Saturday, February 19, 2005

Bianquinha



Ela não é um gato. É, eu sei, parece gato, mas garanto que trata-se de um poodle. Ou um roedor. Tentei explicar a ela que gosto de gatos, não sou lá muito chegada em poodles nem em roedores, mas ela me ignora.

Nos primeiros dias ela estava calminha, só um pouco apavorada com todos os barulhinhos que ouvia, mas dormia o dia inteiro e vivia perto de mim, carinhosa. Um dia o Dave estava fazendo a pizza e ela deitou com a cabecinha em cima do pé direito do rapaz, a coisa mais fofa.

Mas ela estava recém-chegada de um período de um mês em um hotelzinho em Campo Grande que a deixou desnutrida, estressada e sem grande parte dos pêlos. Além de tudo, enfrentou uma viagem de avião de lá até aqui sem sedativo (a "veterinária" deu uma injeção que não surtiu efeito algum).

Assim que voltou a se alimentar e se recuperou, Bianca (sim, ela tem o mesmo nome da gata da minha mãe) mostrou sua verdadeira face.

Davison comprou um ratinho de brinquedo que ela acha o máximo. Caça o bicho até matá-lo, depois carrega ele na boca com a maior cara de felina caçadora. É o terror dos papéis de bombom e de qualquer outra coisa que ela ache "brincável" na casa (e para ela tudo é brinquedo).

Descobriu que se jogar o ratinho debaixo da geladeira, eu pego para ela. Então pega o brinquedo com a boquinha e leva até a cozinha, em frente à geladeira. Aí brinca, joga para um lado, para o outro até que "acidentalmente" ele corre para baixo da geladeira. Após certificar-se de que não consegue tirá-lo de lá, vem reclamar comigo, miando, mostrando que o ratinho fugiu. Só descansa quando eu finalmente pego o roedorzinho. Para começar então tudo novamente.

Corre desesperadamente pela casa, de um lado a outro, subindo no sofá, na cama e na janela (todas as janelas estão fechadas, obviamente) até parar, ofegante, com a língua para fora, feito um cachorro. E a qualquer barulhinho lá fora, ela corre para a porta, feito um cachorro.

Agora pegou a mania de morder. Descobriu que tem dente, quer morder tudo (e todos). As caixas de papelão estão todas furadinhas pelos dentes dela, nossas pernas e braços vivem em constante estado de alerta, ela não arranha, mas os dentinhos são afiadíssimos.

Roupas, sapatos, móveis, caixas, tudo o que puder ser mordido, mordido será. Ou roído. Descobrimos uma bala de morango debaixo do sofá e ao verificarmos o baleiro percebemos duas balas abertas e uma delas com marcas de dentinhos minúsculos.

Ela é um ser minúsculo. Mas já tem um ano e um mês, teve uma cria antes de ser castrada, mas como não precisou criar os filhotes, seu senso de responsabilidade é zero. Talvez se alguém lhe arrumasse um filhote ela acalmaria...ou teria a quem morder :)

Agora ela está super saudável. O sonho de sua vida é ficar trancada na geladeira, tamanha a pressa que ela tem em enfiar-se lá dentro tão logo alguém abra a porta. Sim, ela é insuportável. Mas sentirei falta desse bichinho.

No domingo ela faz mais uma viagem. Desta vez de carro, para Caxias do Sul, onde reencontrará seus donos: minha irmã Claudia, o marido dela, Adalcir, e minha sobrinha Raíssa.

Diz a lenda que ela sempre foi maluquinha assim. Bem, eu avisei minha irmã do estado enlouquecido em que essa criaturinha se encontra e ainda assim ela está ansiosa para ter sua gatinha de volta (isso é amor). Depois não diga que eu não avisei...risos...

Não é um gato, é um poodle. Uma siamesa no sentido mais extremo da palavra. Agora ela está dormindo em algum lugar desconhecido, possivelmente dentro do box do banheiro (é que está calor), depois de tentativas desesperadas (e inúteis) de me tirar do computador.

Tudo é brinquedo. Eu disse tudo. Pedaços de papel, guardanapos, rolo de papel higiênico vazio, garrafa de plástico, lápis, lixa de unha, papéis de bala e até um ratinho de brinquedo.

O mais engraçado foi sair domingo de manhã para ir à igreja, eu e Dave muito bem arrumados, abrimos a porta e cumprimentamos a vizinha, que ainda não nos conhecia e conversava com outra senhora da mesma idade. Então um um rolo de papel higiênico vazio rola pela porta até pouco além dos meus pés.

Tentei disfarçar, chutando-o de volta com um sorriso amarelo no rosto, mas ela já tinha visto. Então tentei consertar:

-Ah, o brinquedinho da Bianca! - E o Dave, rapidamente:
- Da gata.

A mulher olhou com uma cara estranha, puxou a amiga para dentro do apartamento e fechou a porta :) Ainda bem que daqui a dez dias estaremos longe (ou estaremos longes, como diria José Sarney).

E ainda bem que a próxima semana será agitada, de encaixotamento de coisas e "emalamento" de outras coisas, assim não vai dar tempo de sentir falta da Bianca.

Ah, descobri uma coisa, se eu escondo o rosto com as mãos, a cabeça encostada na cama, ela vem, preocupada, saber o que está acontecendo. Começa a ronronar e a lamber minha mão, achando que estou triste.

Outra coisa, não gosta de ficar sozinha. Se estamos na sala, ela vem para a sala, se vamos para o quarto, lá vai ela para o quarto. E tem uma clara preferência pelo Dave (não a culpo, eu também tenho uma clara preferência por ele), também adora mastigar o dedo dele em momentos de distração. :)

Domingo então ela vai para casa. A única coisa que me consola é que alguééém me prometeu um filhotinho (que deve estar para nascer) e dentro em breve deixarei de participar do MSG (movimento dos sem-gatinho).

Meu primeiro gatinho será carioca, o segundo, gaúcho. Pretendo criar um casalzinho. Alguém pode se lembrar agora de que quando o Nermal morreu, em Setembro, eu disse que nunca mais teria outro gato.

Pois é, mas eu quero dar a outro gatinho a oportunidade de ser amado como ele foi, de ser tão bem cuidado quanto ele foi. Apesar de tudo, a vida tem que continuar. E ninguém jamais vai tomar o espaço do Nermal na minha vida, vai ser outro gatinho, com outro espaço, outra história.

A propósito, devo alertar aos proprietários de gatos, principalmente siameses: favor levar seus gatinhos periodicamente ao veterinário para escovar os dentes. Se eu tivesse feito isso, provavelmente meu gatinho faria quinze anos em Maio.

Mas enfim, não pensemos em coisas tristes porque ele está bem feliz agora, lá no céu dos gatos. E domingo finalmente poderei varrer a casa sem ter ninguém grudada na vassoura, mordendo as cerdas ou se jogando sobre a sujeira varrida, espalhando tudo novamente. E isso, de certa forma, deve compensar o vazio que ela vai deixar aqui.

Ao menos lá ela será muito bem tratada, amada e terá mais espaço para correr e mais pés para perseguir. E será muito feliz, tenho certeza. :)