Sunday, October 29, 2006

Amor e Ódio


Tenho uma relação de amor e ódio com alguns escritores, eu incluída. A parte boa é que estou em ótima companhia. Tenho uma relação de amor e ódio com Saramago, por exemplo, porque tenho um problema de visão que torna a leitura daqueles blocos maciços de texto um inferno. Por isso separo os parágrafos com um espaço.

Tenho uma relação de amor e ódio com Clarice Lispector porque me irrito com a repetição de algumas palavras e situações em textos diferentes. E sou chata. Tenho uma relação de amor e ódio com Millôr Fernandes, por achar que ele tem preguiça de escrever, muitas vezes. Tenho uma relação de amor e ódio com Machado de Assis, com Oscar Wilde, com Assis Brasil, com Márquez e com Érico Verissimo.

Pretensiosamente, me incluo na tal lista. Tenho uma relação de amor e ódio comigo mesma, não por detalhes da minha produção literária, como os exemplos acima, mas por às vezes estar bem certa de que escrevo bem e estou no caminho certo, e às vezes acreditar que meu texto é uma porcaria e eu deveria atirá-lo de um penhasco com uma pedra amarrada ao pescoço.

Tenho uma relação de amor e ódio com a literatura. Às vezes não sei para que raios ela serve, se tudo acaba nessa vida. Me irrito pela dependência que tenho, pela necessidade que sinto de escrever, de ler, de me envolver cada vez mais com esse mundo.

Eu me envolvi com a literatura de tal forma que ela me prendeu como uma rede de pesca alucinada, não movo nem braços, nem pernas, nem me comunico, nem caminho sem ela. Ela me expõe quando me escondo, me faz eviscerar de uma forma esquisita (se é que existe uma forma não esquisita de eviscerar), e tem me botado medo.

É, ela tenta me intimidar, faz careta, faz barulho, me assusta para ver se eu fujo, se desisto. Ando com mania de perseguição, e acho que meus textos estão me boicotando. Não sei se são amigos ou se são inimigos, não sei o que esperar do ínfimo tempo que tenho para botá-los a correr.

Cada palavra deve ser medida, uma palavra errada é uma erva-daninha que passa despercebida e tira a harmonia do texto. Ando perfeccionista. Um horror. Às vezes quase arranco a cabeça fora, mas percebo que seria contraproducente e prefiro deixá-la no lugar, por pior que seja. Tenho uma relação de amor e ódio com a minha cabeça.

Se pudesse, me enfurnaria ad infinitum em minha caverna, aqui, protegida, fazendo pinturas rupestres nas paredes, esfregando pedras para produzir fogo (nunca conseguiria) e caçando mamutes de soja. Mas infelizmente, o mundo exige a minha presença. E eu sempre acho que falo demais, as palavras me fogem com uma rapidez doentia e eu encaro os olhares fixos no que estou dizendo, enquanto procuro a segunda parte da palavra cuja primeira parte estou a repetir há alguns minutos.

Tenho uma relação de amor e ódio com encontros sociais. Caverna, caverna. Ostra. Lacrada. Fechada hermeticamente. Hoje, sendo sincera, estou sofrendo horrores com a idéia de que amanhã passarei o dia inteiro fora de casa, impossibilitada de tomar um banho no final da tarde e ajeitar a minha cara decentemente. Ao mesmo tempo, estou encantada com a idéia das coisas que eu tenho a fazer amanhã. Tenho uma relação de amor e ódio com as coisas que tenho a fazer nesta semana.

Tenho uma relação de amor e ódio com minha agenda recém-ativada, ela tem desenhos de flores e coraçõezinhos que nada têm a ver comigo, só está dentro da minha bolsa porque era o exemplar mais barato. Eu tenho isso, de olhar o preço, esmiuçar rótulos, não me guiar pela primeira impressão, pela aparência.

Tenho uma relação de amor e ódio com a idéia de dormir agora, e, pior ainda, com a idéia de que já deveria estar dormindo e continuo compulsivamente acordada, mesmo caindo de sono. A literatura me incomoda, me atrapalha (não fosse ela, eu já teria dormido), me persegue. Deve ser resultado de alguma praga bem praguejada que alguém jogou sobre a pobre e desvalida criatura que vos escreve. Sempre soube que tinha inimigos, mas jamais imaginei que eles pudessem ser tão cruéis.