Friday, February 25, 2005

Chegando a Hora...


Dois dias para a viagem. Aos poucos vou conseguindo me comunicar com Porto Alegre. A cidade ainda me assusta, mas confesso que estava com saudade do gizquematabaratatraçaeformigasóumreaaal. O Rio Grande do Sul é mesmo outro país.

O povo aqui reclama (o povo reclama em qualquer lugar), mas as coisas por essas bandas funcionam bem melhor do que no resto do Brasil. Sem contar o valor que eles dão para o que é daqui.

Os escritores, os cantores, os conjuntos musicais, os curtas, as editoras, os jornais, as lojas, a moda, a rotina....tudo o que é daqui é melhor. Certos eles! Se não mantiverem uma identidade, uma auto-estima elevada, não serão nada no cenário nacional.

Como Mato Grosso do Sul, por exemplo. A gente nunca acha que o que é nosso é melhor, muito pelo contrário. Só damos valor quando o que era regional passa a fazer sucesso no Rio e em São Paulo. Detestamos ser lembrados pelo Pantanal, mas não nos achamos capazes de criar nada pelo que possamos ser lembrados. É uma pena.

Claro que tem um ou outro grupo que se orgulha de ser sul-matogrossense, que toma tereré o dia inteiro e vai a bailes vestido de peão. Esses recebem olhares atravessados da "elite" ou dos "intelectualóides".

Talvez seja um estado complexado, que não conseguiu firmar uma identidade e por isso ninguém nem sabe onde fica ou o que tem por lá. Mato Grosso do Sul? Tem onça andando na rua? A gente tropeça em Jacaré? Você conhece Coca-Cola? (É sério, eu já ouvi isso)

Eu mesma nunca tive grande afinidade com o estado, talvez porque ele mesmo não se valorize. É como com pessoas: se você não tem uma boa auto-estima e não se valoriza, ninguém vai te valorizar. Se você não se respeita, ninguém te respeita também.

Aí os complexados acham que errados estão os que se valorizam: "Aquele povo se acha"... Ninguém precisa inferiorizar quem já se sente inferior. Valorizar o que se tem não é, necessariamente, achar-se melhor do que os outros. Quem realmente sabe seu valor não tem necessidade de subvalorizar o outro.

Quem não tem consciência do seu próprio valor deveria imitar a atitude de quem se valoriza, não falar mal. Quem prefere falar mal a mudar de atitude demonstra escassez de neurônios. Ou preguiça mental mesmo.

Eu preciso de raízes, e este é um lugar interessante para criá-las. Desta vez vou para o Rio sentindo falta do Rio Grande do Sul. Estranho, não? Porto Alegre ainda não me parece muito acolhedora, mas o Rio Grande do Sul, o conceito gaúcho, tudo o que envolve o jeito gaúcho de ser, sentir e viver me parece interessante. Assim como o café colonial e o fondue de Granela :)

Mas eu vou. O Rio de Janeiro também é outro país. Ainda estranho, com duas caras, lindo e opressivo, fragmentado e culturalmente interessante.

Minha intenção é aproveitar cada dia desses quatro meses, para não deixar escapar absolutamente nada. Viver intensamente cada segundo, absorver informações em tempo recorde para trazer de volta ao Rio Grande do Sul o maior número de registros da viagem.

Para manter na memória, para imprimir na alma, para fazer com que quatro meses se transformem em quatro anos em aproveitamento de tempo. Será uma viagem concentrada. Quatro anos em quatro meses.

Reclamo de ter que me mudar de lá para cá, de cá para lá, mas é uma fase, apenas. Depois ficarei em um lugar fixo por muito tempo, o negócio é aproveitar a mobilidade enquanto posso.

É a vantagem de alcançar a tal vida adulta: a consciência de que tudo passa, de que o tempo passa depressa e que devemos aproveitar o que passa por nós, antes que passe.

E não desperdiçar nada. Nem tempo, nem oportunidades, nem relacionamentos, nada. Eu tenho uma facilidade enorme em fazer desafetos sem perceber.

Às vezes uma palavra atravessada, uma frase dita de forma errada, motivos que só eu entendo e que acabo não explicando. Algumas vezes dá para reverter, mas sempre depende do outro lado. Outras vezes, melhor mesmo ficar longe do que insistir. O importante é sempre fazer nossa parte e não desperdiçar nada.

Ando cansada de ler sobre mim aqui. Claro que eu nunca consigo deixar de falar sobre mim, mas talvez não tão escancaradamente. Dar uma amenizada no umbiguismo que acaba esvaziando o texto. Sem perceber já comecei a fazer isso. O post anterior é uma prova, talvez eu esteja evoluindo.

Não me interessa também fazer relatório dos meus dias, mas do que acontece aqui do lado de dentro. Afinal de contas, foi para isso que criei este blog, para falar dos monstros que temos que enfrentar, contra os quais temos que lutar e vencer todos os dias. E o tamanho deles depende de como os vemos, da importância que damos a esses monstros.

Tenho derretido os monstros que passam por mim. A idéia é destruir um a um e não deixar que fiquem enormes. E acabo invertendo as coisas, escrevendo para mim no blog e para os outros em cadernos que acabam guardados. Sempre penso em alterar a forma de dizer as mesmas coisas aqui e acabo não fazendo nada. Agora, talvez, eu mude.

Em dois dias, para o Rio de Janeiro.

PS: O Rio Grande do Sul é terra de ótimos blogueiros, como a
Rúbia, a Claudia Letti, a Dani (ella) e o top dos tops (sim, eu a-do-ro esse cara) Edmund Bonaparte . Se alguém souber de outro gaúcho (natural ou adotado, tipo eu) talentoso na blogosfera (e lembrem-se que minha memória é sofrível) me avise. E se algum blogueiro gaúcho (natural ou adotado) talentoso lê esse blog ou é meu amigo, me perdoe a amnésia temporária e identifique-se...risos...eu sou horrível.

PS2: É também a terra do meu amigo Alec, que não é blogueiro, mas é talentoso :)

PS3: É, enfim, a terra do homem mais maravilhoso do mundo :) Dave!!! O responsável por minha vida pingue-pongue ser tão divertida, por mais absurdo que isso pareça para a minha própria cabeça.