A Ruga

Hoje encontrei uma nova ruga. Nova sim, porque tenho outras, mais antigas. Fruto de um charminho ignorante, que me traz vincos e marcas completamente dispensáveis. Faço muita careta e costumo franzir a testa (rugas antigas) e o nariz (a nova ruga), além da mania insuportável de morder os lábios que já me trouxe algumas aftas.
Alguém vai me dizer (como todo mundo me diz) que isso não é ruga e sim marca de expressão. Ora bolas, rugas de expressão também são rugas. Aliás, praticamente todas as rugas são de expressão. Encontre um velhinho bem velhinho na rua e tente catalogar rugas de expressão e de não-expressão. Me desculpe, rugas são todas iguais.
O que se espera de alguém que tem um sulco horizontal profundo entre os olhos aos vinte e quatro anos de idade? Preciso, urgentemente, de um anti-rugas potente ou acabarei colocando botox antes dos 25.
Tem um risco hotizontal entre meus olhos. Marca de minhas caretas de alegria, de espanto, de tristeza, de nojo, de desprezo, de fofura, de monstruosidade...eu franzo o nariz para tudo, sem sequer perceber. É o vinco mais idiota que alguém poderia ter.
Não faz muito tempo que tenho essa mania imbecil, mas ela me persegue e deixa marcas. Ando com uma cara de nada absoluto, sem grandes expressões da ponta do nariz para cima para ver se consigo resolver parte do problema e vou, sim, vou providenciar um Renew, um Age-Reverse, um Chronos, qualquer creme anti-risquinhos faciais que realmente funcione.
Mas para quê? Eu sei, um dia estarei com o rosto cheio de rugas, com a cara pior do que uma uva-passa de tão enrugada, é inevitável para quem pretende viver até os cento e vinte anos. Mas isso demanda tempo, vivência, experiências, anos e anos e anos e anos...filhos (dão rugas), trabalho (alto potencial enrugante) e eu não tenho nada disso ainda.
É uma ruga oportunista, sem razão de existir, inútil e mentirosa, simplesmente não posso aceitá-la. Ao mesmo tempo, sei que tenho que me preparar. Me preparar para as primeiras rugas de verdade, com motivo, por anos passados, trabalho, experiência, vivência e filhos, quatro filhos que quero ter (sim, aumentamos um. O terceiro estava se sentindo muito sozinho).
Preparada também para o primeiro fio de cabelo branco que espero que demore para aparecer (uma das irmãs da minha mãe teve o primeiro fio de cabelo branco aos 49 anos. Em contrapartida, minha mãe e minha irmã tiveram o primeiro fio despigmentado antes dos vinte). Eu tinjo os cabelos por hobby, ainda não por necessidade, tanto que fico dois, três, quatro meses sem pintar, às vezes.
Vamos explicar às rugas que as coisas têm uma certa ordem: primeiro a experiência, depois as marcas. Alguém pode argumentar que a linha é tão fininha que mal se vê. Mas é assim que começa.
Todas as coisas grandes já foram pequenas algum dia (nossa, que profundo). Ou você acha que rugas absurdas e sulcos monstruosos surgem da noite para o dia, já daquele tamanho? É assim, sem que se perceba. Linhazinha por linhazinha, até transformar-se em uma imensa teia de papel amassado.
O tempo vem e me avisa em tênues linhas que já tenho quase vinte e cinco anos e não posso mais fazer caretas adolescentes impunemente. Vem e me avisa em discretas modificações em meu corpo e em minha mente que tudo está mudando.
Olho no espelho à procura de algo que justifique aquelas marcas, mas sinceramente, não encontro. E hoje, olhando uns potinhos de creme anti-rugas, fui abordada por uma vendedora (ah, as vendedoras...ô raça que me detesta!) que perguntou se eu queria ajuda. Respondi que não, estava apenas olhando.
Ela perguntou se era para mim. Pensei em responder: "você realmente acha que eu preciso disso?" Mas tive medo da resposta. Agradeci a preocupação, mas disse que estava apenas olhando, ela (que deveria ser surda) me disse que eu não poderia usar aquele creme porque a linha era para pessoas acima de trinta.
Só daqui a cinco anos, quando essa linha estiver acompanhada por mais vinte linhas é que poderei lançar mão da linha de cremes anti-linhas daquela bendita marca. Só o que me faltava. Se eu usar uma quantidade ínfima do tal creme exatamente em cima da ruga, automaticamente o cosmético identificará a idade da consumidora, fazendo soar um alarme: "Bip! Bip! Biiip! Alerta, alerta, pele de vinte e quatro anos de idade!!!" E então descolará toda a epiderme, fazendo parte da minha cara esfarelar-se automaticamente.
E as rugas na alma? As marcas que ficam na gente antes do tempo, lembranças perdidas em uma mente tão jovem. Não se pode reclamar delas antes dos trinta, a gente tem que fingir que a pele está lisa, que a alma está fresca, que a mente está em branco como uma folha de papel recém tirada do pacote. Depois dos trinta, você tem o direito de reclamar, mas vai ouvir alguém dizer: "Por que não cuidou disso antes?"
O mundo tem senso de humor.
PS: Meus leitores são mimados. Sim, eu os acostumei mal. Dia desses foi a Blanda, agora é o Claudio que sente-se desprezado porque não respondi seu comentário. Me desculpe, deixei de responder uma porção deles, mas prometo colocar tudo em dia, o mais rápido possível. Por favor, que ninguém leve para o lado pessoal. Adoro responder comentários, mas realmente não tive tempo de fazer todos. Quem mandou mimá-los? Agora que já estão estragadinhos, não dá mais para consertar, não é mesmo? :)

