Thursday, December 16, 2004

Ponto-e-vírgula



Não pareceu despedida, na verdade tenho que tomar cuidado para não pegar o ônibus na terça-feira que vem e ir parar em laranjeiras, esperando uma nova aula. Cheguei atrasada, como sempre, e ela estava lá, dirigindo a cena. Um casal de colegas suava para conseguir exatamente o tom esperado em nossa peça, escrita por ela.



Quando cheguei aqui, no dia 14 de Setembro, o curso já havia começado. Confesso que cheguei a pensar em não ir, mas minha mãe me lembrou o quanto sempre quis essa oportunidade. Confesso (mais uma vez) que achava que o teatro era uma parte "superada" na minha vida, que na verdade eu deveria me concentrar na literatura e deixar o resto no passado. Ledo engano.



A arte é uma coisa só e suas manifestações se completam, sorte de quem - como eu - tem inclinação para praticamente todas as suas ramificações. Minha primeira peça encenei aos cinco anos, confraternização de fim-de-ano da escola, em um teatro de verdade, em um clube. A aceitação foi tão boa que tive que repetir o papel no ano seguinte. A Cigarra, de "A Cigarra e a Formiga".



Também aos cinco anos ganhei a máquina de escrever da minha mãe (na verdade ela nunca deixou de ser dela, mas eu sempre tive certeza de que era minha...risos...), escrever e atuar nasceram juntos e eu não sei por que imaginei que deveria optar por um dos dois.



Na primeira aula, fiz a leitura de "Motivo" de Cecília Meireles, poema do qual gosto bastante. Respirei fundo, nervosa, coração disparado, havia repetido mentalmente o texto e estava perfeito. Comecei a ler em voz alta:



"Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa

Não sou alegre nem sou triste,

sou poeta.



Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

No vento.



Se desmorono ou se edifico,

Se permaneço ou me desfaço,

não sei, não sei.

Não sei se fico ou passo.



Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

mais nada. "



Terminei o texto, espantada com minha própria capacidade de fazer uma interpretação tão ruim. Ela olhou para mim e disse, sem rodeios:

"Semana que vem você faz de novo porque eu não tenho nem o que dizer, ficou...nada. Ficou nada, sem expressão alguma."



Dei um sorrisinho sem graça, mas satisfeita, por pior que pareça, porque eu sabia que tinha ficado ruim e ela foi bem sincera, embora o meu julgamento tenha sido ainda mais duro.



Monah é uma daquelas pessoas que fala o que pensa, sem medo de ofender porque sabe o que deve ser dito. E só se ofende quem não tem desconfiômetro para enxergar os próprios erros, por favor!



Daí para diante, cada aula era uma nova descoberta, mas não apenas da arte de interpretar, o mais interessante era aprender nas entrelinhas, nos adendos que ela fazia, os comentários, as histórias que contava... e digo mais, ela é muito, mas muito mais jovem do que eu (o que, convenhamos, não é lá muito difícil). No começo eu ficava mais quieta, observando, aos poucos percebi que todo mundo se conhecia da primeira aula que não assisti, só eu estava me colocando como um ser alienígena. Aos poucos fui me mostrando mais.



Mas o que mais me interessava, além disso tudo, era descobrir o que raios eu ainda tinha a ver com o teatro. Tudo, eu digo. Hoje, ao final das apresentações ela me disse o que eu precisava ouvir: "Você ainda vai para o teatro". Disse que eu tenho um talento extraordinário e que tem certeza de que meu caminho é o teatro. Não a contradigo.



Fugi do teatro esses últimos anos, mas ele me persegue desde a infância, assim como a literatura. Para que evitar um deles? Se representar e escrever, no fundo, causam em mim a mesma sensação maravilhosa de virar a alma do avesso e ser várias, reviver experiências na alma, ainda que sejam diferentes da história contada. Porque quando a gente representa ou escreve, resgata sentimentos e situações vividas no passado, para construir a alma do personagem. E isso de se virar do avesso, acredite, é uma das sensações mais maravilhosas do mundo.



