, mas as coisas acontecem. Acontecem porque nosso corpo (e o dos animais) é frágil, é perecível e o ciclo da vida inclui a morte. Biblicamente, antes do homem desobedecer a Deus não havia a morte, a desobediência deu ao diabo a autoridade que pertencia a nós e a morte passou a existir. Os animais são vítimas inocentes do erro humano. Acreditando nisso ou não, sabemos que não temos controle sobre tudo, aliás, temos controle sobre poucas coisas.

Fazemos a nossa parte e não podemos fazer nada além. Lembrei disso tudo ao ver nos olhos de amigos muito queridos a dor que um dia já foi minha. E nessas horas a gente não tem mesmo o que dizer, só orar para que eles fiquem bem e estar ali para eles sempre que preciso. Eu o conhecia muito pouco, mas o suficiente para me apaixonar pelo gato mais sociável que já conheci, mais dócil, amável e tranquilo. Educado e espaçoso, estava seguro do amor que recebia e da liberdade que tinha dentro de casa. Muito simpático, o primeiro siamês red point que eu conheci na vida, para me mostrar que não, não era uma lenda. Um Lorde, dono da casa e chefe da ala felina da família. As gatinhas agora consolam as pessoas, eles sabem lidar com essas coisas muito melhor do que nós, ainda seres atrasados em compreender pacificamente as regras do jogo.

Não ia escrever sobre isso para respeitar a dor alheia. Mas a dor de repente virou minha também. Porque o que eu li no texto do Paulo,
eu poderia ter escrito em Setembro passado ou em agosto de 2001. Quem tem um amigo felino sabe o quanto essa conexão é poderosa.

Passei as duas últimas semanas enlouquecidamente tentando adotar um gato. Achei que nunca ia passar, mas a ferida finalmente cicatrizou e eu confesso que tenho saudade de uma companhia que mie. E quero dar a um gatinho a felicidade de ter um lar e uma amizade tão especial assim. Ainda lembro com uma profunda saudade dos meus grandes amigos, do presente que ganhei de Deus, que foi a convivência com aqueles dois, das nossas conversas, dos nossos códigos e dos nossos hábitos. De dormir com a cabecinha dele apoiada em meu braço, cantar para a minha gatinha, nossos rituais e rotinas...guardo no fundo do peito lembranças bonitas e a certeza de que eles estão muito bem. A certeza que aplaca a dor e me faz descansar, sabendo que a minha obrigação é viver da melhor forma possível, aproveitando a oportunidade que tenho e que foi tirada dos meus amigos. Porque eles não gostariam de me ver sofrer.

Não vou mais falar sobre isso porque sei que o silêncio alivia e conforta muito mais, cicatriza com muito mais eficiência do que qualquer palavra. Mas tinha que deixar aqui meus profundos sentimentos e meu desejo mais intenso de que volte a brilhar nos olhos da minha amiga aquela luz tão bonita que eu costumava ver. E Paulo, tenho certeza de que ele não gostaria nada nada de te ver entregue. Pegue um curto tempo de silêncio e depois reaja, ou ele vai olhar com aqueles olhinhos azuis lá de cima, impaciente, e dizer: "puxa vida, será que ele não aprendeu nada do que eu lhe ensinei?"

Fica a lembrança de três gatinhos que foram muito amados, que tiveram uma vida muito feliz e que tranquilamente foram morar no céu dos gatos muito antes do que esperávamos que fossem. Tiveram a vida feliz e tranquila, o amor e o carinho que a maioria dos gatos nunca chega a conhecer, abandonados nas ruas ou desprezados em casa. Eles sabiam do amor, do cuidado e da amizade, por isso certamente levaram consigo lembranças tão doces quanto as que guardamos conosco, para sempre.


* Foto: Montagem- Lady, Nermal e Candide


PS: As histórias do Nermal e da Lady ainda estão na página principal do gateira, se alguém ainda não leu.

Ps2: Hoje é aniversário do meu irmão, Vladmir. Talvez, quem sabe, ele tenha feito algum dia uma pesquisa com meu nome por aí e encontrado este blog. Nesse caso, vale registrar aqui meus parabéns e meus votos de felicidades.