Hoje encontrei uma nova ruga. Nova sim, porque tenho outras, mais antigas. Fruto de um charminho ignorante, que me traz vincos e marcas completamente dispensáveis. Faço muita careta e costumo franzir a testa (rugas antigas) e o nariz (a nova ruga), além da mania insuportável de morder os lábios que já me trouxe algumas aftas.
Alguém vai me dizer (como todo mundo me diz) que isso não é ruga e sim marca de expressão. Ora bolas, rugas de expressão também são rugas. Aliás, praticamente todas as rugas são de expressão. Encontre um velhinho bem velhinho na rua e tente catalogar rugas de expressão e de não-expressão. Me desculpe, rugas são todas iguais.
O que se espera de alguém que tem um sulco horizontal profundo entre os olhos aos vinte e quatro anos de idade? Preciso, urgentemente, de um anti-rugas potente ou acabarei colocando botox antes dos 25.
Tem um risco hotizontal entre meus olhos. Marca de minhas caretas de alegria, de espanto, de tristeza, de nojo, de desprezo, de fofura, de monstruosidade...eu franzo o nariz para tudo, sem sequer perceber. É o vinco mais idiota que alguém poderia ter.
Não faz muito tempo que tenho essa mania imbecil, mas ela me persegue e deixa marcas. Ando com uma cara de nada absoluto, sem grandes expressões da ponta do nariz para cima para ver se consigo resolver parte do problema e vou, sim, vou providenciar um Renew, um Age-Reverse, um Chronos, qualquer creme anti-risquinhos faciais que realmente funcione.
Mas para quê? Eu sei, um dia estarei com o rosto cheio de rugas, com a cara pior do que uma uva-passa de tão enrugada, é inevitável para quem pretende viver até os cento e vinte anos. Mas isso demanda tempo, vivência, experiências, anos e anos e anos e anos...filhos (dão rugas), trabalho (alto potencial enrugante) e eu não tenho nada disso ainda.
É uma ruga oportunista, sem razão de existir, inútil e mentirosa, simplesmente não posso aceitá-la. Ao mesmo tempo, sei que tenho que me preparar. Me preparar para as primeiras rugas de verdade, com motivo, por anos passados, trabalho, experiência, vivência e filhos, quatro filhos que quero ter (sim, aumentamos um. O terceiro estava se sentindo muito sozinho).
Preparada também para o primeiro fio de cabelo branco que espero que demore para aparecer (uma das irmãs da minha mãe teve o primeiro fio de cabelo branco aos 49 anos. Em contrapartida, minha mãe e minha irmã tiveram o primeiro fio despigmentado antes dos vinte). Eu tinjo os cabelos por hobby, ainda não por necessidade, tanto que fico dois, três, quatro meses sem pintar, às vezes.
Vamos explicar às rugas que as coisas têm uma certa ordem: primeiro a experiência, depois as marcas. Alguém pode argumentar que a linha é tão fininha que mal se vê. Mas é assim que começa.
Todas as coisas grandes já foram pequenas algum dia (nossa, que profundo). Ou você acha que rugas absurdas e sulcos monstruosos surgem da noite para o dia, já daquele tamanho? É assim, sem que se perceba. Linhazinha por linhazinha, até transformar-se em uma imensa teia de papel amassado.
O tempo vem e me avisa em tênues linhas que já tenho quase vinte e cinco anos e não posso mais fazer caretas adolescentes impunemente. Vem e me avisa em discretas modificações em meu corpo e em minha mente que tudo está mudando.
Olho no espelho à procura de algo que justifique aquelas marcas, mas sinceramente, não encontro. E hoje, olhando uns potinhos de creme anti-rugas, fui abordada por uma vendedora (ah, as vendedoras...ô raça que me detesta!) que perguntou se eu queria ajuda. Respondi que não, estava apenas olhando.
Ela perguntou se era para mim. Pensei em responder: "você realmente acha que eu preciso disso?" Mas tive medo da resposta. Agradeci a preocupação, mas disse que estava apenas olhando, ela (que deveria ser surda) me disse que eu não poderia usar aquele creme porque a linha era para pessoas acima de trinta.
Só daqui a cinco anos, quando essa linha estiver acompanhada por mais vinte linhas é que poderei lançar mão da linha de cremes anti-linhas daquela bendita marca. Só o que me faltava. Se eu usar uma quantidade ínfima do tal creme exatamente em cima da ruga, automaticamente o cosmético identificará a idade da consumidora, fazendo soar um alarme: "Bip! Bip! Biiip! Alerta, alerta, pele de vinte e quatro anos de idade!!!" E então descolará toda a epiderme, fazendo parte da minha cara esfarelar-se automaticamente.
E as rugas na alma? As marcas que ficam na gente antes do tempo, lembranças perdidas em uma mente tão jovem. Não se pode reclamar delas antes dos trinta, a gente tem que fingir que a pele está lisa, que a alma está fresca, que a mente está em branco como uma folha de papel recém tirada do pacote. Depois dos trinta, você tem o direito de reclamar, mas vai ouvir alguém dizer: "Por que não cuidou disso antes?"
O mundo tem senso de humor.
PS: Meus leitores são mimados. Sim, eu os acostumei mal. Dia desses foi a Blanda, agora é o Claudio que sente-se desprezado porque não respondi seu comentário. Me desculpe, deixei de responder uma porção deles, mas prometo colocar tudo em dia, o mais rápido possível. Por favor, que ninguém leve para o lado pessoal. Adoro responder comentários, mas realmente não tive tempo de fazer todos. Quem mandou mimá-los? Agora que já estão estragadinhos, não dá mais para consertar, não é mesmo? :)

<< Home