Da primeira impressão "ficou nada, sem expressão alguma" até a última, do "muito bom, ótimo, excelente, muito bom mesmo" foram onze semanas de muito trabalho e aprendizado contínuo. Conheci gente muito boa por lá também, meus colegas de curso. Mas foi tão rápido que fica aquela sensação de se querer conhecer mais profundamente aquela gente em quem se deu apenas uma pincelada, a gente mal passou da fase de deixar de ser estranho, uma pizza, algumas horas de conversa e muito ainda a se descobrir. Ao menos eu fiquei com uma vontade horrorosa de conhecer todo mundo, urgentemente.



Mergulhamos rápido em um universo novo para muita gente e ligeiramente conhecido para mim. Um universo do qual eu já me julgava distante há muito tempo, mas a voz da Monah hoje à tarde foi a voz do próprio teatro me chamando de volta. Acho que vou escutar.



Eu não acho que exista algo que eu faça que não me seja útil algum dia, tudo vale como experiência e toda a experiência é válida. Uma das melhores coisas da vida é aprender, crescer, evoluir, descobrir novos caminhos, para somar, sempre. Mas esse curso, além de uma experiência, é um marco. Não vou deixar a literatura, afinal de contas, eu ainda nem entrei nela, mas aprendo, neste momento a não fechar mais as portas para mim.



E Monah Delacy, uma atriz extraordinária, dona de muitos talentos, é uma das poucas atrizes de verdade que disponibilizam seu tempo e talento para ensinar, com vocação e vontade, àqueles seres assustadinhos, que mal sabem o que é teatro e o que estão fazendo ali. Paciência, dedicação, talento, vontade, pulso firme e desprendimento, sempre alertando para a importância da leitura no desenvolvimento do ator (e de qualquer pessoa). Nos sentimos realizados nessas semanas, descobrindo o prazer de atuar, tendo a oportunidade de conviver com essa pessoa maravilhosa, com uma história de vida impressionante e uma experiência profissional invejável.



Aparentemente dura, mas muito amável e doce, forte e frágil, alegre e ligeiramente melancólica, Monah não tem contradições em si, mas sim uma intensa carga dramática de quem se assume mulher de verdade, com todas as nuances que um ser humano pode ter. Gostaria de ter tido tempo de conhecê-la mais, corro o sério risco de exagerar em algumas coisas e inventar outras ao descrevê-la porque ela é uma pessoa tão interessante e tão complexa, se esconde tão bem atrás de seus olhos, que qualquer tentativa de definí-la pode ser extremamente equivocada. Mas de uma coisa tenho certeza: é, sim, uma mulher extraordinária e uma atriz incrível. Quando ia nos explicar o que queria entrando em nossas improvisações, interpretando algum de nossos personagens, arrancava aplausos sinceros de uma turma absolutamente boquiaberta com sua atuação.



Para quem se interessa pela área e busca um desafio, descobrir seu potencial, vai o endereço da CAL (Casa de Artes de Laranjeiras): http://www.cal.com.br/cursos/paralelos.htm. Novas turmas serão admitidas para o próximo ano, mês que vem para os cursos de verão e depois para os cursos paralelos e regulares. O nosso foi "Introdução ao Teatro", aliás, título do livro da Monah, indispensável para quem quer conhecer um pouco mais dessa arte tão negligenciada em nosso país.



Agora, ponto. Certificado nas mãos, e-mails anotados, fotos entregues à Monah (que recusa-se a ser chamada de "professora"), fica um ligeiro vazio a se preencher nas tardes de terça-feira. Hoje, quinta, aula extra, última aula. Percebo que não nos despedimos, os alunos, e não choramingamos "última aula" entre nós ou com a Monah. Talvez porque haja em mim a certeza de voltar a ver todos eles, talvez porque saibamos das piruetas que a vida costuma dar e que - sem dúvida alguma - voltaremos a nos encontrar. Eu, eles, ela e o teatro.



Ponto não, ponto-e-vírgula.